Michel Laub

Categoria: Livros

Arte sem coraçãozinho

Há algo de errado quando uma obra de arte diz o mesmo que um anúncio publicitário. Pensei nisso ao ler uma reportagem de Ana Luiza Leal, da revista “Exame”, sobre mentiras na propaganda de marcas brasileiras e estrangeiras de sucesso (http://goo.gl/N2xUHD).

Os casos são até divertidos: da fábrica de sorvete que inventou um patrono italiano, imigrante que teria lutado bravamente ao chegar ao Brasil durante a Segunda Guerra, ao suco cujas frutas não são “colhidas fresquinhas” na “fazenda do senhor Francesco”, conforme o alegado, e sim compradas da empresa Brasil Citrus. Ao contrário dos sucos do Darth Vader, a marca em questão costuma publicar textos “do bem” em que “jovens cansados da mesmice” (seus fundadores) declaram ter como missão “mudar o mundo”.

Texto publicado na Folha de S.Paulo, 21/11/2014. Íntegra aqui.

Memória não afetiva

Muito já se especulou sobre como a overdose de dados na internet mudará o atual conceito de inteligência. Me interessa um outro efeito disso: se pensar é saber esquecer, como mostrou um personagem de Borges, sujeito sobre quem caiu a maldição de lembrar tudo o que viveu, sem conseguir dar hierarquia e sentido a nada, gostar esteticamente de algo também demanda um descarte contínuo de informações.

Ou a manutenção de certas memórias num lugar seguro. Livros costumam mudar (para melhor ou pior) longe de nós. Não tenho como manter a impressão original sobre “Os meninos da rua Paulo”, lido aos treze anos, ou “Os dragões não conhecem o paraíso”, lido aos vinte, porque não sei mais – ninguém sabe – pensar e sentir dentro dos limites de épocas passadas.

O máximo que posso dizer é que ambos continuam bons em 1986 e 1993. Assim como a novela “Vale Tudo” segue perfeita em 1988, e “Warriors, os selvagens da noite” é um dos filmes de gangue mais impactantes feitos para a plateia que estreou seu videocassete de classe média aos 14 anos.

Texto publicado na Folha de S.Paulo, 7/11/14. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um livro – Do not harm, Henry Marsh (W&N, 288 págs.).

Outro – O sonâmbulo amador, José Luiz Passos (Alfaguara, 270 págs.).

Um filme – Boyhood, Richard Linklater.

Outro – Relatos selvagens, Damián Szifrón.

Uma reportagem – William Langewiesche sobre a queda do voo da Air France, na Piauí.

Fim de semana

Um livro – Falling out of time, David Grossman (Alfred A.Knopf, 208 págs.).

Outro – O homem-mulher, Sérgio Sant’Anna (Companhia das Letras, 183 págs.).

Um disco ok – Tough Love, Jessie Ware.

Um documentário animadão – Bombay beach, Alma Har’el.

Um japonês – Sanpo.

Fim de semana

Um livro – Jan Karski, Yannick Haenel (Record, 160 págs.).

Uma exposição em Porto Alegre – Moacyr Scliar no Santander.

Um peixe na Praia Grande – Caiçara.

Um filme médio – O juiz, David Dobkin

Um disco de 1971 – In my own time, Karen Dalton.

Fim de semana

Uma exposição em Londres – Turner.

Três em Gotemburgo – Vivian Maier, Gauguin/Van Gogh/Bernard, Gótico/Heavy metal,

Um filme ok – O último concerto, Yaron Zilberman

Outro – Mesmo se nada der certo, John Carney.

Um livro – The cat’s table, Michael Ondaatje (Alfred A. Knopf, 269 págs.).

Fim de semana

Um perfil – Delfim Netto na Piauí.

Outro – Al Pacino na New Yorker.

Um livro brasileiro de poemas – Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo, Paulo Scott (Companhia das Letras, 80 págs.).

Um de contos – Um homem burro morreu, Rafael Sperling (Oito e Meio, 127 págs.).

Um disco – I thought I was an alien, Soko.

O que não se pode fazer a um gato

Wislawa Szymborska em Poemas (Companhia das Letras, tradução de Regina Przybycien):

“Morrer – isso não se faz a um gato.

Pois o que há de fazer um gato

num apartamento vazio.

Trepar pelas paredes.

Esfregar-se nos móveis.

Nada aqui parece mudado

e no entanto mudou.

(…)

Algo aqui não começa

na hora costumeira.

Algo não acontece

como deve.

(…)

Cada armário foi vasculhado.

As prateleiras percorridas.

Explorações sob o tapete nada mostraram.

Até uma regra foi quebrada

e os papéis remexidos.

(…)

Espera só ele voltar,

espera ele aparecer.

Vai aprender

que isso não se faz a um gato.

Para junto dele

como quem não quer nada,

devagarinho,

sobre patas muito ofendidas.

E nada de pular miar no princípio.”

 

Fim de semana

Um documentário – Finding Vivian Maier, John Maloof e Charlie Siskel.

Um filme difícil – Welcome to New York, Abel Ferrara.

Um ensaio – Virginia Woolf e a intimidade, por Joshua Rotman (http://goo.gl/FrqOz3)

Uma peça em Londres – My night with Reg.

Dois restaurantes – Nopi, Yauatcha.

Fim de semana

Uma exposição em Londres – Gilbert & George (White Cube).

Outra – Peter Hujar (Maureen Paley).

Mais três – Joseph Beuys, Henry Wessel, cartazes russos (Tate Modern).

Um livro – O que amar quer dizer, Matheu Lindon (Cosac Naify, 298 págs.).

Um filme okzinho – Magia ao luar, Woody Allen.

Autoficção e mamadeira

Muito se fala da chamada autoficção, ou da tendência de escritores contemporâneos a usar elementos de aparência autobiográfica em suas obras. A Cosac Naify lançou há pouco dois possíveis e ótimos exemplares da vertente: “Formas de voltar para casa”, de Alejandro Zambra, romance que se lê como memória, e “O que amar quer dizer”, de Mathieu Lindon, memória que se lê como romance.

Texto publicado na Folha de S.Paulo, 15/8. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um texto – Gustavo Ioschpe sobre Israel (http://goo.gl/CS1NAl).

Um making of – Carlito’s way (http://goo.gl/LtWBHb).

Um livro de Javier Cercas – As leis da fronteira (Biblioteca Azul, 429 págs.).

Outro –Soldados de Salamina (Francis, 241 págs.).

Uma caixa de CDs – Mutantes.

Poesia e dicionários

Num ensaio sobre o “Grande Diccionario Portuguez”, publicado em 1874 por Frei Domingos Vieira, o também grande Sérgio Augusto de Andrade afirma: “Em nenhum momento [o autor] simula indiferença diante da língua (…). Cada palavra representa um desafio, um compromisso, uma questão de honra, uma sinfonia e o projeto de uma estética.”

Algo parecido dá para dizer do “Partido das coisas”, de Francis Ponge, escrito em 1942 e editado no Brasil pela Iluminuras. Em forma de verbetes, ou mini-ensaios que evocam as características de objetos, pessoas, animais, plantas, lugares e elementos da natureza, o autor francês mistura o que daria para chamar de rigor léxico com a exuberância de sua sensibilidade.

Texto publicado na Folha de S.Paulo, 1/8/2014. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma publicação antiga – Grande diccionario portuguez, Frei Domingos Vieira.

Uma entrevista antiga – João Ubaldo no Roda Viva (http://goo.gl/cxGu9d).

Uma lista – Javier Marías e razões para escrever/não escrever romances (http://goo.gl/4FAO4f).

Um izakaya ok – Minato.

Uma série – Angels in america.

Karl Ove Knausgard dá uma real sobre poesia, mentiras etc.

Trecho de Um outro amor (Companhia das Letras, 585 págs., tradução de Guilherme da Silva Braga):

“Bastava abrir um livro e ler, e se os poemas se revelassem você os merecia, senão você não os merecia. Ser uma das pessoas a quem os poemas não se revelavam me perturbou em especial por volta dos meus vinte anos, quando eu ainda era cheio de ilusões a respeito de quem eu poderia ser. (…). Havia três maneiras possíveis de se comportar em relação a isso. A primeira era reconhecer a situação e aceita-la. Nesse caso eu seria um homem absolutamente normal que levaria uma vida absolutamente normal e encontraria o significado dela onde quer que eu estivesse, e não em outro lugar (…) A segunda era negar tudo, dizendo para mim mesmo que o potencial existia e simplesmente não tinha sido realizado ainda, e assim viver uma vida de literatura, talvez como crítico, talvez como professor universitário, talvez como escritor, pois era totalmente possível se manter nesse mundo sem que a literatura jamais se revelasse. Era possível escrever uma tese inteira sobre Hölderin, por exemplo, descrevendo os poemas, discutindo os temas abordados e a maneira como se manifestavam na sintaxe, no vocabulário, no emprego de imagens, era possível escrever sobre a relação entre os elementos gregos e cristãos, sobre o papel da natureza nos poemas, sobre o papel do clima, ou ainda sobre as relações entre os poemas e a realidade político-histórica em que tinham sido escritos (…). Era possível escrever sobre a relação com os outros idealistas alemães, Goethe, Schiller, Hegel, Novalis, ou ainda sobre a relação com Píndaro nos poemas tardios. Era possível escrever sobre as traduções pouco ortodoxas de Sófocles, ou ainda ler os poemas à luz do que Hölderin tinha escrito acerca da própria poética em correspondências. Também era possível ler os poemas e contrastá-los com a interpretação oferecida por Heidegger e Adorno em função da história de Hölderin. Também era possível escrever sobre toda a história da recepção, ou sobre a história da tradução. Tudo isso era possível sem que os poemas de Hölderin jamais se revelassem. O mesmo podia ser e naturalmente era feito com todos os outros poetas. Também era possível, com uma certa disposição para o trabalho árduo, escrever poemas próprios mesmo sendo uma das pessoas a quem a poesia não se revelava; a diferença entre um poema e um poema que apenas parece ser um poema é percebida somente por um poeta. Entre esses dois métodos, o primeiro, a aceitação, era o melhor, mas também o mais difícil. O segundo método, a negação, era o mais fácil, mas também era o menos confortável, porque a revelação de que tudo o que se fazia não tinha valor nenhum também estava muito próxima. E uma vida literária baseia-se justamente na busca pelo valor. O terceiro método, que consistia em abandonar toda essa problemática, era portanto o melhor. Não existem coisas elevadas. Não existem revelações privilegiadas. Nada é melhor ou mais verdadeiro do que qualquer outra coisa. O fato de que os poemas não se revelavam para mim não queria necessariamente dizer que eu era mais baixo do que ninguém, ou que meus escritos teriam necessariamente um valor menor. As duas partes, tanto os poemas que não se revelavam como os meus escritos, eram fundamentalmente a mesma coisa, ou seja, texto. Se meus escritos fossem mesmo piores, o que obviamente eram, não seria correto afirmar que esse era o resultado de uma situação irreparável em que me faltava alguma coisa, mas apenas de uma situação que podia se alterar através de trabalho árduo e do acúmulo de experiências. Até certo ponto, é evidente que conceitos como talento e qualidade continuavam sendo incontornáveis, porque afinal as pessoas não escrevem todas com o mesmo nível de desenvoltura. O mais importante era que não existisse um abismo, que não houvesse nada intransponível, entre os que tinham e os que não tinham; entre os que viam e os que não viam. Em vez disso, era apenas uma questão de gradação contida em uma mesma escala. Era um pensamento reconfortante [que] tinha reinado soberano na crítica artística e em círculos universitários desde a metade dos anos 1960 até hoje. Os conceitos que eu tinha adotado e que eram uma parte tão óbvia de mim que eu nem ao menos sabiam que eram conceitos, e que portanto eu não poderia expressar mas apenas sentir, e que no entanto tinham me norteado mesmo assim, eram os conceitos do romantismo na forma mais pura, ou seja, conceitos antiquados. As poucas pessoas que tinham uma abordagem séria frente ao romantismo ocupavam-se dos elementos que mantinham relações com os conceitos de nossa época, como a fragmentação e a ironia. Mas para mim a questão não era o romantismo em si – se eu sentia afinidade em relação a uma época qualquer era pelo período barroco, cheio de espaços, alturas e profundezas vertiginosas, ideias sobre a vida e o teatro, os espelhos e o corpo, a luz e a escuridão, a arte e a ciência, o que exercia uma atração mais forte sobre mim –, mas o sentimento que eu tinha de estar longe do essencial, longe do mais importante, do aspecto mais profundo da existência. Se esse era um sentimento romântico ou não, para mim não tinha a menor importância. Para aplacar a dor que essa nova situação provocava eu me defendi usando as três maneiras possíveis, e por longos períodos cheguei a acreditar nelas, em especial na última. Tentei me convencer de que a ideia de que a arte era o lugar onde ardiam as chamas da beleza e da verdade, o último lugar onde a vida podia mostrar o verdadeiro rosto, não passava de um equívoco. Mas volta e meia ela ressurgia. Não como um pensamento, mas como um sentimento imune a qualquer tipo de argumentação. Mas eu sabia muito bem que era tudo mentira, que eu estava enganando a mim mesmo.”

Como (não) ler os clássicos

A vida é curta demais para ler “História da Literatura Ocidental sem as Partes Chatas”, da americana Sandra Newman, que foi tema da Ilustrada no último sábado. A vida pode ser longa demais, porém, e certas polêmicas literárias acabam inevitavelmente se repetindo.

Texto publicado na Folha de S.Paulo, 18/7/14. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um livro – Um outro amor, Karl Ove Knausgard (Companhia das Letras, 585 págs.).

Uma conversa – Karl Ove Knausgard e Jeffrey Eugenides (http://goo.gl/82hjDX)

Um dossiê – Racionais Mc’s na Cult.

Um galeto de R$ 13 em Porto Alegre – Santa Helena.

Um bar – Antique.

Livros brasileiros bons e recentes – trechos

F, de Antonio Xerxenesky (Rocco, 239 págs.) – “Eu não sabia de nada em 1985, no dia em que o telefone tocou, no dia em que alguém que nunca saberei quem é, uma dessas sombras fugazes que só podem ser vistas em dias nublados e que, ainda assim, governam nosso mundo, encomendou a morte de Orson Welles.”

A vez de morrer, de Simone Campos (Companhia das Letras, 256 págs.) – “Quando mergulhava na piscina, os olhos estavam fechados. E aí vinha o pensamento: E se um dia eu abrir os olhos embaixo d’água e não vir o tanque azul-claro forrado de azulejos, e sim aquela turbidez ardida e verde do mar? O que impedia isso? Piscinas às vezes ficavam verdes se ninguém cuidava delas. Era água, era tudo água. E mesmo de olho fechado. Eu podia mergulhar aqui, levantar a cabeça e emergir em alto-mar — “emergir” recém-aprendido de Sinbad, o marujo; onde também aprendera que se fosse parar em alto-mar ninguém poderia salvá-la. O que impedia isso? Que uma pessoa sumisse, desaparecesse da existência, fosse tragada pela terra? Nada. A não ser a presença de alguém, que, como nos filmes, flagraria o fenômeno paranormal e contaria para as pessoas, que não acreditariam nela. Mas logo outras coisas inexplicáveis começariam a acontecer e então as pessoas, arrependidas, dariam ouvidos ao desacreditado. Acontecia sempre em cidades pequenas.”

O professor, Cristovão Tezza (Record, 237 págs.) – “Um dos poucos prazeres que me restam, senhores, uma toalha felpuda, tenho apenas duas delas, e às vezes calham de sumir (…) durante semanas (…) – uma breve piadinha para aquecer sua conversa, pois hoje tomei um banho especial para esta cerimônia, mas esqueci da toalha, o que obrigou este corpo decrépito, na sua horrenda desproporção de volumes, ossos, pele, barriga, a sair pelado pela casa atrás da toalha felpuda, e ele quase esbarrou em Dona Diva (…) que sem sorrir, olhos enviesados em direção à parede, para que não corressem nenhum risco, lhe estendeu justamente a toalha (…) – o momento em que ele pela primeira vez sentiu a dimensão social da velhice, aquela sutil fronteira do tempo em que a vergonha, o sexo, até mesmo o termômetro do pudor desaparecem e nos transformamos em seres, e ele sopesou a palavra, olhando para o alto, indagativo, apenas um ser.”

Ensaio sobre o entendimento humano, de Caetano Galindo (Biblioteca Paraná, 88 págs) – “Naquela situação, o grande escritor, quase proverbialmente tímido, se saiu com galhardia (Virou folclore entre os alunos da universidade e, posteriormente, depois que a transcrição do evento vazou para a internet, já sem itálico, entre leitores urbi et orbe, o momento em que ele declarou que, apesar de saber que a etiqueta que rege esse tipo de eventos pedia que ele periodicamente erguesse os olhos da folha de papel para dirigir ligeiros olhares a seu público enquanto lia seus fragmentos – numa demonstração que reconhecia servir como manifestação fática e, simultaneamente, ter certa função solidária, por minimizar, diríamos nós, o anatopismo que é a leitura em voz alta de literatura romanesca concebida original e finalmente para leitura silenciosa – era incapaz de fazê-lo [levantar os olhos da folha para etc.] sem perder irremediavelmente sua localização no texto que lia e que, assim, ver-se-ia obrigado a fechar os olhos [metáfora] para essa constrição sem que, no entanto, deixasse de estar [verbatim] agudamente consciente da presença de seu público [Risos]) e criatividade.”

Biofobia, de Santiago Nazarian (Record, 239 pás.) –“André nunca tivera paciência em ver as entrevistas da mãe quando ela estava viva. O mesmo que já ouvira tantas vezes. O que devia ter aprendido em casa, na mesa do jantar. Era estranho, porque para ela parecia que a literatura vinha em primeiro lugar, e se ele se negava a conhecer a escritora, nunca poderia conhecer realmente a mãe. Ter filhos, para ela, fora como uma oficina de criação. ‘Não é possível entender a vida realmente sem ter filhos’, dizia ela em determinado ponto. Então extraía traços de maternidade, de seus filhos, para seu próximo romance. André não precisava ler. ‘E se alguns de seus filhos quisesse seguir a mesma carreira que você?’, perguntava o entrevistador. A mãe riu. ‘Bem, meu filho mais próximo de mim, com quem eu mais me identifico, tem problemas mentais. Acho que o máximo que ele conseguiria escrever seriam microcontos.’ O entrevistador riu, um pouco constrangido. ‘Ele mora com você?’ ‘Hum… na verdade eu o mantenho preso no porão da minha casa. E o alimento com sardinhas.’ O entrevistador dessa vez riu abertamente, certo de que ela fazia uma piada. André estremeceu com a conversa e a televisão saiu novamente do ar.”

Fim de semana

Um livro – A lição do mestre, Henry James (Grua, 120 págs.).

Uma reestreia no cinema – Monty Python e o sentido da vida.

Um documentário difícil – Unhung Hero, Brian Spitz.

Um disco de 1973 – L’Apocalypse des animaux, Vangelis.

Uma reportagem – André Barcinski sobre covers e “falsos gringos” na música brasileira, na Piauí.

Fim de semana

Uma exposição – Iberê Camargo, CCBB.

Um livro – Dez de Dezembro, George Saunders (Companhia das Letras, 248 págs.).

Uma série média com tema bom – Suits.

Uma cinebio média com personagem bomPhil Spector, David Mamet.

Outra – Tina, Brian Gibson.

Inconsciente, segredo e poder

Michel Foucault, cuja morte faz 30 anos este mês, em diálogo com Gilles Deleuze (em Microfísica do poder, Paz e terra, 431 págs., tradução de Roberto Machado):

“Foi preciso esperar o século XIX para saber o que era a exploração; mas talvez ainda não se saiba o que é o poder. E Marx e Freud talvez não sejam suficientes para nos ajudar a conhecer essa coisa tão enigmática, ao mesmo tempo visível e invisível, presente e oculta, investida em toda parte (…). A teoria do Estado, a análise tradicional dos aparelhos de Estado sem dúvida não esgotam o campo de exercício de funcionamento do poder (…). Atualmente se sabe, mais ou menos, quem explora, para onde vai o lucro, por que mãos ele passa e onde ele se reinveste, mas o poder… Sabe-se muito bem que não são os governantes que o detêm. Mas a noção de ‘classe dirigente’ nem é muito clara nem muito elaborada. ‘Dominar’, ‘dirigir’, ‘governar’, ‘grupo no poder’, ‘aparelho de Estado’ etc. é todo um conjunto de noções que exige análise. Além disso, seria necessário saber até onde se exerce o poder, através de que revezamentos e até que instâncias, frequentemente ínfimas, de controle, de vigilância, de proibições, de coerções. Onde há poder, ele se exerce. Ninguém é, propriamente falando, seu titular; e, no entanto, ele sempre se exerce em determinada direção, com uns de um lado e uns de outro; não se sabe ao certo quem o detém; mas se sabe quem não o possui (…). Se discursos como, por exemplo, os dos detentos ou dos médicos de prisões são lutas, é porque eles confiscam, ao menos por um momento, o poder de falar da prisão, atualmente monopolizado pela administração e seus compadres reformadores. O discurso de luta não se opõe ao inconsciente: ele se opõe ao segredo. Isso dá a impressão de ser muito menos. E se fosse muito mais? Existe uma série de equívocos a respeito do ‘oculto’, do ‘recalcado’, do ‘não dito’ que permite ‘psicanalisar’ a baixo preço o que deve ser objeto de uma luta. O segredo é talvez mais difícil de revelar que o inconsciente.”

Fim de semana

Um filme – O lobo atrás da porta, Fernando Coimbra.

Um filme radical – Avanti Popoplo, Michael Wahrmann

Uma experiência radical depois dos jogos – Dogão xédar.

Um livro – F, Antonio Xerxenesky (Rocco, 240 págs.).

Uma instalação – Macalândia, Itaú Cultural.

 

Alegria

João Cabral de Melo Neto tinha dores de cabeça constantes e, num poema célebre a respeito, chamou a Aspirina de “o mais prático dos sóis”. Como cada um toma o remédio que precisa e tem o talento que lhe cabe, me resta escrever um texto cheio de citações pedantes sobre o Labirin.

Trata-se do nome comercial do dicloridrato de betaistina, usado para aliviar sintomas de labirintite. Que, por sua vez, é o nome genérico para vários possíveis e específicos problemas do labirinto, órgão interno do ouvido. Tenho tido crises do gênero nos últimos anos, menos ou mais intensas, com diagnóstico até hoje não definitivo. A mais recente e pior delas, da qual já melhorei uns 83%, começou com dias longos de tontura, náuseas, zumbido e dificuldade de equilíbrio.

Publicado na Folha de S.Paulo, 6/6/2014. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um relato – Tostão sobre a final de 1970 (http://goo.gl/EX5jnr).

Um filme – Praia do futuro, Karim Aïnouz.

Um telefilme médio – The normal heart, Ryan Murphy.

Um joelho de porco em Jaraguá do Sul – Parque Malwee.

Um disco antigo – A taste of DNA, DNA.

Guerra, homens e animais

Trechos de Guerra aérea e literatura, de W.G. Sebald (Companhia das Letras, 131 páginas), livro que trata do modo como escritores alemães descreveram os bombardeios aliados no fim da Segunda Guerra:

“Não se espera que uma colônia de insetos fique paralisada pelo luto diante da destruição de uma colônia vizinha. Da natureza humana, no entanto, espera-se certa dose de empatia. Nesses termos, a manutenção da ordem pequeno-burguesa de seguir tomando café nas sacadas de Hamburgo, no final de julho de 1943, tem algo de assustador, absurdo e escandaloso, mais ou menos como os bichos de Grandville, que, vestidos como seres humanos e munidos de talheres, se alimentam de um companheiro da mesma espécie. Por outro lado, a rotina cotidiana que desconsidera as rupturas catastróficas – desde assar um bolo para compor a mesa do café até a persistência dos ritos culturais mais elevados – é o meio mais eficiente e natural de preservar o chamado bom senso. Nesse contexto se insere também o papel desempenhado pela música na evolução e na derrocada do Reich alemão. Sempre que se queira esconjurar a seriedade do momento, convocava-se a grande orquestra, e o regime se locupletava do gesto afirmativo do final sinfônico. Nada mudou quando os tapetes de bombas foram estendidos sobre as cidades alemãs. Alexandre Kluge se recorda da transmissão de Aida pela Rádio Roma na noite anterior ao ataque a Halberstadt. ‘Estamos sentados no quarto do meu pai diante do aparelho de madeira marrom com visor iluminado que indica as emissoras estrangeiras. E ouvimos a música secreta que vem de longe, distorcida, sobreposta ao relato de algo sério que nosso pai resume para nós em alemão. À uma hora os amantes são estrangulados na cripta’. Um sobrevivente conta que, às vésperas do ataque arrasador a Darmstadt, ele ‘ouvira no rádio alguns cantos do mundo sensual do rococó na música encantadora de Strauss.’”

“Bombas incendiárias e botijões de fósforo puseram fogo em quinze construções do zoológico [de Berlim]. A casa dos antílopes e das feras, o prédio da administração e o casarão do diretor foram completamente incendiados, a casa dos macacos, o prédio de quarentena, o restaurante principal e o templo hindu dos elefantes, seriamente danificados ou destruídos. Um terço dos 2 mil animais que ainda restavam depois da evacuação morreu. Veados e macacos se soltaram, pássaros escaparam pelos tetos de vidro quebrados, ‘surgiram boatos’, escreve Heinroth, ‘de que leões dispararam em fuga até as proximidades da Igreja Memorial do Imperador Guilherme; enquanto, na verdade, eles jaziam, asfixiados e carbonizados, dentro de suas jaulas.’ (…) Agora encontram-se lá, escreve Heck, entre blocos de cimento, terra, cacos de vidro, palmeiras e troncos de árvore derrubados, lagartos gigantes se contorcendo de dor na água rasa ou caindo pela escada dos visitantes (…). Também foram horrendos os trabalhos de desobstrução. Os elefantes que morreram em seus estábulos tiveram que ser despedaçados ali mesmo nos dias seguintes, sendo que, como conta Heck, homens se arrastavam dentro das caixas torácicas dos paquidermes e revolviam montanhas de tripas. Essas imagens (…) rompem com os relatos do sofrimento vivido pelos seres humanos, em certa medida pré-censurados e estereotipados. E pode ser que o terror (…) também decorra da lembrança de que o zoológico, que surgiu em toda a Europa graças à necessidade de demonstração do poder principesco e imperial, ao mesmo tempo pretendia ser a reprodução do jardim do paraíso (…). As descrições (…), que de fato sobrecarregam o sensório do leitor médio, só não provocaram nenhum escândalo porque provêm da pena de especialistas, que, como se pode verificar, nem mesmo nas circunstâncias mais extremas perdem a razão, sequer o apetite, pois, relata Heck, ‘os rabos de crocodilo, cozidos em grandes recipientes, tinham o gosto de carne de galinha gordurosa’, e mais tarde, prossegue ele, ‘o presunto e a linguiça de urso foram para nós uma iguaria’.”

Fim de semana

Um livro – O design brasileiro antes do design, org. Rafael Cardoso (Cosac Naify, 360 págs.)

Um livro rápido – O cofre do Dr. Rui, Tom Cardoso (Civilização Brasileira, 171 págs.).

Um libanês na Vila Sônia – Sainte Marie.

Uma história boa e meio mal filmada – Muhammad Ali’s greatest fight, Stephen Frears.

Outra – No, Pablo Larraín.

Fim de semana

Um livro – Espelho da tauromaquia, Michel Leiris (Cosac Naify, 80 págs.).

Uma reportagem – Alec Wilkinson sobre a recuperação de gravações antigas (http://goo.gl/D80tDl).

Um show para talvez ir – Jesus & Mary Chain.

Um filme okzinho – Flores Raras, Bruno Barreto.

Uma entrevista – Edward Said a Salman Rushdie, circa 1986 (http://goo.gl/7fJrPP).

Houellebecq e uma ideia para decorar a sala

Trecho de O mapa e o território (Record, 399 págs., tradução de André Telles), que tem um personagem homônimo do autor (resenha do livro aqui):

“Tamborilou durante ao menos dois minutos na porta, fustigado pela chuva, antes que Houellebecq viesse abri-la. O autor de Partículas elementares vestia um pijama cinza listrado que o deixava parecido com um presidiário de novela; seus cabelos estavam desgrenhados e sujos; seu rosto, vermelho, quase um pimentão; e ele fedia um pouco. A incapacidade de cuidar da própria higiene é um dos sintomas mais claros da instalação de um estado depressivo, lembrou-se Jed (…).

– Trouxe uma garrafa de vinho. Uma boa garrafa… – exclamou Jed (…). Era um Château Ausone 1986 que, em todo caso, custara-lhe 400 euros: uma dúzia de voos Paris-Shannon pela Ryanair.

– Uma garrafa só? – perguntou o autor de Em busca da felicidade, espichando o pescoço para o rótulo (…). Então, sem dar uma palavra, deu-lhe as costas (…); Jed interpretou a atitude como um convite.

Ao que se lembrava, da última vez o cômodo principal, o living, estava vazio; agora, contava com uma cama e um televisor.

– É – disse Houellebecq –, depois da sua vinda, me dei conta de que o senhor era o primeiro visitante a voltar a esta casa, e que provavelmente será o último. Então, disse comigo, para que manter uma sala de visitas de fachada? Por que simplesmente não instalar meu quarto no cômodo principal? Afinal, passo a maior parte dos meus dias deitado; quase sempre como na cama, vendo desenhos na Fox TV; não é como se eu organizasse jantares.”

Fim de semana

Uma aula – Ricardo Piglia sobre Borges (http://goo.gl/2xKHFf).

Um romance – O professor,  Cristovão Tezza (Record, 240 págs.).

Um romance de estreia – Meu primeiro morto, Jaci Palma (Biblioteca Paraná, 124 págs.).

Um bar – Boca de ouro.

Um disco – Here and nowhere else, Cloud Nothings.

Nomes do horror

Poucas coisas são mais intensas que um pesadelo. E poucas coisas podem ser mais chatas que ouvir alguém contá-lo. Sensações não viram palavras com facilidade: um universo oceânico e abstrato de lembranças, que tem repercussão emocional direta para quem sonhou, só pode ser comunicado por um instrumento, a linguagem, naturalmente mais estreito. Ao acordar, tudo o que temos para evocar nossa angústia e medo são termos genéricos como “angústia” e “medo”.

O mesmo pode ocorrer quando tratamos de um pesadelo histórico. Uma reportagem de Philip Gourevitch na revista New Yorker (http://goo.gl/aGixBw) mostra como, vinte anos depois da guerra de Ruanda, quando hutus assassinaram 800 mil tutsis em cem dias, numa espiral de ódio fermentada pelo colonialismo – e pelo o olhar omisso da ONU –, ainda é difícil chegar a um consenso sobre como chamar o que aconteceu.

Publicado na Folha de S.Paulo, 9/5/2014. Íntegra aqui.

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