Itens obrigatórios num filme da madrugada do Canal Brasil

por Michel Laub

 

Fuscas – o nacional-desenvolvimentismo sobre quatro rodas, conduzido por um repórter policial que inveja o puma do playboy levando garotas para a Barra da Tijuca. Ao mesmo tempo, ele é invejado pelo escriturário que se aperta num ônibus cujo motorista é Roberto Bonfim, este com a camisa aberta até o sexto botão.

 

Cuíca – um tipo de sonoplastia importado de antigos comerciais do Epatovis B12, e aqui usado como trilha para momentos recorrentes: quando o marido não consegue cumprir as cláusulas noturnas do contrato de núpcias, por exemplo, o que levará a sua mulher diretamente para os passeios de lotação.

 

Distanciamento brechtiano – a consciência do ator de que ele é ator, de que o público sabe que ele é ator, de que o mundo é apenas uma representação e que por isso, principalmente quando se diz coisas como “sou contínuo, mas você é um grandessíssimo filho da puta”, não há necessidade de fingir o contrário.

 

Distanciamento sonoro – o conceito literário da polifonia, ou concorrência de vozes distintas para narrar a mesma história, aplicado num único personagem: sua boca se mexe numa direção, suas palavras em outra. Por trás de tudo, seja na balbúrdia da Cinelândia, seja no burburinho da avenida São João, o silêncio como metáfora de uma época de opositores calados pela ditadura militar.

 

Cenas de uísque – à diferença de Tennessee Williams, Eugene O’Neill, Edward Albee e outros dramaturgos americanos, que costumam usá-la como catalisador de debates candentes entre mães, filhas, maridos e cunhadas, aqui a bebida sela as relações cordiais entre banqueiros e barões da indústria, todos vestidos em roupões brancos e com o sorriso malévolo do Carlos Kroeber.

 

Lucélia Santos pregando a integração racial – Ou Vera Fischer, aos eternos 18 anos, mostrando a pertinência dos valores familiares e cristãos – dependendo, evidentemente, da leitura que se fizer do Evangelho.