A vida dos rinocerontes

por Michel Laub

 

Há uma armadilha em que Marlon Brando, o melhor de todos os ex-alunos do Actors Studio, e atores contemporâneos mais ou menos da mesma família, como Clive Owen e Russell Crowe, sempre evitaram cair: deixar que o carisma de sua presença, baseado num imaginário ancestral da figura masculina, falasse mais alto que a técnica, aquilo que o trabalho de um intérprete tem de autonomia e de construção interior para além da intensidade física.  

 

Na Hollywood de hoje, o mais óbvio caso oposto é Sean Penn. Outro é Benicio Del Toro. Num filme como 21 Gramas, que esses dias passou de novo na TV, a reunião dos dois transforma cada cena no que Pauline Kael chamou, em contexto semelhante, de documentário sobre a vida selvagem dos rinocerontes (“onde todo mundo bufa o tempo todo”). Tamanha catarse de testosterona se sobrepõe a qualquer eventual verdade da trama, e o que já se equilibrava na corda bamba da solenidade, como se estivesse ditando bulas originais sobre temas-caixa-alta como a Vida e o Destino, o Eu e o Outro, acaba passando do ponto e caindo nos braços gordos do kitsch – aqui, em versão úmida, granulada e digital. Para completar, só falta Forest Whitaker no elenco.

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