O blog volta a ser atualizado no meio de agosto.
Egopress
Publicado em Egopress às 07/06/2009 por Michel Laub1) Aqui, vídeo com a entrevista que dei para o programa Entrelinhas, da TV Cultura.
2) Semana que vem, como parte do programa Viagem Literária, da secretaria de cultura de SP, estarei em cinco cidades do interior para palestras. E dia 28/6, às 16h, na feira do livro de Ribeirão Preto, participo de uma mesa sobre jornalismo e literatura com Arnaldo Bloch.
Fim de semana
Publicado em Cinema, Dicas, Livros, Música, Outros às 04/06/2009 por Michel LaubUm disco – Preliminaires, de Iggy Pop.
Um relançamento – Cemitério de elefantes, de Dalton Trevisan (Record, 108 págs.).
Uma exposição – Rico Lins no Tomie Ohtake.
Um restaurante nordestino – Bar do Biu, na Cardeal.
Um filme para a eternidade (não vi ainda, mas deve ser) – 1983, o ano azul.
Mais verdades pouco ditas do meio literário
Publicado em Listas, Livros às 03/06/2009 por Michel Laub(Ver post de 11/01):
Sobre a competição entre autores – Ao contrário do que reza o senso comum, tudo o que o escritor quer é gostar dos livros dos seus colegas. Esse é um dos motivos por que sua leitura nunca terá a mesma isenção da que faz o crítico descompromissado ou o público: frase a frase, parágrafo a parágrafo ele torce para que o texto lhe diga alguma coisa, para que ele não precise experimentar a sensação auto-corrosiva de vergonha ao elogiar o autor seu amigo no bar. Não há quem prefira ser hipócrita a ser generoso, mas claro que estou falando do que vejo – para minha perplexidade, ouvi dizer que por aí também existe inveja, rancor, mesquinharia.
Sobre críticas ruins – Evidentemente que uma resenha positiva dá uma certa alegria, assim como uma negativa pode estragar a manhã (e o início da tarde, talvez), mas a importância disso é um tanto relativa. De tanto ser cumprimentado por textos que me desancavam, não foi difícil concluir – surpresa! – que a maioria das pessoas não lê críticas, ou lê sem muita atenção, ou lê mal. Daí que devemos torcer apenas para que essas críticas a) saiam na imprensa escrita, e não na Internet, onde vão nos assombrar via Google pelo resto da vida; b) tenham títulos e chamadas meio neutros; c) deixem a cacetada lá para o penúltimo parágrafo ou coisa assim: porque aí, numa silenciosa e apoteótica vingança nossa, a chatice, cretinice e irrelevância do crítico que fala mal da gente – os que elogiam são sempre ótimos – afastará o leitor bem antes.
Dois DVDs: ‘Partículas elementares’ e ‘Once’
Publicado em Cinema às 02/06/2009 por Michel LaubUma das regras em entrevistas de atores, diretores e produtores cinematográficos é jamais definir um filme pelo que ele é, e sim a partir de sentidos graves, maiores. Há pelo menos uns 25 anos que Hollywood, a Europa e o mundo só produzem histórias sobre “o amor”, “o destino”, “a civilização de hoje”, e não sobre um lagarto que sofre mutação genética e por isso destrói uma metrópole a patadas, ou um velho que usa fraldas e gosta de dizer galanteios para as enfermeiras.
Então, não é difícil imaginar como John Carney e Oskar Roehler, diretores de Once e Partículas elementares, respectivamente, apresentariam seus filmes. O primeiro seria um tratado sobre a doçura, sobre como é possível ser simpático, talentoso e altruísta mesmo ganhando a vida como músico de rua no frio cinzento de Dublin. Já o último, bem, acho que dá para afirmar que é sobre escrotidão – porque é assim que normalmente se define um sujeito que se masturba lendo ensaios literários de alunas de 18 anos – ou sobre constrangimento – algo que parece comum em campings nudistas da Alemanha, onde os freqüentadores chegam calçando aquelas sandálias, alguns inclusive de meia, ou em casas de swing onde 138 pessoas feias e tristes dividem uma sala cheia de espelhos para debater Kant e os imperativos categóricos sob uma perspectiva, digamos, multidisciplinar.
Como a escrotidão e o constrangimento são mais freqüentes entre humanos do que a doçura, é provável que haja mais verdade em Partículas elementares do que em Once. Mas as aparências nem sempre estão certas: o filme de Roehler é muito mais engraçado do que sugere, graças ao sarcasmo e à inteligência do roteiro, baseado num romance de Michel Houellebecq, enquanto o de Carney se move pela tristeza, mesmo sendo uma daquelas raras tramas que poupam o espectador de qualquer angústia, deixando-o entregue à mitologia romântica, muitas vezes ingênua, mas também com alguma poesia, de seu enredo.
Um poema de Joca Reiners Terron sobre (e também para) crianças
Publicado em Livros às 01/06/2009 por Michel LaubO chamado da arte
Minha filha está aqui aos meus pés,
desenhando um lindo pássaro numa folha em branco.
O grafite do lápis range, agudo,
enquanto ela risca as linhas
das penas da cauda até o pescoço.
Ao completar o bico, ela diz:
“Pai, esse barulhinho é o canto do pássaro?”.
E aqui, um resumo da polêmica na qual, pelos motivos expostos, Joca e Leandro Sarmatz não têm nenhuma culpa.
Filmes em cartaz cuja sinopse não dá muita vontade de sair de casa
Publicado em Cinema, Listas às 31/05/2009 por Michel Laub(Textos do Guia da Folha):
A partida – “Violoncelista desempregado volta para a cidade natal, onde começa a trabalhar em uma funerária.”
Import export – “Enfermeira ucraniana procura uma vida melhor na Áustria, enquanto um guarda austríaco desempregado tem o mesmo objetivo na Ucrânia.”
Ele não está tão a fim de você – “Moça romântica fica frustrada quando sai com um jovem que não liga para ela no dia seguinte. Ela, então, conhece outro rapaz, que lhe ensina sobre o pensamento masculino.”
Eu te amo, cara – “Prestes a se casar, noivo percebe que não tem opções para convidar para padrinho, até que faz um amigo. No entanto, quanto mais eles se aproximam, menos ele deseja contrair o matrimônio.”
Um hotel bom para cachorro – “Dois jovens órfãos resolvem abrigar um cachorro num hotel abandonado. Logo, eles começam a levar todos os cachorros para o mesmo local.”
Vocês, os vivos – “Com a câmera estática, o diretor filma 57 vinhetas sobre personagens de Estocolmo que falam sobre conquistas, ansiedades e sofrimento; em comum, todos demonstram um ar solitário.”
Fim de semana
Publicado em Cinema, Dicas, Livros, Música, Outros às 28/05/2009 por Michel LaubUma exposição de fotografia – brasileiros e franceses na Pinacoteca.
Um livro de fotografia – O Louvre e seus visitantes, de Alécio de Andrade (IMS, 189 págs.).
Outro livro de fotografia – Paisagem moral, de Marcel Gautherot (IMS, 104 págs.).
Uma música – Gang of gin, Babyshambles.
Um lugar para comer mexilhão – Robin de Bois, na Capote Valente.
Um lugar para comer arroz com ovo frito – Souza, vulgo Soiza, na Pompéia.
Um filme ok – Desejo e perigo, de Ang Lee.
Egopress
Publicado em Egopress às 28/05/2009 por Michel Laub1) No próximo domingo, às 21h30, na TV Cultura, vai ao ar uma entrevista que dei para o programa Entrelinhas.
2) Aqui, um texto bastante esclarecedor sobre minha participação num festival de literatura na Coréia, em 2008.
Dois tipos de homem, segundo H.L. Mencken
Publicado em Livros às 27/05/2009 por Michel LaubTrechos do Livro dos insultos (Companhia das Letras, 264 págs.), que acaba de ser relançado:
O médico – “A medicina preventiva é a corrupção da medicina pela moralidade. É impossível encontrar um médico que não avacalhe a sua teoria da saúde com a teoria da virtude (…). Isto resulta num conflito diametral com a idéia da medicina em si. O verdadeiro objetivo da medicina não é tornar o homem virtuoso; é o de protege-lo e salvá-lo das conseqüências de seus vícios. O médico não prega o arrependimento; ele oferece a absolvição.”
O solteiro – “Ao redor de qualquer solteiro com mais de 35 anos florescem muitas lendas (…). Alguns sussurram que, sendo uma nulidade, sua solteirice estaria prestando um serviço aos não-nascidos. Outros fofocam que, aos 26 anos, ele teria se apaixonado perdidamente por uma mulher que o trocou por um corretor de imóveis (…). Tais histórias são, quase sempre, besteiras. A razão pela qual o solteiro mediano de 35 anos prefere continuar solteiro é muito simples. É a de que nenhuma mulher normalmente bonita e inteligente viu qualquer motivo para se casar com ele.”
Mitos do cinema independente
Publicado em Cinema às 26/05/2009 por Michel LaubA idéia de que o cinema independente americano traria uma verdade que escapa à produção hollywoodiana típica (ver post anterior) não faz muito sentido. Por duas razões:
1) porque faz tempo que esse cinema é um braço dos grandes estúdios, seja na produção, seja na distribuição. Assim como as majors da indústria fonográfica têm (ou tinham) seus pequenos selos para suprir nichos de mercado, Hollywood soube aproveitar o prestígio de filmes consagrados em festivais como o Sundance para abrir uma frente de negócios bastante lucrativa – já que os custos de produções sem astros nem efeitos especiais são baixos, e a carreira delas no exterior e em DVD costuma ser longa. A família Savage, por exemplo, é da Fox Searchlight, divisão da 20th Century Fox, que por sua vez é a distribuidora internacional do filme.
2) porque a idéia reproduz uma crítica ideológica e obsoleta, segundo a qual o cinemão hollywoodiano seria uma espécie de anestésico receitado às massas, uma propaganda subliminar favorável ao “sistema” e seus alicerces – a economia de mercado, a família, os bons costumes, o conformismo político. O cinema independente, por não depender de grandes financiadores que interferem no processo criativo, impondo sua visão de mundo corporativa e conservadora, é que faria o contraponto mostrando a imagem da “América como ela realmente é”.
Isso poderia ter alguma lógica se não fosse Hollywood, na verdade, a ponta de lança cultural mais evidente da crítica a esse sistema. Para quem duvida, entre muitos outros exemplos, basta conferir alguns dos clichês mais freqüentes nos filmes das 20th Century Fox da vida: numa firma de advogados, os veteranos corruptos assediam o idealista novato; numa guerra ou num quartel, os generais hipócritas e covardes armam para cima de tenentes honestos e corajosos; numa delegacia, o anti-herói descobre um esquema criminoso envolvendo seu chefe; no mundo dos esportes, o entusiasmo do atleta sucumbe diante de dirigentes mafiosos.
Alguém poderia argumentar que a crítica à autoridade é apenas uma forma de veicular o tema do voluntarismo individual, também tão próximo ao imaginário americano. Mas isso não impede que a noção de um poder ilegítimo, sempre baseado na injustiça ou na corrupção, seja a grande fonte de histórias de gêneros tão diversos, que vão do policial ao thriller político, do drama de tribunal ao blockbuster de fantasia. Se isso não é cinema de contestação, cujo alvo recorrente é um modelo de sociedade, o que mais poderia ser?
Um DVD: ‘A família savage’
Publicado em Cinema às 25/05/2009 por Michel LaubÀ primeira vista, A família Savage é um produto típico do chamado cinema independente americano: ali está a família desestruturada, os personagens mais ou menos fora das convenções, as referências literárias e, bem, até Philip Seymour Hoffman e Laura Linney – duas grifes que, embora com a qualidade costumeira, não deixam de ser uma jogada previsível.
Mas o filme tem uma característica que o diferencia desse modelo: a ausência de esforço para ganhar simpatia. Em nenhum momento a diretora e roteirista Tamara Jenkins tira da manga aquela virada providencial da trama, a partir da qual tudo o que parecia triste e bizarro se torna uma espécie de estética, a celebração da falibilidade ou coisa do gênero, algo tão presente na linhagem que nos últimos anos consagrou títulos como Pequena Miss Sunshine e Juno.
Isso se dá por um mecanismo curioso. Uma das mitologias em torno do cinema independente, mesmo aquele financiado por grandes estúdios em algum ponto de sua produção ou distribuição, é a de seu suposto realismo. É como se nesses filmes houvesse uma essência e uma verdade que, por uma série de motivos, escaparia ao produto corriqueiro de Hollywood. Não é bem assim, claro: como qualquer narrativa, Pequena Miss Sunshine e Juno fazem escolhas para, juntando na tela determinados personagens, determinado cenário, determinadas situações e um determinado tom para contá-las, mostrar uma versão sua para o que seria uma determinada realidade. O humor e a doçura desses dois filmes, o carisma dos tipos que ambos descrevem, a agilidade com que seus dramas aparecem, sem falar de fotografia e direção de arte e trilha sonora, todos esses elementos é que dão colorido e vitalidade a uma base no fim das contas um tanto enfadonha – o mundo dos “problemas verdadeiros”, das “pessoas verdadeiras” e, o que nunca falta nas ponderações críticas a respeito, da “América verdadeira”.
Pois A família Savage faz o contrário. A história de um professor universitário e de sua irmã, uma aspirante a dramaturga, ambos forçados a lidar com a demência progressiva do pai, inclui todos os detalhes melancólicos da vida nos asilos baratos, da solidão da meia idade, das carreiras profissionais estagnadas. Há uma ponta de sarcasmo aqui e ali, assim como um leve acento de esperança ao final, mas isso não é suficiente para afastar a sensação geral de desconforto, como se o filme fosse uma história européia escura cuja missão é revelar ao espectador, o que certamente o deixará espantado, como a vida às vezes pode ser dureza.
Em termos de rigor dramático é admirável e tal, mas lá pela metade da exibição dá saudades do velho realismo hollywoodiano. Aquele que o cinema independente bem-sucedido, de forma muito sábia, soube imitar dizendo que fazia o contrário.
Fim de semana
Publicado em Cinema, Dicas, Livros, Música, Outros às 21/05/2009 por Michel LaubUm documentário – Simonal, ninguém sabe o duro que eu dei, de Claudio Manuel, Calvito Leal e Micael Langer.
Um livro – The songlines, de Bruce Chatwin (Picador, 325 págs.).
Uma música – Eighties fan, Camera Obscura.
Uma exposição meio truque – vídeos franceses no MIS.
Outra exposição meio truque – Vik Muniz no MASP.
Um drink para começar bem a noite – pisco sour.
Um drink para terminar a noite mais ou menos – choconhaque.
Dois inícios entusiasmantes
Publicado em Livros às 20/05/2009 por Michel Laub1) O de um conto de Robert Coover citado por Tom Wolfe em Radical chique e o novo jornalismo (Companhia das Letras, 245 págs.):
“Para conseguir começar, ele foi viver sozinho numa ilha e se matou com um tiro.”
2) O de Excession, de Iain Banks, descrito e devidamente comentado por Nick Hornby neste trecho de Frenesi polissilábico (ver posts anteriores):
“Nada nas poucas páginas que consegui ler era em absoluto ruim; o problema é que não entendi uma palavra. Nem sequer entendi a sinopse na contracapa do livro: ‘Dois mil e quinhentos anos atrás, o artefato apareceu num remoto ponto do espaço sideral, ao lado de um sol moribundo de um trilhão de anos, num universo diferente. Era uma esfera perfeita, negra, que permanecia inerte. De repente, desapareceu. Agora voltou.’ (…) Quando cheguei no primeiro capítulo, intitulado Problema de contexto externo, que começa assim: ‘(CGU Área Cinza, seqüência de sinal arquivo número n428857/119)’, eu chorava tanto que não conseguia mais enxergar a página à minha frente.”
Nick Hornby (2)
Publicado em Livros às 19/05/2009 por Michel LaubTrechos de Frenesi polissilábico (ver post anterior):
Sobre romances curtos – “A obsessão pela austeridade é uma tentativa de (…) fazer com que a literatura se pareça com um trabalho de verdade, tipo pegar na enxada ou derrubar árvores (…) Mandem brasa, jovens escritores – desfrutem de uma piadinha ou de um advérbio! (…) Os leitores não vão se importar! Vocês já viram a grossura dos livros vendidos nos aeroportos? A verdade é que as pessoas curtem informações inúteis. (E, de forma contrária, os escritores dos escritores, os que podam e peneiram, tendem a depender mais da aprovação dos críticos que dos direitos autorais para viverem.)”
Sobre metalinguagem – “O último refúgio do crítico picareta é qualquer versão da seguinte sentença: ‘Em última análise, esse livro é sobre a própria ficção/ esse filme é sobre o próprio filme’. Eu mesmo já usei essa frase, na época em que escrevia críticas sobre vários livros, e posso dizer que é tudo balela: invariavelmente o negócio significa apenas que o filme ou o romance chamou a atenção para o seu próprio estado, o que não nos leva a lugar nenhum, e é o motivo pelo qual o crítico nunca nos diz exatamente o que o romance tem a dizer sobre a própria ficção.”
Sobre No name, de Wilkie Collins – “Se você comprar a edição Classics da Penguin, entretanto, não leia a sinopse na parte de trás. Ela meio que revela a primeira mudança de trama (que, aliás, é fantástica), justificando que a própria é ‘revelada logo cedo’, só que o ‘logo cedo’ acaba sendo a página 96 (…). Aqui vai uma nota para as editoras: algumas pessoas lêem romances do século XIX por diversão, e muitos deles foram escritos para ser lidos dessa forma também.”
Sobre um romance de Michael Frayn comprado num sebo – “‘Se Frayn estiver prestes a entrar na pele de alguém, não é na de Evelyn Waugh, mas na de Gogol’, lê-se na sinopse promocional do livro (…).Pelo que posso entender, a citação é um aviso solene aos fãs do elegante texto de humor inglês de que esse elegante romance inglês de humor não vai ser de interesse deles mesmo. Foi uma tática bem ousada, certamente; os exemplares de uma libra nos levam a crer que ela nunca foi um sucesso.”
Nick Hornby e o frenesi
Publicado em Livros às 19/05/2009 por Michel LaubPode-se dizer qualquer coisa de Nick Hornby, menos que ele não saiba escrever com fluidez, inteligência e humor. Em seus romances isso nem sempre basta, talvez porque os achados pop que abundam em sua prosa não garantam sozinhos a densidade estética e psicológica que a ficção muitas vezes exige. Não que sejam maus romances, apenas acho que suas qualidades como escritor aparecem mais no formato de não-ficção. É nele que escreveu dois ótimos livros: Febre de bola (Rocco, 248 págs.), suas memórias de torcedor do Arsenal, e o agora lançado Frenesi polissilábico (Rocco, 264 págs.), coletânea de resenhas publicadas na revista americana The Believer.
Na verdade, são menos resenhas que conversas sobre livros – leves, sinceras, repletas da habitual mistura de descrições apaixonadas e auto-ironia, numa constante defesa dos prazeres da leitura descompromissada frente ao engessamento de categorias acadêmicas e ideológicas. E o que é mais importante em se tratando de análise literária: seja falando das obras em si, seja de temas em geral ignorados pela imprensa do meio – o tamanho das histórias, por exemplo, ou a forma como são apresentadas as edições –, os textos trazem a marca inconfundível de autores que pensam sozinhos, mesmo quando erram.
Sugestões para aprimorar os atuais métodos de preparação de atores
Publicado em Cinema, Listas, Outros às 17/05/2009 por Michel LaubComo se sabe, este negócio de distanciamento brechtiano e construção externa da interpretação está muito em baixa nos meios cinematográficos, teatrais e televisivos do Brasil. Hoje é preciso que o ator viva o seu personagem como uma segunda natureza, que pesquise e incorpore a complexidade de suas experiências numa espécie de osmose estética, histórica, sociológica, antropológica, psíquica, econômica, política, sexual e até mesmo moral, no sentido que toda formação de um self assim o é. Para tanto, nossos diretores e suas equipes de preparação bem que poderiam pensar em coisas como:
Convênio com universidades – para que atores interpretando advogados, por exemplo, não apenas aparentem ser, mas sejam advogados. O filme poderá atrasar cinco ou seis anos, dependendo de o curso ser diurno ou noturno, mas sempre dá para contratar Fátima Toledo ou Rodrigo Pimentel para não deixar o aluno se distrair nas passeatas.
Workshop de acidentes de carro – Exercício imprescindível se a obra for um remake nacional de Crash ou uma novela com essa temática. A oficina de desmaios e mortes, apesar de determinados problemas práticos, principalmente se a preparação for para uma peça teatral, pode ser ministrada em paralelo.
Semana Caio Blat de rejeição em restaurantes – Em homenagem ao ótimo ator paulistano, que alugou uma casa no Capão Redondo e adotou visual de ex-presidiário para viver o protagonista do filme Bróder. Para repetir sua experiência virtuosa – que o fez ser um tanto mal recebido num estabelecimento da rua São Carlos do Pinhal –, dá para pensar em estratégias que causem efeitos semelhantes (é preciso sentir na pele o preconceito) junto a proprietários socialmente insensíveis: entrar no restaurante ensangüentado dos pés à cabeça, ou quem sabe segurando um lança-chamas, ou carregando um animal morto há semanas – um boi, uma zebra ou uma girafa.
Fim de semana
Publicado em Cinema, Dicas, Livros, Música, Outros às 14/05/2009 por Michel LaubUma peça saindo de cartaz – Comunicação a uma academia, com Juliana Galdino e direção de Roberto Alvim.
Um clássico relançado – O livro dos insultos, de H.L. Mencken (Companhia das Letras, 264 págs.).
Um filme ok, mas que dá para sair no meio – Aleksandra, de Aleksandr Sokúrov.
Um filme ok e do qual se deve sair pelos 15 minutos – Milagre em Santa Anna, de Spike Lee.
Uma exposição – Alécio de Andrade, fotografias no IMS/SP.
Uma música – Beach demon, Wavves.
Um restaurante peruano – Killa, na Tucuna.
Egopress
Publicado em Egopress às 13/05/2009 por Michel LaubAqui, um vídeo que a Companhia das Letras fez – com produção de Renata Megale, Juliana Vettore e Joana Fernandes – para divulgar meu livro.
Duas descrições de cidades
Publicado em Livros às 13/05/2009 por Michel Laub1) Nick Tosches sobre Hong Kong em A última casa de ópio (Conrad, 93 págs.):
“Não havia noite nem dia: apenas a luz do neon, e a voluptuosa escuridão, a meia-noite acelerada e sem fim, a veradeira alma do lugar, que impregnava até a aurora resplandescente, quando o sol e o neon se tornavam, por um instante estático, a bruma elétrica que era o único batimento cardíaco do repouso – de pé, num balcão de bar ou mesa de jogo, ou deitado entre sedas luxuosas e hálitos delicadamente perfumados – que precedia o flamejante despertar de um dragão e de uma cidade que eram um só.”
2) Martin Amis em A informação (Companhia das Letras, 490 págs.):
“Percebeu, no momento em que saiu andando pelas suas ruas, que Nova York era a coisa mais violenta que os homens já haviam feito com qualquer extensão de terra. Mais violenta, a seu modo, que os efeitos produzidos pouco acima de Hiroshima, no ponto zero, no dia da bomba.”
Mais tormento e mais bananas
Publicado em Livros às 13/05/2009 por Michel Laub
Trecho de um poema de Ferreira Gullar publicado no jornal Rascunho:
“E pense bem: também/ um tumor é um ponto intenso/ da matéria viva,/ de alta temperatura/ como a gestar um astro/ de pus/ (assim se engendram os sóis,/ os sons/ no vazio abissal)// e assim também as vozes/ do açúcar/ (um negro/ lampejo)/ que assustam os mosquitos/ (nuvens deles)/ pairando no ar/ dos escusos/ cantos/ do depósito/ de frutas/ nos fundos da quitanda/ rua da Alegria esquina de Afogados// e que faliu/ e sumiu/ para sempre/ daquela esquina e do mundo, a quitanda,/ bem como seu dono, o falado/ Newton Ferreira e seus amigos Zé Dedão,/ o Cantuária e o Elias,/ todos/ que poderiam afirmar/ que sim, de fato as bananas/ já estavam passadas, quase inteiramente podres/ aquela tarde// e que ali amontoadas num alguidar/ fermentavam/ exalando no ar o doce odor/ de bananas morrendo/ o que efetivamente ocorreu/ na cidade de São Luís do Maranhão/ ao norte do Brasil/ por volta de 1940…// E foda-se.”
A alma atormentada e a banana
Publicado em Cinema, Música às 11/05/2009 por Michel LaubEmbora tenha mantido um certo padrão sonoro nos últimos e bem-sucedidos discos que gravou – Time out of mind, Love and theft, Modern times e o recém-lançado Together through life –, Bob Dylan ainda é identificado com a idéia da eterna mudança e, para quem acredita nisso em se tratando de show biz, como uma espécie de catalisador dos tormentos individuais da alma artística. O exato oposto dos Rolling Stones, outra das lendas aparentemente vivas dos anos 1960, que sempre estiveram aí apenas para se divertir – da mesma forma e dando uma banana para qualquer discussão que vincule sua trajetória a argumentos políticos, históricos ou comportamentais.
A dicotomia foi captada por Martin Scorsese em dois documentários disponíveis em DVD, No direction home e Shine a light. Em ambos ele poderia ter optado pela narrativa convencional da cinebiografia, mas preferiu uma forma mais apaixonada de homenagem: no primeiro caso, submergindo na mitologia de extração romântica que o gênio egocêntrico de Dylan sempre alimentou; no segundo, deixando os Stones fazerem aquilo que mais sabem, mais gostam e mais devem mesmo fazer – tocar.
Óbvio que No direction home é um filme mais rico. Mas Shine a Light, com exceção de algumas passagens complacentes, consegue recuperar a eletricidade de Mick Jagger e cia ao vivo, algo que havia sido enterrado por transmissões burocráticas de shows na TV ou por DVDs anteriores e hediondos. É um registro estridente, físico, onde os músicos estão sempre próximos da câmera e se vê Keith Richards cuspindo no microfone ou envolto na fumaça de cigarro. E onde em alguns números, especialmente Jumpin’ Jack flash, Shattered e os duetos com Buddy Guy e Jack White, dá para entender por que os Rolling Stones vêm conseguindo ser os Rolling Stones por tanto tempo.
Fim de semana
Publicado em Cinema, Dicas, Livros, Música às 07/05/2009 por Michel LaubUm disco velho, mas bom – Together through life, Bob Dylan.
Outro disco velho, mas bom – Zii e Zie, Caetano Veloso.
Um filme – Anabazys, de Joel Pizzini e Paloma Rocha.
Uma exposição – fotografias de Dag Alveng na Caixa Cultural Paulista.
Uma coleção de livros – The New Yorker cartoons, org. de Sérgio Augusto (Desiderata, em três volumes).
Egopress
Publicado em Egopress às 06/05/2009 por Michel Laub1) Há um conto meu na antologia Il Brasile per le strade, lançada na Itália pela editora Azimut. Aqui, uma entrevista a respeito com a organizadora e tradutora Silvia Marianecci.
2) Começaram a sair matérias/resenhas/entrevistas sobre O gato diz adeus, algumas neutras/falando bem – Estadão, Folha (Guia de Livros), Jornal do Brasil, Valor Econômico, Zero Hora, + Soma, Correio Braziliense, Gazeta do Povo (Paraná) e em blogs de amigos gentis –, algumas falando mal ou meio mal – Folha (Ilustrada) e Bravo. Se sobrar tempo e faltar um pouco (mais) de constrangimento, publico trechos desse material no blog.
Animais brasileiros (2)
Publicado em Livros às 05/05/2009 por Michel LaubMais relatos sobre a fauna nacional (ver post anterior), desta vez pelo calvinista francês Jean de Léry (1534-1611), entre uma e outra condenação à nudez dos índios que “pouco diferem dos animais”:
Anta – “Pode-se dizer que, participando de um e outro animal, é semi-vaca e semi-asno”.
Gambá – “Tem mau cheiro e não o comem os índios de boa vontade”.
Preguiça – “Do tamanho de um cão d’água grande, e sua cara de bugio se assemelha a um rosto humano. (…) Por causa das unhas, nossos tupinambás, que andam sempre nus, não gostam de folgar com ele. O que parece fabuloso, mas é referido não só por moradores da terra, bem como por adventícios com longa residência no país, é não ter jamais ninguém visto esse bicho comer, nem no campo nem em casa, e julgam muitos que ele vive de vento”.
Porcos d’água, cavalos armados, peixes que curam
Publicado em Livros às 05/05/2009 por Michel LaubHá muitas pérolas em Brasil, a história contada por quem viu (Mameluco, 652 páginas), com organização de Jorge Caldeira e equipe, uma coletânea de descrições em primeira pessoa que cobrem desde a chegada de Pedro Alvares Cabral – registrada na carta de Pero Vaz de Caminha – até eventos recentes como a queda de Collor, prenunciada pela célebre entrevista de seu irmão à Veja. Entre um e outro ponto, o suicídio de Getúlio Vargas (contado em sua carta de despedida), a estréia de Pelé (numa crônica de Nelson Rodrigues), um relato de Carlos Lacerda sobre um jantar com Jânio às vésperas de sua renúncia e textos como o do missionário Fernão Cardim (c.1540-1625), dirigido a leitores europeus que nunca tinham ouvido falar de animais como:
Capivara – “Desses porcos d’água há muito e são do tamanho dos porcos, mas diferem nas feições.”
Tatu – “Tem o focinho muito comprido, o corpo cheio de coisas parecidas com lâminas, com que fica armado (…). Essas lâminas são tão duras que nenhuma flecha as pode atravessar, se não pelas ilhargas. Furam de tal maneira, já aconteceu de 27 homens com enxadas não poderem cavar tanto quanto um cavava com o focinho (…). É animal para se ver, ao qual chamam de ‘cavalo armado’.”
Peixe-boi – “Nas feições, parece animal terrestre e principalmente boi: a cabeça é toda de boi, com couro, cabelos, orelhas, olhos e língua. (…) Na cabeça, sobre os olhos e junto aos miolos, tem duas pedras de bom tamanho, alvas, e pesadas, que são de muita estima e único remédio para dor de pedra (cálculo renal), porque feita em pó e bebida em vinho, ou água, faz a pedra ser expelida. Certa vez, tomando-a uma pessoa, depois de várias experiências, antes de uma hora expeliu uma pedra do tamanho de uma amêndoa e ficou sã, estando dantes para morrer.(…) São muito grandes e alguns pesam dez, e outros quinze quintais (cada quintal equivale a 60 kg). Já se matou peixe que cem homens não o puderam tirar fora d’água, e nela o desfizeram”.
Festas e fatwas
Publicado em Cinema, Livros às 04/05/2009 por Michel LaubEsta semana acontece a edição de Los Angeles da já célebre Lebowski Fest, em que a rapaziada joga boliche e toma white russians como se estivesse naquele que é o filme mais alucinado dos irmãos Coen. O evento, que nasceu no Kentucky, mostra que O grande Lebowski ultrapassou as barreiras do cult movie para se incorporar ao imaginário dos Estados Unidos.
Talvez dê para dizer que essa é a forma definitiva de aclamação artística, muito além do mero aplauso de crítica ou do público. O que é uma resenha na Cahiers du cinéma perto de um casamento celebrado por um padre vestido de Darth Vader, ou de um diretor comercial que, como alegremente revelou numa reportagem da Folha há alguns meses, usa métodos do Capitão Nascimento para motivar seus subordinados? É bastante incomum a arte interferir no mundo real. Quando acontece, é uma prova inegável de seu poder – estético, sociológico, moral, seja lá qual for.
Um exemplo do outro lado da moeda, ou seja, da variante mais concreta e conseqüente de rejeição cultural, costuma ser usado por um amigo quando o assunto é o radicalismo da crítica: a condenação do Aiatolá Khomeini ao romance Os versos satânicos, de Salman Rushdie.
Feriado
Publicado em Cinema, Dicas, Livros, Música, Outros às 30/04/2009 por Michel LaubUm livro – Frenesi polissilábico, de Nick Hornby (Rocco, 264 págs.).
Uma exposição em Porto Alegre – Iberê Camargo no museu Iberê Camargo.
Um filme meio chato, mas bom – Sinédoque, de Charlie Kaufman.
Um show na Virada Cultural – Instituto, na São João.
Uma peça na Virada Cultural – O corpo, na Galeria Olido.
Egopress
Publicado em Egopress às 29/04/2009 por Michel Laub
1) Na nova edição da revista Vip há um texto meu sobre mulheres do cinema com quem “não se deve casar” (a idéia foi do editor, juro).
2) Nesta quinta, às 21, no Tapas (Augusta, 1246), faço minha estréia mundial como DJ estagiário e pau mandado (a.k.a. sub do sub) das moças do Cabernet Sauvignon.
Duas falas sobre natureza e ânimo
Publicado em Livros às 29/04/2009 por Michel Laub
1) A de Ishmael no início clássico de Moby Dick (Cosacnaify, 656 págs.):
“Sempre que começo a ficar rabugento; sempre que há um novembro úmido e chuvoso em minha alma; sempre que, sem querer, me vejo parado diante de agências funerárias, ou acompanhando todos os funerais que encontro; e, em especial, quando minha tristeza é tão profunda que se faz necessário um princípio moral muito forte que me impeça de sair à rua e rigorosamente arrancar os chapéus de todas as pessoas – então percebo que é hora de ir o mais rápido possível para o mar.”
2) A do narrador de Stanley Elkin em The making of Ashenden, citado por Francine Prose em Para ler como um escritor (Zahar, 319 págs.) como “romance sobre o caso de amor arrebatado e altamente inadequado entre um homem rico e um urso”:
“Durante toda a minha vida adulta fui um hóspede nas casas de outras pessoas, seguindo o sol e as estações como uma ave migratória, um instinto em mim, a astuta sensibilidade do homem rico para o momento propício, um senso de ostra-em-mês-com-r operando ali onde se sabe sem referência a nada de exterior o momento de pôr na mala a raquete de tênis, de levar o binóculo alemão para observar as aves de um amigo, o telescópio para contemplar suas estrelas, o traje de mergulho para nadar sob suas águas quando os peixes exóticos estão migrando. Não está no Times quando o smoking preto sai de cena e entra o branco; é algo mais seguro, mais sutil, o delicado sistema de orientação dos privilegiados, minha astronomia de playboy.”
Such a sad old feelin’
Publicado em Música, Vídeos às 28/04/2009 por Michel Laub
Música que fecha o filme Cortina de fumaça numa versão mais grave, com mais grunhidos e melhores caretas.
Egopress
Publicado em Egopress às 15/04/2009 por Michel Laub
1) Meu novo romance, O gato diz adeus (Companhia das Letras, 80 págs.), já está nas livrarias. Haverá dois lançamentos em abril: em Porto Alegre, dia 22, a partir das 19h, na Palavraria (Vasco da Gama, 165), e em São Paulo, dia 27, também a partir das 19h, na Mercearia São Pedro (Rodésia, 34).
2) O blog faz uma pausa e volta a ser atualizado em duas semanas.
Vantagens e desvantagens de cineastas que trabalham sempre com os mesmos atores
Publicado em Cinema, Listas às 14/04/2009 por Michel Laub
David Mamet (que convive com Joe Mantegna, Ricky Jay, William H. Macy, Rebecca Pidgeon) – por um lado, não há dia igual ao outro, e por trás das inúmeras surpresas e reviravoltas dos fatos você percebe que o mundo sempre faz sentido. Por outro, além de eventuais acusações de obsessão e paranóia, você tem de aturar amigos que só sabem responder uma pergunta com outra pergunta, ou repetindo em tom inexplicavelmente alto a pergunta que você acaba de fazer.
Irmãos Coen (que convivem com John Goodman, John Turturro, George Clooney, Frances McDormand) – se é verdade que não dá para se queixar da sem-gracice dos seus parceiros – no mínimo eles passaram pelo Vietnã, ou têm pacto com o demônio, ou gostam de botar gente para jogar boliche no moedor –, também é fato que eles invariavelmente terão vontade de ganhar uma grana fácil, e aí vai tudo para o beleléu.
Wes Anderson (que convive com Bill Murray, Owen Wilson, Jason Schwartzman, Anjelica Houston) – a vantagem é que as conversas, as roupas, as viagens e as reuniões familiares são charmosas, inteligentes e divertidas. A desvantagem é que, embora a imprensa e o resto do mundo não cansem de demonstrar que, sim, entendem e acham engraçadas suas tiradas paródicas e suas piadas internas, seus colegas não são trouxas de ignorar que, criança e adolescente, e se é que isso de fato é um problema, você leu o livro do Björn Borg (Minha vida, meu jogo) e era do clubinho do Jacques Cousteau.
‘O filho da mãe’, de Bernardo Carvalho
Publicado em Livros às 13/04/2009 por Michel Laub
(publicado no guia de livros da Folha – ver também post de 11/3):
Integrante da coleção Amores expressos, cujos títulos sempre trazem uma história de amor vivida numa cidade estrangeira, a trama intrincada do novo romance de Bernardo Carvalho não é apenas romântica, embora também enfoque a relação entre um soldado e um ladrão, e nem se limita a São Petesburgo, onde se passam a maior parte das cenas. Mais amplamente que isso, e como é praxe neste autor singular na literatura brasileira, o que está em jogo em O filho da mãe é o indivíduo e suas identidades possíveis – nacionais, culturais, sexuais – no caos do mundo contemporâneo.
Se em romances como Nove noites e O sol se põe em São Paulo tais identidades eram postas à prova pela geografia e pelo meio, em O filho da mãe tudo parece ditado pela história – no caso, a tenebrosa história russa, marcada pelo que Joseph Conrad, citado num romance de Martin Amis sobre o Gulag, chamava de “freqüência do excepcional”. Uma herança de massacres, tragédias, pobreza e tirania que faz os personagens – bandidos, burocratas, mães à procura de filhos perdidos, militares envolvidos em guerras absurdas – chafurdarem num cotidiano de humilhação e desespero.
A par de defeitos de menor importância – algumas falas explicativas demais no começo, um ou outro trecho que exagera no psicologismo –, o livro é muito feliz na escolha de um registro em terceira pessoa, mas que mantém a linguagem menos tensionada de obras recentes de Carvalho. É a partir dela, com sua recusa ao cerebralismo objetivo, que emergem as emoções escondidas num tempo e num lugar onde “sempre haverá alguém pronto para reconhecer e atacar a vulnerabilidade”.
Ridley Scott e os profissionais
Publicado em Cinema às 12/04/2009 por Michel Laub
Tenho bastante simpatia pelos diretores hollywoodianos “profissionais”, a família da qual fazem parte Ron Howard, James Cameron, Michael Mann e tantos outros. Porque o mundo às vezes precisa de filmes sobre relações humanas e deus e o destino, mas que em seu miolo expliquem pacientemente como funciona uma nave espacial, um navio transatlântico ou as reuniões de pauta do 60 minutes – algo que os best-sellers tipo John Grisham podem fazer bem, e daí o seu sucesso utilitário, só que sem a concisão e a praticidade do cinema.
Dos diretores profissionais que volta e meia trabalham em Hollywood, ninguém é mais talentoso que Ridley Scott. Por vezes ele chega até a ser confundido com a família dos “artistas” – e o caso clássico é Blade Runner –, mas é bem possível que isso aconteça por acaso, que sua intenção inicial fosse e continue sendo apenas filmar uma história da melhor maneira.
Revendo O gângster no Telecine, fiquei pensando no que alguém como Francis Ford Coppola ou Martin Scorsese poderia ter feito do argumento. O primeiro estenderia o filme em mais umas duas horas, e recriaria todo o cenário novaiorquino, e daria uma dimensão wagneriana para os personagens, e um dos atores teria um infarto filmando as cenas do Vietnã. O último incluiria uma mulher linda e trágica no enredo, e puniria todo mundo ao final, e em algum momento daria um jeito de tocar Gimme Shelter, e o ajudante de Denzel Washington – não me perguntem como, já que ele não se bicava com os italianos – seria Joe Pesci.
É até provável que o filme ficasse melhor, só que exigiria um outro esforço do espectador, algo que nem sempre se está disposto a fazer. O gângster é diferente: passa-se por ele com leveza, nada ali chega a ser exatamente dramático ou angustiante, porque Ridley Scott parece preocupado é com o interesse que todos temos em saber a que horas um chefão do tráfico acorda, se ele come pão com manteiga no café da manhã, se ele vai com a mãe na missa aos domingos, se ele consegue os melhores tickets para ver Muhammad Ali. Em Coppola e Scorsese essas cenas de dia-a-dia funcionam num sentido de ritmo, os intervalos de respiro entre as seqüências que dão o peso e o significado reais, amplos e solenes ao roteiro. Em Scott elas são praticamente tudo. Como há poucos riscos nessa escolha, e como pouca gente sabe filmar como ele – pense em Alien, Gladiador, Falcão negro em perigo, Um bom ano, Rede de mentiras –, dificilmente algo que faça será menos do que bom, ou com sorte até muito bom.
Páscoa
Publicado em Cinema, Dicas, Livros, Música às 09/04/2009 por Michel Laub
Uma exposição – Amazônia, de Bob Nugent, no Instituto Tomie Ohtake.
Um documentário – Palavra (en)cantada, de Helena Solberg.
Uma música – Florecita Rockera, Aterciopelados.
Um livro com a doutora Kay Scarpetta – Predador, de Patricia Cornwell (Companhia das Letras, 424 páginas).
Uma reportagem sobre o paciente David Foster Wallace – a de D.T.Max na New Yorker de 9/3.
Duas perguntas para Sérgio Rodrigues
Publicado em Livros às 07/04/2009 por Michel Laub
Escritor e jornalista, autor do blog todoprosa e do recém-lançado Elza, a garota (Nova Fronteira, 240 págs.), romance baseado num episódio histórico controverso – o assassinato, a mando do Partido Comunista Brasileiro, da namorada de um de seus dirigentes, em 1936.
O que é mais difícil: botar fatos reais numa ficção ou ficção em fatos reais?
Tecnicamente dá no mesmo, mas injetar ficção em fatos reais é mais perigoso. O risco de falsear uma certa verdade histórica aumenta a responsabilidade. Seja como for, os dois processos me interessam, e a fronteira entre eles nem sempre é tão clara no Elza, que investe pesado num embaralhamento dessas coisas.
Você certamente imaginou que o romance ganharia muitas leituras ideológicas. Isso influenciou na maneira como ele foi escrito?
Creio que não. Imaginar como os leitores reais vão ler é algo que sempre evitei fazer enquanto escrevo, pois pode ter efeito paralisante. Por outro lado, sim, mas só no sentido de que eu escrevo para mim mesmo, sou meu primeiro leitor. E desde o início me interessava descascar as camadas ideológicas dessa história em busca de um certo miolo, uma verdade que fosse ao mesmo tempo histórica e romanesca. Se fui bem-sucedido, o livro está cheio de antídotos contra leituras simplistas de esquerda e de direita.
Caetano: bossa nova, tropicalismo e imprensa
Publicado em Livros, Música às 06/04/2009 por Michel Laub
Outro trecho de O som do pasquim (ver post anterior):
“Quando digo que o meu trabalho e o de Gil não são do mesmo nível da bossa nova, é porque o nosso trabalho não tem uma característica formal definida (…). Você pode pegar um disco do João Gilberto, tocar 500 vezes e, se você tem bom ouvido musical, você pega os acordes e faz. Agora uma coisa que não tem uma forma definida, como o nosso trabalho, como é que você vai imitar?”
Falar bem ou mal de Caetano Veloso não deixa de ser uma espécie de moda, e a tendência negativa atual parece que mudará, dados os elogios que seu novo disco vem recebendo. Independentemente disso, e em meio ao barroquismo que sempre envolve suas respostas, não dá para negar a precisão de alguns de seus diagnósticos – como o citado acima, de 1971, ou o seguinte, tirado de Pós-tudo, o livro comemorativo dos cinqüenta anos da Ilustrada que saiu em 2008 (Publifolha, 368 págs.):
“Eu não sou frankfurtiano. Acho que quando os artistas eram posse do príncipe ou do Papa não estavam em melhor situação do que sendo posse do mercado (…). O jornalista tende a gostar muito do Adorno (…). Há uma contradição, porque Adorno odiaria esse mundo do jornalismo. Ainda mais o dos segundos cadernos, que é o mundo do entretenimento, da indústria da cultura.”
Música brasileira: dinheiro, mulheres e discos voadores
Publicado em Livros, Música às 05/04/2009 por Michel Laub
Longe de mim endossar qualquer conversa nostálgica sobre cultura e imprensa: de maneira geral, e isso não se restringe aos dois temas, acho que o mundo hoje é melhor que trinta, cinqüenta ou cem anos atrás. Mas é fato que entrevistas como as reunidas em O som do pasquim, com organização de Tárik de Souza (Desiderata, 277 págs.), há algum tempo deixaram de ser comuns. Talvez porque os artistas em 2009 tenham mais informação – ou assessoria – que naquela época, o que filtra um pouco de sua sinceridade, digamos assim. Ou porque os veículos não fazem mais longas sessões de perguntas em bares, hábito do Pasquim que, coincidentemente ou não, resultava em declarações como estas:
Agnaldo Timóteo – “No Plaza, cansei de tomar dinheiro com nome de outros: ligava e tomava uma grana. (…) Tem um cara aí, que escreve para jornal, que uma vez eu telefonei para uma boate com o nome dele, fui lá e apanhei 10 contos!”.
Moreira da Silva (perguntado sobre o boato de que seu samba mais conhecido, Na subida do morro, na realidade era de Geraldo Pereira) – “Sim, é verdade. Ele me vendeu por 1 conto e 300.”
Waldick Soriano – “Nenhuma mulher deve pensar que o homem fora de casa vai ser fiel a ela, entendeu? O homem sempre tem necessidade de procurar outra mulher. E se a mulher fica grávida, o homem não é culpado, entende? Nós somos assim: um servindo o outro.”
Raul Seixas – “(O disco voador estava) parado, estático. O Paulo (Coelho) chegou e nós começamos a conversar, sentados. Foi como se a gente tivesse feito uma viagem no próprio disco. E vendo a problemática toda do planeta.”