Michel Laub

Categoria: Livros

Como (não) ler os clássicos

A vida é curta demais para ler “História da Literatura Ocidental sem as Partes Chatas”, da americana Sandra Newman, que foi tema da Ilustrada no último sábado. A vida pode ser longa demais, porém, e certas polêmicas literárias acabam inevitavelmente se repetindo.

Texto publicado na Folha de S.Paulo, 18/7/14. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um livro – Um outro amor, Karl Ove Knausgard (Companhia das Letras, 585 págs.).

Uma conversa – Karl Ove Knausgard e Jeffrey Eugenides (http://goo.gl/82hjDX)

Um dossiê – Racionais Mc’s na Cult.

Um galeto de R$ 13 em Porto Alegre – Santa Helena.

Um bar – Antique.

Livros brasileiros bons e recentes – trechos

F, de Antonio Xerxenesky (Rocco, 239 págs.) – “Eu não sabia de nada em 1985, no dia em que o telefone tocou, no dia em que alguém que nunca saberei quem é, uma dessas sombras fugazes que só podem ser vistas em dias nublados e que, ainda assim, governam nosso mundo, encomendou a morte de Orson Welles.”

A vez de morrer, de Simone Campos (Companhia das Letras, 256 págs.) – “Quando mergulhava na piscina, os olhos estavam fechados. E aí vinha o pensamento: E se um dia eu abrir os olhos embaixo d’água e não vir o tanque azul-claro forrado de azulejos, e sim aquela turbidez ardida e verde do mar? O que impedia isso? Piscinas às vezes ficavam verdes se ninguém cuidava delas. Era água, era tudo água. E mesmo de olho fechado. Eu podia mergulhar aqui, levantar a cabeça e emergir em alto-mar — “emergir” recém-aprendido de Sinbad, o marujo; onde também aprendera que se fosse parar em alto-mar ninguém poderia salvá-la. O que impedia isso? Que uma pessoa sumisse, desaparecesse da existência, fosse tragada pela terra? Nada. A não ser a presença de alguém, que, como nos filmes, flagraria o fenômeno paranormal e contaria para as pessoas, que não acreditariam nela. Mas logo outras coisas inexplicáveis começariam a acontecer e então as pessoas, arrependidas, dariam ouvidos ao desacreditado. Acontecia sempre em cidades pequenas.”

O professor, Cristovão Tezza (Record, 237 págs.) – “Um dos poucos prazeres que me restam, senhores, uma toalha felpuda, tenho apenas duas delas, e às vezes calham de sumir (…) durante semanas (…) – uma breve piadinha para aquecer sua conversa, pois hoje tomei um banho especial para esta cerimônia, mas esqueci da toalha, o que obrigou este corpo decrépito, na sua horrenda desproporção de volumes, ossos, pele, barriga, a sair pelado pela casa atrás da toalha felpuda, e ele quase esbarrou em Dona Diva (…) que sem sorrir, olhos enviesados em direção à parede, para que não corressem nenhum risco, lhe estendeu justamente a toalha (…) – o momento em que ele pela primeira vez sentiu a dimensão social da velhice, aquela sutil fronteira do tempo em que a vergonha, o sexo, até mesmo o termômetro do pudor desaparecem e nos transformamos em seres, e ele sopesou a palavra, olhando para o alto, indagativo, apenas um ser.”

Ensaio sobre o entendimento humano, de Caetano Galindo (Biblioteca Paraná, 88 págs) – “Naquela situação, o grande escritor, quase proverbialmente tímido, se saiu com galhardia (Virou folclore entre os alunos da universidade e, posteriormente, depois que a transcrição do evento vazou para a internet, já sem itálico, entre leitores urbi et orbe, o momento em que ele declarou que, apesar de saber que a etiqueta que rege esse tipo de eventos pedia que ele periodicamente erguesse os olhos da folha de papel para dirigir ligeiros olhares a seu público enquanto lia seus fragmentos – numa demonstração que reconhecia servir como manifestação fática e, simultaneamente, ter certa função solidária, por minimizar, diríamos nós, o anatopismo que é a leitura em voz alta de literatura romanesca concebida original e finalmente para leitura silenciosa – era incapaz de fazê-lo [levantar os olhos da folha para etc.] sem perder irremediavelmente sua localização no texto que lia e que, assim, ver-se-ia obrigado a fechar os olhos [metáfora] para essa constrição sem que, no entanto, deixasse de estar [verbatim] agudamente consciente da presença de seu público [Risos]) e criatividade.”

Biofobia, de Santiago Nazarian (Record, 239 pás.) –“André nunca tivera paciência em ver as entrevistas da mãe quando ela estava viva. O mesmo que já ouvira tantas vezes. O que devia ter aprendido em casa, na mesa do jantar. Era estranho, porque para ela parecia que a literatura vinha em primeiro lugar, e se ele se negava a conhecer a escritora, nunca poderia conhecer realmente a mãe. Ter filhos, para ela, fora como uma oficina de criação. ‘Não é possível entender a vida realmente sem ter filhos’, dizia ela em determinado ponto. Então extraía traços de maternidade, de seus filhos, para seu próximo romance. André não precisava ler. ‘E se alguns de seus filhos quisesse seguir a mesma carreira que você?’, perguntava o entrevistador. A mãe riu. ‘Bem, meu filho mais próximo de mim, com quem eu mais me identifico, tem problemas mentais. Acho que o máximo que ele conseguiria escrever seriam microcontos.’ O entrevistador riu, um pouco constrangido. ‘Ele mora com você?’ ‘Hum… na verdade eu o mantenho preso no porão da minha casa. E o alimento com sardinhas.’ O entrevistador dessa vez riu abertamente, certo de que ela fazia uma piada. André estremeceu com a conversa e a televisão saiu novamente do ar.”

Fim de semana

Um livro – A lição do mestre, Henry James (Grua, 120 págs.).

Uma reestreia no cinema – Monty Python e o sentido da vida.

Um documentário difícil – Unhung Hero, Brian Spitz.

Um disco de 1973 – L’Apocalypse des animaux, Vangelis.

Uma reportagem – André Barcinski sobre covers e “falsos gringos” na música brasileira, na Piauí.

Fim de semana

Uma exposição – Iberê Camargo, CCBB.

Um livro – Dez de Dezembro, George Saunders (Companhia das Letras, 248 págs.).

Uma série média com tema bom – Suits.

Uma cinebio média com personagem bomPhil Spector, David Mamet.

Outra – Tina, Brian Gibson.

Inconsciente, segredo e poder

Michel Foucault, cuja morte faz 30 anos este mês, em diálogo com Gilles Deleuze (em Microfísica do poder, Paz e terra, 431 págs., tradução de Roberto Machado):

“Foi preciso esperar o século XIX para saber o que era a exploração; mas talvez ainda não se saiba o que é o poder. E Marx e Freud talvez não sejam suficientes para nos ajudar a conhecer essa coisa tão enigmática, ao mesmo tempo visível e invisível, presente e oculta, investida em toda parte (…). A teoria do Estado, a análise tradicional dos aparelhos de Estado sem dúvida não esgotam o campo de exercício de funcionamento do poder (…). Atualmente se sabe, mais ou menos, quem explora, para onde vai o lucro, por que mãos ele passa e onde ele se reinveste, mas o poder… Sabe-se muito bem que não são os governantes que o detêm. Mas a noção de ‘classe dirigente’ nem é muito clara nem muito elaborada. ‘Dominar’, ‘dirigir’, ‘governar’, ‘grupo no poder’, ‘aparelho de Estado’ etc. é todo um conjunto de noções que exige análise. Além disso, seria necessário saber até onde se exerce o poder, através de que revezamentos e até que instâncias, frequentemente ínfimas, de controle, de vigilância, de proibições, de coerções. Onde há poder, ele se exerce. Ninguém é, propriamente falando, seu titular; e, no entanto, ele sempre se exerce em determinada direção, com uns de um lado e uns de outro; não se sabe ao certo quem o detém; mas se sabe quem não o possui (…). Se discursos como, por exemplo, os dos detentos ou dos médicos de prisões são lutas, é porque eles confiscam, ao menos por um momento, o poder de falar da prisão, atualmente monopolizado pela administração e seus compadres reformadores. O discurso de luta não se opõe ao inconsciente: ele se opõe ao segredo. Isso dá a impressão de ser muito menos. E se fosse muito mais? Existe uma série de equívocos a respeito do ‘oculto’, do ‘recalcado’, do ‘não dito’ que permite ‘psicanalisar’ a baixo preço o que deve ser objeto de uma luta. O segredo é talvez mais difícil de revelar que o inconsciente.”

Fim de semana

Um filme – O lobo atrás da porta, Fernando Coimbra.

Um filme radical – Avanti Popoplo, Michael Wahrmann

Uma experiência radical depois dos jogos – Dogão xédar.

Um livro – F, Antonio Xerxenesky (Rocco, 240 págs.).

Uma instalação – Macalândia, Itaú Cultural.

 

Alegria

João Cabral de Melo Neto tinha dores de cabeça constantes e, num poema célebre a respeito, chamou a Aspirina de “o mais prático dos sóis”. Como cada um toma o remédio que precisa e tem o talento que lhe cabe, me resta escrever um texto cheio de citações pedantes sobre o Labirin.

Trata-se do nome comercial do dicloridrato de betaistina, usado para aliviar sintomas de labirintite. Que, por sua vez, é o nome genérico para vários possíveis e específicos problemas do labirinto, órgão interno do ouvido. Tenho tido crises do gênero nos últimos anos, menos ou mais intensas, com diagnóstico até hoje não definitivo. A mais recente e pior delas, da qual já melhorei uns 83%, começou com dias longos de tontura, náuseas, zumbido e dificuldade de equilíbrio.

Publicado na Folha de S.Paulo, 6/6/2014. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um relato – Tostão sobre a final de 1970 (http://goo.gl/EX5jnr).

Um filme – Praia do futuro, Karim Aïnouz.

Um telefilme médio – The normal heart, Ryan Murphy.

Um joelho de porco em Jaraguá do Sul – Parque Malwee.

Um disco antigo – A taste of DNA, DNA.

Guerra, homens e animais

Trechos de Guerra aérea e literatura, de W.G. Sebald (Companhia das Letras, 131 páginas), livro que trata do modo como escritores alemães descreveram os bombardeios aliados no fim da Segunda Guerra:

“Não se espera que uma colônia de insetos fique paralisada pelo luto diante da destruição de uma colônia vizinha. Da natureza humana, no entanto, espera-se certa dose de empatia. Nesses termos, a manutenção da ordem pequeno-burguesa de seguir tomando café nas sacadas de Hamburgo, no final de julho de 1943, tem algo de assustador, absurdo e escandaloso, mais ou menos como os bichos de Grandville, que, vestidos como seres humanos e munidos de talheres, se alimentam de um companheiro da mesma espécie. Por outro lado, a rotina cotidiana que desconsidera as rupturas catastróficas – desde assar um bolo para compor a mesa do café até a persistência dos ritos culturais mais elevados – é o meio mais eficiente e natural de preservar o chamado bom senso. Nesse contexto se insere também o papel desempenhado pela música na evolução e na derrocada do Reich alemão. Sempre que se queira esconjurar a seriedade do momento, convocava-se a grande orquestra, e o regime se locupletava do gesto afirmativo do final sinfônico. Nada mudou quando os tapetes de bombas foram estendidos sobre as cidades alemãs. Alexandre Kluge se recorda da transmissão de Aida pela Rádio Roma na noite anterior ao ataque a Halberstadt. ‘Estamos sentados no quarto do meu pai diante do aparelho de madeira marrom com visor iluminado que indica as emissoras estrangeiras. E ouvimos a música secreta que vem de longe, distorcida, sobreposta ao relato de algo sério que nosso pai resume para nós em alemão. À uma hora os amantes são estrangulados na cripta’. Um sobrevivente conta que, às vésperas do ataque arrasador a Darmstadt, ele ‘ouvira no rádio alguns cantos do mundo sensual do rococó na música encantadora de Strauss.’”

“Bombas incendiárias e botijões de fósforo puseram fogo em quinze construções do zoológico [de Berlim]. A casa dos antílopes e das feras, o prédio da administração e o casarão do diretor foram completamente incendiados, a casa dos macacos, o prédio de quarentena, o restaurante principal e o templo hindu dos elefantes, seriamente danificados ou destruídos. Um terço dos 2 mil animais que ainda restavam depois da evacuação morreu. Veados e macacos se soltaram, pássaros escaparam pelos tetos de vidro quebrados, ‘surgiram boatos’, escreve Heinroth, ‘de que leões dispararam em fuga até as proximidades da Igreja Memorial do Imperador Guilherme; enquanto, na verdade, eles jaziam, asfixiados e carbonizados, dentro de suas jaulas.’ (…) Agora encontram-se lá, escreve Heck, entre blocos de cimento, terra, cacos de vidro, palmeiras e troncos de árvore derrubados, lagartos gigantes se contorcendo de dor na água rasa ou caindo pela escada dos visitantes (…). Também foram horrendos os trabalhos de desobstrução. Os elefantes que morreram em seus estábulos tiveram que ser despedaçados ali mesmo nos dias seguintes, sendo que, como conta Heck, homens se arrastavam dentro das caixas torácicas dos paquidermes e revolviam montanhas de tripas. Essas imagens (…) rompem com os relatos do sofrimento vivido pelos seres humanos, em certa medida pré-censurados e estereotipados. E pode ser que o terror (…) também decorra da lembrança de que o zoológico, que surgiu em toda a Europa graças à necessidade de demonstração do poder principesco e imperial, ao mesmo tempo pretendia ser a reprodução do jardim do paraíso (…). As descrições (…), que de fato sobrecarregam o sensório do leitor médio, só não provocaram nenhum escândalo porque provêm da pena de especialistas, que, como se pode verificar, nem mesmo nas circunstâncias mais extremas perdem a razão, sequer o apetite, pois, relata Heck, ‘os rabos de crocodilo, cozidos em grandes recipientes, tinham o gosto de carne de galinha gordurosa’, e mais tarde, prossegue ele, ‘o presunto e a linguiça de urso foram para nós uma iguaria’.”

Fim de semana

Um livro – O design brasileiro antes do design, org. Rafael Cardoso (Cosac Naify, 360 págs.)

Um livro rápido – O cofre do Dr. Rui, Tom Cardoso (Civilização Brasileira, 171 págs.).

Um libanês na Vila Sônia – Sainte Marie.

Uma história boa e meio mal filmada – Muhammad Ali’s greatest fight, Stephen Frears.

Outra – No, Pablo Larraín.

Fim de semana

Um livro – Espelho da tauromaquia, Michel Leiris (Cosac Naify, 80 págs.).

Uma reportagem – Alec Wilkinson sobre a recuperação de gravações antigas (http://goo.gl/D80tDl).

Um show para talvez ir – Jesus & Mary Chain.

Um filme okzinho – Flores Raras, Bruno Barreto.

Uma entrevista – Edward Said a Salman Rushdie, circa 1986 (http://goo.gl/7fJrPP).

Houellebecq e uma ideia para decorar a sala

Trecho de O mapa e o território (Record, 399 págs., tradução de André Telles), que tem um personagem homônimo do autor (resenha do livro aqui):

“Tamborilou durante ao menos dois minutos na porta, fustigado pela chuva, antes que Houellebecq viesse abri-la. O autor de Partículas elementares vestia um pijama cinza listrado que o deixava parecido com um presidiário de novela; seus cabelos estavam desgrenhados e sujos; seu rosto, vermelho, quase um pimentão; e ele fedia um pouco. A incapacidade de cuidar da própria higiene é um dos sintomas mais claros da instalação de um estado depressivo, lembrou-se Jed (…).

– Trouxe uma garrafa de vinho. Uma boa garrafa… – exclamou Jed (…). Era um Château Ausone 1986 que, em todo caso, custara-lhe 400 euros: uma dúzia de voos Paris-Shannon pela Ryanair.

– Uma garrafa só? – perguntou o autor de Em busca da felicidade, espichando o pescoço para o rótulo (…). Então, sem dar uma palavra, deu-lhe as costas (…); Jed interpretou a atitude como um convite.

Ao que se lembrava, da última vez o cômodo principal, o living, estava vazio; agora, contava com uma cama e um televisor.

– É – disse Houellebecq –, depois da sua vinda, me dei conta de que o senhor era o primeiro visitante a voltar a esta casa, e que provavelmente será o último. Então, disse comigo, para que manter uma sala de visitas de fachada? Por que simplesmente não instalar meu quarto no cômodo principal? Afinal, passo a maior parte dos meus dias deitado; quase sempre como na cama, vendo desenhos na Fox TV; não é como se eu organizasse jantares.”

Fim de semana

Uma aula – Ricardo Piglia sobre Borges (http://goo.gl/2xKHFf).

Um romance – O professor,  Cristovão Tezza (Record, 240 págs.).

Um romance de estreia – Meu primeiro morto, Jaci Palma (Biblioteca Paraná, 124 págs.).

Um bar – Boca de ouro.

Um disco – Here and nowhere else, Cloud Nothings.

Nomes do horror

Poucas coisas são mais intensas que um pesadelo. E poucas coisas podem ser mais chatas que ouvir alguém contá-lo. Sensações não viram palavras com facilidade: um universo oceânico e abstrato de lembranças, que tem repercussão emocional direta para quem sonhou, só pode ser comunicado por um instrumento, a linguagem, naturalmente mais estreito. Ao acordar, tudo o que temos para evocar nossa angústia e medo são termos genéricos como “angústia” e “medo”.

O mesmo pode ocorrer quando tratamos de um pesadelo histórico. Uma reportagem de Philip Gourevitch na revista New Yorker (http://goo.gl/aGixBw) mostra como, vinte anos depois da guerra de Ruanda, quando hutus assassinaram 800 mil tutsis em cem dias, numa espiral de ódio fermentada pelo colonialismo – e pelo o olhar omisso da ONU –, ainda é difícil chegar a um consenso sobre como chamar o que aconteceu.

Publicado na Folha de S.Paulo, 9/5/2014. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um disco – Benji, Sun Kill Moon.

Um show – Eddie Vedder.

Uma exposição de fotos no MIS – Invasão 68 – Praga, Josef Koudelka

Outra – Por baixo das rosas, Gregory Crewdson.

Um livro – Ensaio sobre o entendimento humano, Caetano Galindo (Biblioteca Paraná, 88 págs.).

Música, amor e a alegria de morrer

Cioran em O livro das Ilusões (Rocco, 222 págs., tradução de José Thomaz Brum):

“Só na música e no amor existe a alegria de morrer, o espasmo voluptuoso de sentir que se morre por não poder mais suportar as vibrações internas. E nos regozija o pensamento de uma morte súbita que nos poupasse de sobreviver a esses momentos. A alegria de morrer, que não tem nenhuma relação com a ideia e a obsessiva consciência da morte, nasce nas grandes experiências de unicidade, quando se sente perfeitamente que esse estado não voltará mais. Na música e no amor só há sensações únicas; sentes com todo teu ser que estas não poderão mais voltar e lamentas com toda tua alma a vida cotidiana para a qual regressarás. Que admirável gozo gera a ideia de poder morrer em tais instantes, de que, por esse fato, não se perdeu o instante. Pois o retorno à existência cotidiana depois de tais instantes é uma perda infinitamente maior que a extinção definitiva. O desgosto por não morrer nos momentos culminantes do estado musical ou erótico nos ensina o quanto temos que perder vivendo (…). A música e o amor não podem vencer a morte porque, em sua essência, tendem a aproximar-se da morte à medida que ganham intensidade. Podem ser considerados como armas contra a morte só em suas fases menores. Uma música suave e um amor tranquilo constituem meios de luta contra ela. Não existe parentesco entre o amor e a morte, como tampouco o há entre a música e a morte; ao contrário, sua relação se estabelece através de um salto, que pode tratar-se apenas de uma impressão, mas que, interiormente, não é menos significativa que um salto. O salto erótico e o salto musical  para a morte! O primeiro te arremessa pelo insuportável de sua plenitude; e o segundo, pela soma de suas vibrações, que quebram as resistências da individualidade. O fato de que haja alguns homens que se suicidem ante a impossibilidade de continuar suportando as loucuras do amor reabilita o gênero humano, assim como o reabilitam as loucuras que experimenta o homem na vivência musical. Quem não entende e nem sente a música é tão criminoso quanto aquele que não sente que, em tais momentos, poderia cometer um crime.”

Inteligência entre aspas

“Cara Jenevieve, estou tendo um caso com uma mulher mais velha (…). O sexo é fantástico e acho que estou apaixonado. Mas existe outra complicação séria, que é a seguinte: ela é a minha avó!”

Assim começa “Lionel Asbo”, mais recente romance de Martin Amis (Companhia das Letras, tradução de Rubens Figueiredo). O personagem título, um delinquente vocacional que usa dois pitbulls como “ferramentas de trabalho”, ganha na loteria e é “tragado pela primeira página”.

Publicado na Folha de S. Paulo, 25/4/14. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um livro – Formas de voltar para casa, Alejandro Zambra (Cosac Naify, 160 págs.).

Um texto teatral – Terra de ninguém, Harold Pinter.

Uma exposição – Eliane Arruda e Marcia de Moraes, Tomie Ohtake.

Um restaurante – Ton Ton.

Um aniversário – Girafito.

A moral do suor

Roland Barthes sobre o filme Júlio César (1953), de Joseph Mankievcz, em Mitologias (Difel, 256 págs., tradução de Rita Buongermino, Pedro de Souza e Rejane Janowitzer):

“O suor é também um signo. De quê? Da moralidade. Todos suam porque debatem algo consigo mesmos; supõe-se que estamos no local de uma virtude que se exerce dolorosamente, isto é, no próprio local da tragédia, e é o suor que deve deixa-la transparecer: o povo, traumatizado pela morte de César, depois pelos argumentos de Marco Antonio, transpira, combinando economicamente neste único signo a intensidade da sua emoção e a rudeza da sua condição. E os homens virtuosos, Brutus, Cassius e Casca, também não cessam de transpirar, testemunhando o enorme trabalho fisiológico que neles opera a virtude que irá gerar um crime. Suar é pensar (o que evidentemente repousa sobre um postulado característico de um povo de negociantes: pensar é uma ação violenta, cataclísmica, de que o suor é o signo menor). Em todo o filme um único homem não sua, conservando-se imberbe, inerte e estanque: César. Evidentemente, César, objeto do crime, permanece ‘seco’, pois ele não sabe, não pensa, conserva-se intacto, solitário e límpido, como deve sê-lo um testemunho.”

Feriado

Um ensaio – Joan Acocella sobre o Livro de Jó (http://goo.gl/GuGTrU)

Uma reportagem – Julia Duailibi sobre a Comissão da Verdade (Piauí).

Uma exposição saindo de cartaz – Coleção Ludwig, CCBB.

Uma peça que saiu de cartaz – Tríptico Beckett, dir. Roberto Alvim.

Um disco – Live from KCRW, Nick Cave.

Fim de semana

Um livro – Lionel Asbo, Martin Amis (Companhia das Letras, 352 págs.)

Um depoimento entusiasmado – J.M.Coetzee sobre a beleza (http://goo.gl/ftJkOX).

Outro – Bernardo Carvalho sobre o Paquistão e a Índia (na Piauí).

Um filme – Inside Llewyn Davis, irmãos Coen.

Outro – Dallas buyers club, Jean-Marc Vallée.

Por que viúvos gostam de ópera

Julian Barnes em Altos voos e quedas livres (Rocco, 127 págs., tradução de Léa Viveiros de Castro), livro sobre balonismo, fotografia e o luto por sua mulher Pat Kavanagh:

“Durante a maior parte da minha vida, essa tinha me parecido ser a forma menos compreensível de arte. Eu não compreendia realmente o que estava acontecendo (apesar de ler atentamente os resumos da história); tinha um certo preconceito contra aqueles piqueniqueiros de smoking que pareciam ser donos do gênero; mas acima de tudo eu não conseguia deixar minha imaginação voar. Óperas parecem peças inteiramente implausíveis e mal construídas, com personagens berrando ao mesmo tempo na cara um dos outros. O problema inicial – o de compreensão – foi resolvido pela introdução de traduções projetadas acima do palco. Mas agora, na escuridão de um auditório e na escuridão do luto, a implausibilidade do gênero de repente desapareceu. Agora parecia natural que as pessoas entrassem no palco e cantassem umas para as outras, porque a música era uma maneira mais primitiva de comunicação do que a palavra falada – ao mesmo tempo mais alta e mais profunda. Em Don Carlo, de Verdi, o herói acabou de conhecer sua princesa francesa na floresta de Fontainebleau e já está de joelhos cantando: “Meu nome é Carlo e eu te amo”. Sim, pensei, está certo, é assim que a vida é e deveria ser, vamos nos concentrar no que é essencial. É claro que a ópera tem um enredo (…), mas sua função principal é levar os personagens o mais rápido possível ao ponto em que eles possam cantar a respeito de suas emoções mais profundas. A ópera vai direto ao ponto, assim como a morte (…). Aqui estava meu novo realismo social.”

Fim de semana

Um livro – Altos voos e quedas livres, Julian Barnes (Rocco, 127 págs.).

Um ensaio – Philip Seymour Hoffman por Anthony Lane (http://goo.gl/i0oiPn)

Um filme – Entre nós, Paulo Morelli.

Uma temporada, tirando a primeira metade do último capítulo – True Detective.

Uma exposição – Fotos de escravos no Frei Caneca.

Tipos intelectuais, 2014

– Destaque das humanidades ou da ciência que vira um idiota quando o assunto é política.

– Crítico literário que, ditando todo tipo de regra sobre como a prosa alheia deve ser, escreve em prosa ilegível.

– Nostálgico de algo que nunca houve: respeito pela coisa pública, arte elevada que já nasce elevada, Rio de Janeiro cordial e lírico.

Texto publicado na Folha de S.Paulo, 14/3/2014. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma exposição em Lisboa – Rui Chafes, Gulbekian.

Uma exposição em Paris – Gustave Doré, museu D’Orsay.

Outra – Carl Larsson, Petit Palais.

Um filme – Ninfomaníaca – parte 2, Lars Von Trier.

Uma seleção – 80 trechos de Philip Roth, por Camila Von Holdefer (http://goo.gl/vsJ8F3).

Querido Papai Noel

Em mais este Natal cristão, dê um presente ao meio cultural brasileiro fazendo com que:

- A disciplina de interpretação de texto se torne diária em todas as escolas, de preferência em aulas longas e sem direito a ir ao banheiro.

- Volte a ser possível ser contestado sem acusar o contestador de baixar o nível da discussão.

Texto publicado na Folha de S.Paulo, 6/12/2013. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma reportagem – David Zwirner e como funciona o mercado de arte (aqui).

Um documentário – Don DeLillo na BBC (aqui).

Um single – The Lord is out of control, Mogwai (aqui).

Uma mostra – Luigi Ghirri no IMS.

Uma edição – Decamerón, 10 novelas selecionadas (Cosac Naify, 128 págs.).

Semimorto em Frankfurt

Às vezes viajar é ótimo, às vezes é um pesadelo. Eventos de literatura são a mesma coisa. Tenho participado de uns trinta por ano. Não me queixo: faço porque quero, fico feliz que leiam minhas coisas e tenham interesse no que digo. Há escritores com agendas mais e menos cheias que a minha. Poucos não têm agenda além de escrever. Tenho consciência de que afundaria em neurose se ficasse apenas em casa. Ao mesmo tempo, a neurose não respeita aeroportos e hotéis. Passarei as próximas duas semanas na Alemanha, a convite da Fundação Biblioteca Nacional, que trouxe 65 autores para a edição da feira de Frankfurt que em 2013 homenageia o Brasil.

Texto publicado na revista Piauí, novembro de 2013. Íntegra (para assinantes) aqui.

Fim de semana

Um filme – Blue Jasmine, Woody Allen.

Um disco – Virgins, Tim Hecker.

Um romance brasileiro – Todos nós adorávamos caubóis, Carol Bensimon (Companhia das Letras, 192 págs.).

Outro – O drible, Sérgio Rodrigues (Companhia das Letras, 224 págs.).

Um japonês no Rio – Miako.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 190 outros seguidores