O blog volta a ser atualizado em março. Sigo no @michellaub.
10 pedidos de fim de ano para o meio literário
Postado em Listas, Livros em 15/12/2011 por Michel Laub(Publicado no blog da Companhia das Letras):
1. Escritores: parem de achar (ou pensar que os outros acham) que literatura é um sacerdócio/missão de espíritos privilegiados ou um trabalho qualquer. Sabemos que não é uma coisa e nem a outra.
2. Aproveitem e parem de explicar a própria obra usando definições externas a ela, em geral cunhadas pela crítica.
3. Críticos: aceitem que o número de autores e lançamentos os impede de acompanhar a produção contemporânea, ao menos de forma a construir teorias unificadoras num artigo de duas laudas.
4. Críticos da crítica: superar as considerações generalizantes sobre os resenhistas de jornal (que seriam superficiais), a academia (“encastelada entre seus muros”) e a internet (que teria igualado as vozes opinativas). Cada crítico é um caso, e quem tem algo a dizer continuará a ser ouvido (só não me perguntem como).
5. Editores, prefaciadores e escrevedores de orelha: sigam o conselho de Nick Hornby e não entreguem metade da trama, de preferência nem 1% dela. Também evitem dizer que a história que temos em mãos é “em última instância, sobre a própria literatura” ou “em última instância, sobre a própria linguagem”.
6. Polemistas: quando confrontados, a não ser que seus familiares e animais domésticos sejam nominalmente referidos, não acusem o adversário de estar levando para o lado pessoal. Admitam que alguém pode achar estúpido o que vocês afirmam — e, no limite, não há forma mais honesta de dizer isso do que usar a palavra “estúpido”.
7. Produtores culturais, professores, bibliotecários: deixem uma pequena parte dos debates em feiras, festivais e eventos literários para a literatura em si, em vez de dedicar 100% de suas intervenções ao problema da educação, às políticas públicas para compras de livros e ao mercado.
8. Conselho do item 7 aplicado a jornalistas: só algumas perguntas a menos, e se isso não der muito trabalho de pesquisa, sobre e-books, blogs, redes sociais e influência da internet na ficção.
9. Pessoal dos itens anteriores que é contra renúncia fiscal no âmbito da literatura: nada contra seus argumentos — até concordo com muitos deles —, mas não deixem de explicar por que a ajuda a um escritor é moralmente diversa de casos que vocês em geral defendem (ou não criticam em público). Exemplos: bolsas para estudantes de letras, principalmente se você se enquadra nessa categoria, e subsídios à imprensa, principalmente se a empresa onde você trabalha tiver feito uso deles no passado (ou, mais provável, ainda faça no presente).
10. Pessoal dos itens anteriores que também é iniciante e/ou tuiteiro: não tentem parecer mais cultos, irônicos, céticos e rigorosos do que são. Contradições e defeitos também têm seu charme, acreditem.
Mao, a bomba, os EUA e Deus
Postado em Aspas, Livros em 12/12/2011 por Michel LaubTrechos de falas de Mao Zedong em Sobre a China, de Henry Kissinger (Objetiva, 556 págs.):
1954 – “O povo chinês não vai se deixar acovardar pela chantagem atômica norte-americana. Nosso país tem uma população de 600 milhões e uma área de 9.600.000 quilômetros quadrados. Os Estados Unidos não podem aniquilar a nação chinesa com sua pequena pilha de bombas atômicas. Mesmo que as bombas (…) fossem tão poderosas que (…) abrissem um buraco até o centro da Terra, ou explodissem o planeta, isso não significaria praticamente nada para o universo como um todo, embora pudesse ser um evento de magnitude para o sistema solar (…). Se os Estados Unidos com seus aviões, mais a bomba atômica, lançarem uma guerra de agressão contra a China, então a China, com seu painço, mais seus fuzis, sem dúvida emergirá vitoriosa.”
1957 – “Não devemos ter medo de bombas e mísseis atômicos. Não importa o tipo de guerra que possa vir – convencional ou termonuclear –, vamos vencer. Quanto à China, se os imperialistas deflagrarem a guerra contra nós, podemos perder mais de 300 milhões. E daí? Guerra é guerra. Os anos vão passar, e vamos trabalhar para produzir mais bebês do que nunca.”
Para Khruschev, em 1958, referindo-se à visita que fez a Moscou em 1949-1950 – “Stalin não quis concluir um tratado de amizade conosco e não quis anular o antigo tratado com o Kuomitang (partido nacionalista chinês que se opunha aos comunistas). Lembro que (…) me transmitiram o conselho [de Stalin] de empreender uma viagem pelo país para dar uma olhada. Mas eu disse a eles, tenho apenas três tarefas: comer, dormir e cagar. Não vim a Moscou só para dar os parabéns a Stalin por seu aniversário.”
Na primeira conversa com Richard Nixon, em 1972, ao comentar que teria votado nele nas eleições presidenciais norte-americanas – “Gosto de direitistas. As pessoas dizem que vocês são direitistas, que o Partido Republicano é de direita (…) Também dizem que o Partido Democrático Cristão da Alemanha Ocidental é de direita. Fico relativamente feliz quando essas pessoas de direita chegam ao poder.”
1973, para Kissinger – “Só porque vocês ficaram atolados no Vietnã e encontraram tantas dificuldades, vocês acham que eles [os soviéticos] iam se sentir bem se ficassem atolados na China? (…) E então vocês podem deixar que se atolem na China, por meio ano, ou um, ou dois, ou três, ou quatro anos. E depois podem cutucar as costas da União Soviética. E seu slogan então será pela paz, de que precisam derrotar o imperialismo socialista em nome da paz. E talvez comecem a ajudá-los a realizar negócios (…). Seu objetivo em fazer isso seria derrubar a União Soviética.”
1975, para Kissinger – “É melhor que (Taiwan) esteja na mão de vocês. E, se fossem me devovê-la, eu não iria querer, porque não é desejável. Há um bando enorme de contrarrevolucionários por lá. Daqui a cem anos nós vamos querê-la (…) e vamos lutar por ela (…). Cinco anos, dez, vinte, cem anos. É difícil dizer. [Aponta para o teto] E quando eu for para o céu me encontrar com Deus, vou dizer a ele que é melhor deixar Taiwan aos cuidados dos Estados Unidos agora (…). Deus abençoou vocês, não nós. Deus não gosta de nós [acena com as mãos] porque eu sou um militante belicoso, e também um comunista (…) [Apontando para os três americanos] Ele gosta de você, de você e de você.”
Ainda em 1975, para o substituto de Nixon, Gerald Ford – “Seu secretário de Estado [Kissinger] andou interferindo em meus assuntos internos (…). Ele não deixa que eu parta e me encontre com Deus. Diz até mesmo para eu desobedecer à ordem que Deus me deu. Deus me enviou um convite, mas ele diz: não vá (…). Ele [Kissinger] é um ateu. Ele se opõe a Deus. E também está estragando minha relação com Deus. É um homem muito feroz e não me resta outra coisa a não ser obedecer suas ordens.”
E, claro, o diálogo – que não está no livro – em que Mao propõe a Kissinger enviar 10 milhões de chinesas para “inundar com desastres” os Estados Unidos: http://migre.me/77jip
Fim de semana
Postado em Cinema, Fim de semana, Livros, Música, Outros em 09/12/2011 por Michel LaubUm disco – Bad as me, Tom Waits.
Um filme – Margin call, J.C.Chandor.
Outro – As canções, Eduardo Coutinho.
Um restaurante – 348.
Outro – Espírito Santo.
Um livro brasileiro – Habitante irreal, Paulo Scott (Alfaguara, 264 págs.).
Outro – Quenga de plástico, Juliana Frank (7 Letras, 68 págs.).
Egopress
Postado em Egopress em 09/12/2011 por Michel Laub1) Já está circulando o número da Revista 18, do Centro de Cultura Judaica, cujo tema é ‘exílios’ e no qual trabalhei como editor-convidado.
2) Sou um dos escritores entrevistados no livro Mercado de pulgas, de Renato Alessandro dos Santos (Download blogs, 269 págs.), que traz textos do www.tertuliaonline.com.br.
Bloqueios e desbloqueios
Postado em Livros em 05/12/2011 por Michel Laub(Publicado no blog da Companhia das Letras):
Há muitos tipos de bloqueio literário. Num ensaio publicado na New Yorker em 2004, Joan Acocella associa a noção moderna do problema ao romantismo do século 19: ali se consolidou a figura do artista atormentado pelas forças caprichosas da inspiração, que a qualquer momento e sem motivo aparente poderia abandoná-lo. Ver na criação um trabalho como qualquer outro, dependente apenas da vontade, passou a ser coisa de escritores superficiais. Desconfiança que dura até hoje, apesar de experiências como a descrita pela neurocientista Alice Flaherty ― uma nova técnica de desbloqueio chamada “Estimulação Magnética Transcraniana” ― ou de sites ― vale uma visita, ao menos para ver a foto ― como o www.unblock.org.
Acocella lista os clássicos do tema, tanto em termos de escrita quanto de publicação: de Coleridge, que chamou a própria paralisia de “terror indefinido e indescritível”, a J.D. Salinger, que passou suas últimas cinco décadas considerando a hipótese de lançar livros novos uma “invasão terrível de privacidade”. Os motivos internos, digamos assim, variam: falta de assunto, ansiedade e drogas, ambição inatingível, pudor associado a pessoas próximas ou a si mesmo. Exemplo constante é o do autor asfixiado pelo sucesso do primeiro ou primeiros livros: Ralph Ellison morreu em 1994 deixando 2 mil páginas inéditas do que seria o sucessor de O homem invisível (1952). Já Harper Lee, que publicou To kill a mockinbird em 1960, disse no ano seguinte estar trabalhando num novo manuscrito ― que ainda pode sair, embora hoje ela esteja com 84.
Deixando de lado razões existenciais, o fato é que a escrita sempre opera contra algum tipo de resistência. O primeiro obstáculo é a linguagem: como vencer as camadas de clichês, fórmulas e ideias genéricas para chegar ao que Paul Valéry, que viveu longos períodos de inatividade, chamava de “natureza da experiência”. No meu caso, dois exemplos diferentes entre si: o tempo em que precisei me desintoxicar do vocabulário e da sintaxe ― formal e mental ― do texto jurídico, com o qual lidei durante anos de faculdade hedonista e advocacia desastrosa, e o tempo ― em vigor até hoje ― em que precisei esquecer do jornalismo a cada vez que tento fazer ficção. Tanto a pompa do direito quanto a objetividade da reportagem são inimigos diretos da literatura: mesmo que se aproveite o jargão legal de forma ilustrativa ou irônica, ou que as técnicas de concisão e edição de texto possam servir para dar ritmo a um romance, no momento em que ambos entram no terreno ficcional alteram sua natureza e obedecem a regras diversas de uso.
Profissões são um capítulo à parte na história do bloqueio. Ou na da gestação de livros ruins, que pode ser outra face do mesmo problema. Um publicitário acostumado a agradar e/ou mentir para vender um produto ou comportamento só poderá ser bom escritor se entender que literatura é o contrário disso. É o velho paradoxo: a ficção mente para dizer a verdade, enquanto o jornalismo, por exemplo, muitas vezes diz uma suposta verdade para no fundo mentir. E haveria muito a dizer sobre desdobramentos práticos do trabalho em determinadas obras: Drummond foi funcionário público numa época em que isso era (ainda) mais tranquilo; Borges foi bibliotecário e (ao que parece) tinha tempo e paz para escrever; Faulkner declarou sobre a época em que foi zelador de bordel: “Para um artista, é o melhor lugar. Tem-se liberdade econômica, um teto e quase nada para fazer, salvo cuidar de umas escriturações simples e ir mensalmente pagar a polícia local”.
De maneira oposta, Raymond Carver considerava o fato de ter tido filhos cedo, e muita dificuldade de sustentá-los com bicos subalternos, a razão por que se especializou no conto, gênero que exige uma dedicação menos contínua que o romance. Para mim, os anos passados em redação e escritório ajudaram no hábito de aproveitar brechas de tempo, em horários de almoço ou truques um tanto engenhosos durante o expediente, para escrever de forma concentrada: como eu nunca sabia quando teria outra chance daquelas, e até que tivesse era bem provável que esquecesse o que queria dizer, passei a dividir histórias longas em capítulos breves, que pudessem ter ao menos um rascunho concluído numa única sessão de trabalho.
As duas soluções, que a partir de gênero e forma acabaram determinando conteúdos diversos ― inclusive na qualidade, claro ―, são vitórias possíveis contra a tendência universal à procrastinação e auto-sabotagem. Em seu melhor e mais divertido livro, Bartleby e companhia, Enrique Vila-Matas usa o personagem de Melville ― outro bloqueado célebre ― e seu bordão “prefiro não fazê-lo” para discorrer sobre escritores reais e imaginários que tiveram a “elegância de se calar”. Cada um lê essa mistura de romance e ensaio de um jeito, mas para mim Vila-Matas está falando de depressão. Ou, num sentido menos médico e restritivo, de esgotamento. Se precisasse resumir num termo o sentimento para onde convergem a maioria das aparentes causas do bloqueio, seria este. Afinal, na definição de Elizabeth Hardwick, e considerando a preguiça, a melancolia e o pânico que podem surgir quando precisamos começar um livro do zero, ou tirar uma coluna da cartola no último dia de prazo: “Escrever é tão duro por ser o único momento da vida em que você tem de pensar”.
Fim de semana
Postado em Cinema, Fim de semana, Livros, Música, Outros em 03/12/2011 por Michel LaubUm livro – Sobre a China, Henry Kissinger (Objetiva, 556 págs.).
Outro livro – Conversas com Scorsese, Richard Schickel (Cosac Naify, 528 págs.).
Um bar em Porto Alegre – D.O.M.
Um disco – Recanto, Gal Costa.
Um filme em DVD – Jogos de poder, Mike Nichols.
Links
Postado em Tweets/links em 27/11/2011 por Michel Laub(@michellaub):
– Boris Fausto sobre a biografia de Salazar: http://migre.me/5ZY3L
– Prédios históricos de SP demolidos no Século 20: http://migre.me/5ZYaG, via @eduardosterzi
– Cartões postais antigos com fotos de lutadores europeus: http://migre.me/5ZYw9
– Imagens coloridas do Japão, anos 1920: http://migre.me/5ZY7J, via@cydlos
– Música brasileira e o conceito de brega: http://migre.me/66mGC
– Aprendizado e ignorância na era da internet: http://migre.me/66n6w, via @cabrapreta
– Moby Dick e Daniele Del Giudice por Almir de Freitas: http://migre.me/66mJK + http://migre.me/66mIV
– Perry Anderson sobre vida e livros de García Márquez e Vargas Llosa: http://migre.me/66mCi
– Wolverine por Rafael Grampá: http://bit.ly/rv2YrM
– Bebês estranhos em pinturas da Renascença: http://migre.me/6djqb
Fim de semana
Postado em Cinema, Fim de semana, Livros, Música, Outros em 25/11/2011 por Michel LaubUma série – Frozen planet, BBC.
Um pastel clássico – Lancheria do Parque, Porto Alegre.
Uma edição – História do cabelo, Alan Pauls (Cosac Naify, 168 págs.)
Outra edição – Asterios Polyp, David Mazzucchelli (Companhia das Letras, 344 págs.).
Mais outra edição – Aquilae non gerunt columbas, Alexandre Rodrigues (Não Editora, 16 págs.).
Um disco remasterizado – Exile on Main St, Rolling Stones.
Um jantar em Paris
Postado em Aspas, Outros em 22/11/2011 por Michel LaubDaniela Pinheiro em reportagem sobre Antônio Carlos de Almeida, o Kakay, advogado que atua em Brasília, na Piauí:
“O grupo queria jantar no restaurante Les Ombres, onde se recomenda fazer reserva com semanas de antecedência. Telefonou-se e confirmou-se que o restaurante estava lotado. Passaram-se dez minutos, Kakay desapareceu brevemente, voltou e comunicou a todos: ‘Temos reservas para as 10 horas no Les Ombres.’ Em seguida, ofereceu o telefone da pessoa que lhe arruma uma mesa a qualquer hora em qualquer restaurante da cidade.
No telhado do Quai Branly, o Les Ombres é uma caixa de vidro que faz com que a Torre Eiffel pareça estar dentro do salão. Kakay prevenira os amigos de que levaria um cliente para o jantar. Era o libanês Samir Traboulsi, que é considerado um dos maiores colecionadores de arte moderna da Europa. Ele também é conselheiro de grandes grupos industriais, sobretudo na área de telefonia móvel (…). Segundo Kakay, Traboulsi lhe apresentara ‘dois bons clientes’ e se mostrara interessado em conhecer alguns empresários brasileiros. ‘Hoje, esse pessoal quer interlocução com as empresas, não com o governo”, disse. ‘Se eu puder, eu apresento, não me custa nada, mas não quero me meter com isso, não.’ Contou que, uma vez, apresentou dois empresários que fecharam um grande negócio. Seu irmão achava que ele deveria ter ganho ‘pelo menos 5 milhões’ pela conexão. ‘Eu não faço’, ele disse. ‘Porque, se apresentando uma pessoa você ganha isso, na terceira vez você está rico. E aí perde o rumo na vida. Eu quero e gosto de advogar.’
Samir Traboulsi reclamou do serviço, do vinho, do restaurante – ‘armadilha para turistas’ – e de ser atendido por um garçom negro. Kakay estava constrangido. Ao longo da conversa, o milionário falou sobre suas casas em Paris, Londres e Monte Carlo, onde ofereceu um jantar para Paulo e Sylvia Maluf anos atrás. Segundo ele, o casal só ficava olhando para o relógio esperando a hora de ir para o cassino, dispensou o Château Lafite que ele havia escolhido e exigiu Château Pétrus. Kakay mencionou-me ter um amigo que só toma Pétrus. ‘Uma vez, jantamos em três e a conta foi de 120 mil reais, acredita?’.”
Egopress
Postado em Egopress em 20/11/2011 por Michel Laub1) Nesta quarta, 23/11, estarei na Vereda Literária, em Porto Alegre, para um debate com Cíntia Moscovich e Juarez Cruz (Palavraria, 19h30).
2) Aqui, depoimento em vídeo que dei para o Itaú Cultural.
Fim de semana
Postado em Cinema, Fim de semana, Livros, Música, Outros em 17/11/2011 por Michel LaubUm restaurante – Chou.
Um documentário em DVD – Cidadão Boilesen, Chaim Litewski.
Um disco – 50 words for snow, Kate Bush.
Um evento – Balada literária.
Um espetáculo na Balada – Sons e furyas.
Uma exposição na Balada – Bel Santana, fotos.
Vila-Matas, ‘O mal de Montano’
Postado em Livros em 15/11/2011 por Michel Laub(Publicado na Folha de S.Paulo, 2005):
A ideia da literatura como doença não é exatamente novidade na ficção. Personagens como Dom Quixote e Ema Bovary têm seus destinos arruinados por enxergarem a vida como uma extensão idealizada do que leram: aventuras de cavalaria, no primeiro caso, e histórias românticas, no segundo. A diferença do protagonista de O Mal de Montano (Cosac Naify, 328 págs.), romance que deu ao catalão Enrique Vila-Matas os prêmios Heralde e Médicis, é a consciência do próprio desvio: crítico que inicia a trama numa viagem de visita ao filho, Rosário Girondo se angustia ao perceber que seus diálogos são citações, seus atos imitam passagens de clássicos e pessoas ao seu redor lembram criaturas como Hamlet e o Conde Drácula. A “intoxicação literária” pauta seu relacionamento com a mulher, Rosa, e o faz ir a lugares como Chile, Açores e Budapeste.
Impossível não ver no enredo um complemento de Bartleby e Companhia, a obra-prima de Vila-Matas sobre escritores que desistiram do ofício. Se esta era uma história sobre a “elegância de se calar”, como o autor já disse em entrevistas, O Mal de Montano também tem como ponto de partida o silêncio. Não só porque traz um personagem em crise por ter publicado um livro semelhante a Bartleby, mas porque o tormento de Girondo é causado por um excesso de vozes. Todas as convenções já foram usadas, todas as fórmulas já foram descobertas, todas as rupturas já foram promovidas no eterno presente da ficção universal. Quem as sussurra são outros escritores, claro, que em sua época viveram os dilemas de uma atividade desde sempre tirânica e ingrata. Por que sacrificar a vida em nome dela? Que sentido ainda faz praticá-la hoje?
Como todo artista que de alguma maneira bebeu nas fontes do pós-modernismo, Vila-Matas prefere a ironia das perguntas à solenidade das respostas. Sua vítima predileta são as supostas leis de certa ficção contemporânea. Brincando com os cacoetes estilísticos do romance, do ensaio, do diário, da enciclopédia e da autobiografia, O Mal de Montano trata de destruí-las uma a uma: os personagens mentem, os fatos se contradizem, as certezas do leitor acabam se revelando falsas. Rosário Girondo não fala apenas de como é difícil ser original: ele demonstra na prática, e a sua narrativa é o maior exemplo, como se tornou fácil criar ilusões com a linguagem.
Contraditoriamente, à medida que o romance se livra do andamento algo maneirista de seu início, essas ilusões ganham encantamento autônomo. Aí está o talento de Vila-Matas: com humor, transformar o que seria um mero estudo sobre os limites da criação artística numa prova de suas possibilidades ainda vivas. Como o próprio Girondo descobre, respirar literatura pode ser um ato de resistência em um mundo cada vez menos literário. Ato que traz dentro de si a cura para quem escreve sob o espectro do conformismo.
Feriado
Postado em Cinema, Fim de semana, Livros, Música, Outros em 10/11/2011 por Michel LaubUm livro – Escuta só, Alex Ross (Companhia das Letras, 424 págs.).
Um texto pessimista sobre internet, autoria, crítica, etc. – Bernardo Carvalho na Piauí.
Um texto + ou – otimista sobre + ou – os mesmos temas – Sérgio Rodrigues no Todoprosa (aqui).
Um disco ok – Keep you close, Deus.
Um filme ok, mas muito longo – A pele que habito, Pedro Almodóvar.
Uma exposição – Olafur Eliasson.
Dostoiévski, Adorno e outros autores cômicos
Postado em Livros em 08/11/2011 por Michel Laub(Publicado no blog da Companhia das Letras):
Numa entrevista à Prospect Magazine, em 2010, Martin Amis lamentou o pouco prestígio dos escritores cômicos, ao menos em relação aos seus colegas sérios. É uma queixa comum entre praticantes do gênero e leitores saudáveis, inclusive por aqui: “A literatura brasileira contemporânea e sua irmã, a crítica (…), parecem ter se esquecido por completo da lição de Machado”, escreveu Sérgio Rodrigues em seu blog. “E — num país basicamente absurdo, o que é mais absurdo ainda — tentam empurrar o humor e a ironia para fora de seus domínios, como se fossem recursos estéticos necessariamente menores.”
Amis arrisca algumas explicações para o fenômeno. Uma é que o humor teria algo de “anti-democrático”: ri-se de alguém ou alguma coisa, o que pressupõe um sentimento de superioridade facilmente relacionado a gênero, classe, etnia ou religião — os tabus, enfim, de uma época asfixiada pelo fetiche da igualdade. Outra é que boa parte dos leitores adultos de hoje foi educada sexualmente com pornografia, a “morte dos sentimentos” cuja característica talvez principal o próprio entrevistado definiu como falta de humor.
A última frase é uma piada, claro, como outras respostas talvez sejam. Nomes como Dostoiévski, Dickens, Tolstói e Flaubert são elogiados por serem “divertidos”, conceito que passaria longe de J.M. Coetzee (“ele não tem talento”) e do “alemão que escreve sem separar parágrafos” (provavelmente Thomas Bernhard, que era holandês/austríaco). Há uma verdade aí, porém: tendemos a achar engraçados — ou prazerosos, outra tradução possível para as palavras de Amis — aqueles textos de que gostamos, mesmo os áridos e trágicos. Tenho um amigo que ri ao comentar os romances de Faulkner. Kafka gargalhava quando lia em voz alta sua obra. Eu mesmo, que não tive uma reação assim com O processo ou O artista da fome, sempre me divirto ao lembrar de seus enredos, ou ao menos da existência do tipo de pessoa capaz de criá-los.
É uma diversão externa ao texto, mas isso é parte da essência da comédia. No recém-traduzido Meus prêmios, de Thomas Bernhard, eu já estava rindo na segunda vez em que apareceu o nome Kleiner Staatspreis no relato O Prêmio Nacional Austríaco de Literatura. Não porque as duas palavras sejam cômicas em si — nenhum leitor desta coluna acha, imagino —, mas porque conheço a obra de Bernhard e pressenti o que aconteceria dali por diante: a repetição delas num ritmo muito particular, num tom que para mim — e sempre ouço a voz do autor ditando o texto que está à minha frente — é o mais debochado possível. Há uma predisposição, uma boa vontade análoga à que temos com piadas contadas por alguém que nos é simpático. E que, se for o caso, se estende a quem nem mesmo está tentando ser engraçado.
Num dos textos de O imitador de vozes, o mesmo Bernhard diz que o segredo do sucesso de um dramaturgo é “escrever tragédias como se fossem comédias, e comédias como se fossem tragédias”. A inversão, outra piada no contexto em que aparece, lembra que nem sempre o humor precisa se anunciar para ser entendido como tal. Eu diria, inclusive, que algumas da vertentes mais nobres do gênero se fundam em situações, discursos e sentimentos que nada parecem ter de humorísticos. Amis considera Tolstói engraçado/divertido por sua “pureza e verdade”. Dá para botar na mesma família — pode-se ler todos a sério ou com alguma ironia — a erudição de Borges, uma certa chatice de Beckett e, bem, o controle e a frieza de J.M. Coetzee.
Talvez haja aí um paralelo com o humor involuntário, que tem menos a ver com seu protagonista/narrador que com o público. Mas diferentemente do humor involuntário tradicional, no qual exercemos nossa condescendência ou sadismo, a diversão de Amis com Dostoiévski, Dickens, Tolstói e Flaubert — ou a de muitos leitores com Kant, Adorno, Evanildo Bechara e vai saber quem mais — tem um sentido generoso. Que homenageia as neuroses, obsessões e idiossincrasias — é delas que rimos, agradecidos — sem as quais acreditamos que um autor nunca escreveria obras tão maravilhosas.
Fim de semana
Postado em Cinema, Fim de semana, Livros, Música, Outros em 04/11/2011 por Michel LaubUma exposição – americanos + Damien Hirst no Ibirapuera.
Um filme brasileiro – O palhaço, Selton Mello.
Um livro brasileiro – Domingos sem deus, Luiz Ruffato (Record, 112 págs.).
Outro livro brasileiro – A passagem tensa dos corpos, Carlos de Brito e Mello (Companhia das Letras, 256 págs.).
Um lugar para almoçar no centro – Theatro Municipal.
Um show – Pearl Jam.
Links
Postado em Tweets/links em 31/10/2011 por Michel Laub(@michellaub)
– Os livros de Miguel Nicolelis e António Damásio, por Marcelo Leite: http://bit.ly/oS7hro
– Andrew Solomon sobre o filho de Gadaffi, Líbia, Afeganistão e EUA: http://migre.me/5Z7lm
– O início de Jonathan Franzen, David Foster Wallace e Jeffrey Eugenides: http://migre.me/5VhVm, via @ranchocarne
– Estradas: http://bit.ly/r1JunU, via @alexandrerodrig
– César Benjamin sobre Descartes: http://bit.ly/oYNa3X
– Mudanças em Higienópolis, SP, de um século para cá: http://bit.ly/nVFYNn
– Natureza em fúria (14 fotos): http://ti.me/qYimAI
– Bernardo Carvalho sobre Tintoretto, arte contemporânea e excesso: http://bit.ly/rbimBu
– Propaganda de comida, roupas e política durante o fascismo italiano: http://tinyurl.com/68odz42
– Fazendeiro que lutou sozinho contra o exército russo e matou 700: http://goo.gl/kQCZW, via @rlevino
– Tatuagens em detentos da África do Sul: http://bit.ly/pvZTKJ, via@thiagoney
Links
Postado em Tweets/links em 31/10/2011 por Michel Laub(@michellaub)
– Harold Bloom fala do novo livro e das próprias influências: http://migre.me/5XiWb, via @eduardonasi
– Retratos dos chefes, famílias e vítimas do crime organizado inglês: http://nyti.ms/nDeVnj + http://bit.ly/13HZcI
– Boxe debaixo d’água: http://bit.ly/psSNwn, via @ricardolombardi
– Sobre o futuro dos frilas: bit.ly/pQMKHC
– Fechamento diário da fronteira Índia/Paquistão: http://bit.ly/cjJ7xY, via @dantelongo
– Como a universidade anda tentando matar a literatura: http://on.wsj.com/o7W6L3, via @sergiotodoprosa
– Moscou nos anos 50/60: http://bit.ly/nfJ2n4
– Sobre doença mental, médicos e indústria farmacêutica: bit.ly/ptXLUj
– Como a memória visual interfere na percepção: http://bit.ly/o3sbsw, via @cabrapreta
– Entrevista com Paulo Leminski, 1982: http://bit.ly/aM0fTs, via @miguelsanchesnt
– Escritores e a dificuldade de achar um bar em Porto Alegre: http://bit.ly/o34sJ8
Fim de semana
Postado em Cinema, Fim de semana, Livros, Música, Outros em 28/10/2011 por Michel LaubUm livro – Meus prêmios, Thomas Bernhard (Companhia das Letras, 111 págs.).
Uma exposição – Nelson Leirner na Fiesp.
Um documentário – Rock Brasília, Vladimir Carvalho.
Um buffet japonês razoável e barato nos Jardins – Sushimasa.
Um disco – Lou Reed e Metallica (desculpem).
Egopress
Postado em Egopress em 27/10/2011 por Michel Laub1) Diário da queda ganhou o Prêmio Bravo/Bradesco de melhor romance. O livro também sairá na Espanha pela Randon House/Mondadori.
2) Um texto meu saiu na antologia O conto brasileiro contemporâneo, organizada por Carmen Villarino Pardo e Luiz Ruffato, que foi publicada (em português) na Galiza. Mais informações e lista completa dos autores: http://migre.me/60yzi
Sinopses animadoras de filmes da Mostra de São Paulo
Postado em Cinema, Listas em 24/10/2011 por Michel LaubTextos do Guia da Folha:
Blowfish (Taiwan, 2011) – A vida pacata de uma tímida ascensorista muda quando ela tem de arranjar um novo lar para seu peixinho de estimação.
A doença do sono (Alemanha/França/Holanda, 2011) – Pesquisador europeu viaja com a mulher para estudar a doença do sono na África. Depois de um tempo, ele não quer mais regressar com a mulher.
Elena (Rússia, 2011) – Vindos de diferentes casamentos e classes sociais, Elena e Vladimir formam um casal mais velho. Quando ele fica doente, ela precisa tomar uma decisão difícil.
Uma família a três (Alemanha, 2011) – Quando uma escritora morre em um acidente de carro, a vida de seu marido e dos dois filhos desaba.
Green (EUA, 2011) – Paranoia e inveja feminina são alguns dos sentimentos que envolvem essa história sobre um triângulo amoroso.
Malditos garotos (Suécia, 2011) – Drama conta as histórias paralelas de três famílias revelando o lado brutal do ser humano.
Margens (França, 2011) – Num dia em Paris, um homem, uma mulher e uma criança compartilham a mesma sensação de isolamento.
Ócio (Argentina, 2010) – A morte da mãe leva dois adolescentes a refletirem sobre suas vidas no apartamento do pai.
Onde a estrada encontra o sol (Cingapura/EUA, 2011) – Após ficar em coma por quatro anos em decorrência de um acidente de carro, um homem tenta se livrar de memórias traumáticas.
O ruído do gelo (França, 2010) – Comédia dramática em que um escritor alcoólatra é visitado pela encarnação do seu câncer, com quem trava discussões.
Fim de semana
Postado em Cinema, Fim de semana, Livros, Música, Outros em 20/10/2011 por Michel LaubUm disco – The whole love, Wilco.
Um documentário em DVD – A ilha de Bergman, Marie Nyreröd.
Uma peça de teatro – Os amigos dos amigos, dir. Cássio Pires.
Um romance – Jerusalém, Gonçalo Tavares (Companhia das Letras, 232 págs.).
Uma exposição – Saul Steinberg na Pinacoteca.
Guerra, literatura e horror
Postado em Livros em 17/10/2011 por Michel Laub(Publicado no blog da Companhia das Letras):
Dois livros lançados há pouco no Brasil permitem retomar uma velha discussão artística. O primeiro é Guerra aérea e literatura (Companhia das Letras, 131 págs.), ensaio em que W.G. Sebald mostra como os escritores alemães falharam ao descrever os bombardeios aliados que derrotaram os nazistas. No segundo, o romance Beatriz e Virgílio (Nova Fronteira, 195 págs.), Yann Martel se propõe a falar do Holocausto por meio não do testemunho ou do realismo, o que muita gente já fez, e sim da alegoria, expediente um pouco mais raro.
A pergunta que surge da leitura de ambos é: num mundo tão cheio de histórias, boa parte feita para chocar, como fazer o leitor experimentar o horror por meio da estética? Sebald aponta o melodrama, a literatice e o misticismo característicos dos registros da destruição de cidades como Berlim e Dresden. Havia razões morais para a retórica escapista — entre elas, o temor de que uma condenação dos ataques fosse confundida com nostalgia do Terceiro Reich —, mas do ponto de vista literário sobrou a constatação de um paradoxo também antigo: para dizer a verdade, um texto precisa mentir. Ou seja, é preciso mediar linguagem e fabulação, usando nuances de ritmo e outros truques técnicos, para fazer o relato parecer o mais acurado e real possível. Um escritor talentoso que nunca esteve em Dresden tem mais chances de evocar o inferno daqueles dias do que alguém que viu tudo, mas não tem vocação para o ofício.
“Mediar linguagem e fabulação” não significa, claro, tornar apenas direta ou brutal a reprodução dos fatos. Martel opta pelo caminho oposto do que talvez apregoe Sebald, e nos melhores momentos de seu romance — a segunda metade já é um tanto convencional — consegue sugerir algo muito sombrio por meio de passagens de superfície leve e solar. Exemplo é o diálogo entre um macaco e uma mula [1], ambos personagens de uma peça de teatro lida pelo protagonista, que gira em torno da descrição de uma pera. O leitor sabe que há um subtexto remetendo a um massacre, mas se angustia ao não perceber como isso se encaixa nas falas. O que dá ao livro tal atmosfera não são os fatos em si, já que todo mundo sabe o que foi o Holocausto e suas consequências na realidade, mas a forma como Martel manipula uma espécie de descoberta ficcional do tema. Num ensaio sobre os efeitos do onze de setembro sobre a arte, Teixeira Coelho vê na ideia estética do mal a sensação de que elementos de uma obra “não deveriam estar ali, mas estão”. É o efeito que Beatriz e Virgílio às vezes causa, apenas trocando-se a definição de mal pela de um certo tipo de horror.
Muita gente resiste ao argumento de que a força de uma obra de arte possa estar além dela mesma — nas circunstâncias biográficas e históricas, por exemplo, que dão autoridade ao autor ou gravidade ao tema. Mas é inegável que nossa opinião depende bastante do que sabemos para além dos limites meramente estéticos. Fotos como as de Jonathan Torgovnik seriam apenas fotos de crianças ruandesas se, informação trazida pelas legendas, suas mães não tivessem sido estupradas durante o genocídio de 1994. Da mesma forma, talvez fosse perturbador ouvir Primo Levi falando alemão, mesmo que suas palavras fossem as mais simples e doces, quando é sabido que ele aprendeu a língua em Auschwitz. Beatriz e Virgílio opera com esse contraste entre forma e circunstância, dados que estão dentro e fora do romance, para alcançar um impacto que nem sempre é ligado ao horror direto do que é dito. Algo que aparece em pelo menos um momento de Guerra aérea: no espanto de Sebald, compartilhado com o leitor, ao receber uma carta discorrendo não sobre os fatos contados em seu livro, incluindo mães que vagavam pelos escombros dos incêndios carregando o cadáver dos filhos em malas, mas sobre a “anteposição do predicado, que ele julgava o principal sintoma do alemão simplório”[2]. Quantos trechos da literatura universal, de forma literal ou alegórica, conseguem ser tão chocantes como esse?
NOTAS
[1] Por coincidência ou não, tanto Guerra aérea quanto Beatriz e Virgílio usam, em algum momento, exemplos do mundo animal. Sebald compara um relato do bombardeio do zoológico de Berlim, que seria o mais simples e pungente sobre a destruição da cidade, com textos frouxos e cheios de clichês — “labaredas ao céu”, “o inferno diante dos nossos olhos” — sobre o drama humano no período. Uma analogia do próprio livro talvez possa explicar o fenômeno: “Não se espera que uma colônia de insetos fique paralisada pelo luto diante da destruição da colônia vizinha. Da natureza humana, no entanto, espera-se certa dose de empatia”. Empatia que, até provem o contrário, é um dos elementos da literatura.
[2] Caso semelhante ao de uma carta na revista Piauí de julho, comentando as memórias de Persio Arida publicadas no número anterior. Talvez se referindo à prisão e tortura do ex-presidente do Banco Central, ou à morte do seu pai, ou ao sentimento de inadequação e até vergonha que ele carregou por muitos anos em função do que sofreu, tudo misturado num texto comovente por sua honestidade e coragem, o leitor em questão ensina: “Tucano não sabe onde fica o crematório da Vila Alpina! Não é Zona Norte, é Leste (…). Esses tucanos não sabem o que é periferia.”
Egopress + ausência
Postado em Egopress em 24/08/2011 por Michel Laub1) O blog volta a ser atualizado em outubro. Mas continuo no twitter (@michellaub).
2) Agenda para as próximas semanas: Festival do Recife (26/8, 17h, mesa com Talles Colatino); Bienal do Rio (4/9, 14h, com Gonçalo Tavares e Carola Saavedra); Encontros de Interrogação do Itaú, São Paulo (8/9, 20h, com Ivana Arruda Leite, Maria Esther Maciel e Regina Dalcastagnè); Feira do Sesc/Curitiba (14/9, com Mariana Ianelli).
3) Também em Curitiba, na Biblioteca Pública do Paraná, dou uma oficina de ficção nos dias 12, 13 e 15 de setembro.
Links
Postado em Tweets/links em 23/08/2011 por Michel Laub– Quartos de criança pelo mundo (27 fotos): http://t.co/sX5jine
– Carta de Thomas Pynchon defendendo Ian McEwan de uma acusação de plágio: http://t.co/IcRQxUZ, via @cydlos
– Mario Sérgio Conti sobre como foi criar uma filha em Paris: http://t.co/pU8vhiG
– Cervantes, Diderot e pornografia na internet, por Caco Galhardo: http://t.co/mwvlwor
– João Ubaldo fala a Francisco Bosco sobre a Ilíada: http://t.co/AyNJQFM
– Esculturas submersas: http://t.co/20v004l, via @rbressane, @zorzanelli
– 30 anos de imagens da Alemanha Oriental: ti.me/r4qZfA
– Christopher Hitchens sobre a Inglaterra e a violência: http://t.co/GelXhG3, via @rlevino
– Tronos, poleiros de ouro, espaço para camelos: como são decorados os jatinhos. http://t.co/fHYSeqF
– Faulkner sobre hóquei, EUA e o declínio dos esportes ao ar livre: http://t.co/opwnAki, via @ricardolombardi
– Documentário sobre jardineiro de SC que fez pacto com o espírito de um pirata: http://t.co/6lcM57z, via @dgdgd
‘No país dos homens’, de Hisham Matar
Postado em Livros em 22/08/2011 por Michel Laub(Publicado na Folha de S.Paulo, 2007):
Histórias contadas por crianças em meio à guerra ou à opressão política costumam render por vários motivos. O principal é a contraposição entre pureza e brutalidade, recurso em geral obtido por meio de uma voz calculadamente ingênua, cujas lacunas acentuam um horror nunca explícito e, por isso mesmo, ainda mais presente. O equilíbrio não é sempre fácil, e é no caminho para consegui-lo que estão os méritos e defeitos de No País dos Homens (Companhia das Letras, 264 págs.), romance de estréia do americano de descendência líbia Hisham Matar.
O livro é narrado por Sulemein, um garoto de 9 anos, e o pano de fundo é a ditadura de Muammar Gaddafi. No verão de 1979, o pai do protagonista se envolve com um grupo de intelectuais de oposição e acaba preso. Com ingredientes autobiográficos, já que o pai de Hisham Matar passou por experiência semelhante, No país dos homens acompanha o processo de amadurecimento de Sulemein, dividido entre brincadeiras típicas da idade e sentimentos conflituosos relativos à tragédia familiar.
O principal problema da trama é que esse amadurecimento não se dá de modo contínuo e crescente, como seria praxe num romance de formação. A voz de Sulemein oscila demais entre uma extrema ingenuidade e uma consciência às vezes exagerada. Em certas passagens ele demonstra não entender, por exemplo, o porquê de os amigos de seu pai estarem sendo perseguidos; em outras, reproduz com exatidão diálogos em que adultos explicam em detalhes a situação da Líbia. Como o romance é narrado do futuro, como uma memória distante de infância, é difícil acreditar que o personagem lembrasse de todas aquelas palavras, com a conseqüente profundidade de seus raciocínios, e ao mesmo tempo não soubesse na época o que elas significavam.
À medida que a história avança, porém, fica claro que o propósito do autor não é apenas a denúncia da repressão ditatorial sob o filtro da doçura infantil. Ao tratar da relação com a mãe problemática, com o melhor amigo, com um mendigo da vizinhança e com um agente fantasmagórico do governo, a fala de Suleiman deixa de ser a de uma vítima passiva, que apenas assistiu a eventos terríveis, e se torna o registro de um indivíduo em transformação, rumo a algo que não sabe bem o que é, processo muito mais ambíguo e rico do que sugere a mera alegoria política.
Ou seja, Hisham Matar escapa do modelo a que seu romance parece se filiar – e no qual teria certa debilidade, por causa do problema de tom – para dar a ele uma dimensão mais original, para além do espaço e do tempo em que está situado. O horror de No País dos Homens não é só o da Líbia em 1979, mas também o que cada um é capaz de infligir aos outros e a si mesmo ao se tornar adulto. Para Sulemein, isso significa deixar de acreditar que “o inocente não tem motivo para ter medo”. Até porque ninguém é inocente, e todos agora parecem ter medo disso.
Fim de semana
Postado em Cinema, Fim de semana, Livros, Música, Outros em 18/08/2011 por Michel LaubUm filme – A árvore da vida, Terrence Malick.
Uma exposição – Steve Klein no MuBE.
Um disco – In your dreams, Stevie Nicks.
Outro disco – Slave ambient, War on drugs.
Uma peça – 45 minutos, dir. Roberto Alvim.
Um livro – Jakob von Gunten, Robert Walser (Companhia das Letras, 148 pás.).
Amizade, mentiras, etc.
Postado em Livros em 16/08/2011 por Michel Laub(Publicado no blog da Companhia das Letras):
Ao contrário do que diz o senso comum, tudo o que o escritor quer é gostar dos livros de seus colegas. Frase a frase, parágrafo a parágrafo ele torce para que o texto lhe fale algo, para que não precise experimentar a sensação corrosiva de vergonha ao fazer um elogio hipócrita no bar. Claro que esse ainda é o melhor dos cenários — pior é mandar um email e deixar a mentira registrada para sempre no éter virtual, quando não na quarta capa do livro seguinte do amigo.
Conhecer o autor pessoalmente pode ser uma vantagem ou um problema. Vantagem porque é impossível separar o afeto que se tem pela pessoa da apreciação daquilo que ela escreve. Afinal, livros quase sempre são uma extensão do que somos: o encadeamento do texto imita o jeito como se pensa ou fala, as ideias são análogas às de quem as expõe, a prosa é indissociável de qualidades pessoais como o ouvido, o carisma e o humor. Por outro lado, estamos acostumados aos defeitos e fraquezas dos nossos amigos, e é difícil não notar as eventuais tentativas deles de parecerem mais inteligentes e charmosos do que são.
A questão se estende à boa ou má vontade que temos com um texto, o que muitas vezes é decisivo no veredicto sobre ele. Já ouvi um escritor dizer que um colega seria incapaz de escrever sobre o mundo contemporâneo porque tem mau gosto musical ou algo assim. Por trás do exagero ou chiste, é o tipo de avaliação que poderíamos fazer sobre alguém com pouca experiência, ou cuja conversa é enfadonha e banal. Há grandes autores que em sua vida eram a própria encarnação da banalidade, mas com quem lidamos no dia-a-dia a pergunta nunca deixa de ser: o que este cara tem para dizer que valha o meu tempo?
A história da literatura é cheia de avaliações curiosas de escritores em relação aos pares, próximos ou não. Muitas são causadas por inveja e mesquinharia — no Brasil não tem nada disso, sabemos —, mas também é fato que tal proximidade distorce o juízo. Para um lado e para o outro: gosto de encontrar piadas internas nos livros dos meus amigos, e digamos que haja dez delas num romance de 100 páginas. Apesar dos dez momentos de humor numa história bastante curta, o que sobe consideravelmente a sua cotação, eu poderia garantir por aí que se trata de uma história engraçada? Dá para ampliar o exemplo óbvio da piada interna e dizer o mesmo das referências — geográficas, culturais, sentimentais — que, sendo as mesmas para mim e para o autor, o que inclusive bagunça o jogo sempre divertido entre ficção e biografia, fazem com que minha relação com seu trabalho nunca seja a de um leitor comum.
No fundo, é uma contradição: alguns dos meus melhores amigos são ficcionistas, e muito da afinidade que temos vem justamente disso — porque enfrentamos problemas semelhantes, porque temos hábitos parecidos, porque em vários aspectos nossa trajetória teve e tem muitos pontos em comum. Ao mesmo tempo, o objeto e resultado dessa afinidade nunca será 100% visível. É preciso que seja, já que toda apreciação estética é necessariamente subjetiva? Do ponto de vista da moral pública, vamos chamar assim, com muitos escritores exercendo a crítica e fazendo resenhas dos colegas, seria melhor que sim. Mas do ponto de vista da amizade, talvez seja o contrário: melhor é acreditar, o que não é nada difícil dependendo do caso, que seus amigos são brilhantes e foi sorte sua ser aceito como igual por eles.
Egopress
Postado em Egopress em 15/08/2011 por Michel Laub1) Diário da queda é um dos finalistas do prêmio Zaffari & Bourbon, da Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo. Aqui, a lista dos concorrentes.
2) Está nas bancas o número da revista Personnalité, do Itaú Personnalité. que ajudei a editar.
Fim de semana
Postado em Cinema, Fim de semana, Livros, Outros em 12/08/2011 por Michel LaubUm filme – Melancolia, Lars von Trier.
Um livro – Beatriz e virgílio, Yann Martel (Rocco, 197 págs.)
Uma edição – Lolita, Vladimir Nabokov, com prefácio de Martin Amis (Alfaguara, 392 págs.).
Um filé ao alho e óleo + cebola frita em Porto Alegre – Santo Antônio.
Uma exposição – Glauco Rodrigues, Caixa Cultural Paulista.
Links
Postado em Tweets/links em 07/08/2011 por Michel Laub(@michellaub):
– Scott Fitzgerald e o alcoolismo: http://bit.ly/nm6NdK
– Americanos e a partida da Apollo 11: http://nyti.ms/yRq8O
– Joyce Carol Oates sobre escrever, caminhar e correr: http://nyti.ms/bxmWr
– Kurt Vonnegut sobre oficinas literárias: http://bit.ly/r50ZMF
– Galeria de arte sinistra: http://bit.ly/nAFHm4 , via @lordass
– Um doente de Alzheimer e sua família: http://ti.me/nmKQE2
– Uma casa com piscina na sala: http://bit.ly/lRhUcj
– Shakespeare na voz de um imitador de celebridades: http://bit.ly/owsb3D, via @ricardolombardi
– Invasão da Polônia e outras imagens de 1939: http://bit.ly/lJPfeW
– Chicago em fotos de Stanley Kubrick: http://bit.ly/gdQZjj , via @alexandrerodrig
– Entrevista com Martin Parr: http://urbout.co/k1NIvx
– Uma noite em São Paulo com Kurt Cobain e Courtney Love: http://tinyurl.com/3g5accb
Fim de semana
Postado em Cinema, Fim de semana, Livros, Música em 05/08/2011 por Michel LaubUm documentário – Filhos de João, Henrique Dantas
Outro documentário – Dzi croquetes, Tatiana Issa e Raphael Alvarez.
Uma exposição no Tomie Ohtake – Fotos da coleção da Telefônica.
Outra exposição no Tomie Ohtake – Louise Bourgeois.
Uma entrevista – J.G. Ballard na Paris Review (aqui).
Uma jukebox – Bar Bahia.
Stálin, um fuzilamento e uma lição de matemática
Postado em Aspas, Livros em 03/08/2011 por Michel LaubOutro trecho de Stálin: a corte do czar vermelho (ver post anterior):
“Em abril de 1937, a dra. Bronka Poskrióbicheva, a linda esposa de 27 anos do chefe de gabinete, telefonou a Stálin e pediu para encontrar-se com ele sozinha em Kuntsevo, aonde foi com seu melhor vestido (…). O marido não sabia de nada (…). Ela foi pedir a libertação de seu irmão Metálikov, o medico do Kremlin, que tinha um parentesco indireto com Trotski por meio de sua esposa (…). Stálin odiava as mlheres que imploravam por parentes, ainda que uma das tragédias da vida soviética de então fosse que as mulheres imploravam aos potentados pela vida de seus entes queridos, oferecendo tudo o que podiam, inclusive o corpo. A missão de Bronca fracassou (…) e ela ficou com medo de ser posta no mesmo saco dos trotskistas.
Antes de sua promoção para Moscou, Béria havia apalpado Bronka em Kuntsevo e ela lhe dera um tapa. ‘Não esquecerei isso’, disse ele. Mas Bronka não desistiu. A 27 de abril de 1939, telefonou a Béria e perguntou se poderia vê-lo para discutir o caso de seu irmão. Nunca mais foi vista.
Poskríobichev esperou até a meia-noite, então telefonou para a casa de Béria, que revelou que ela estava sob custódia, mas não discutiria o assunto. Pela manhã, sem ter dormido nada, Poskríobichev queixou-se a Stálin, que disse: ‘Não depende de mim. Não posso fazer nada. Somente o NKVD pode resolver’ (…). Stálin telefonou para Béria, que o lembrou das conexões trotskistas de Bronka. Os três se encontraram, provavelmente por volta de meia-noite de 3 de maio, quando Béria apresentou uma confissão que implicava Bronka. Poskríobichev implorou a Stálin para soltá-la, usando o argumento menos bolchevique (…): ‘O que vou fazer com minhas filhas? O que acontecerá com elas?’ (…)
‘Não se preocupe, acharemos outra mulher para você’, teria supostamente respondido Stálin. Isso era típico (…) do homem que ameaçara Krupskaia de que, se ela não obedecesse ao Partido, eles nomeariam outra pessoa para viúva de Lênin. Pelos padrões da época, Poskríobichev fez um estardalhaço, mas não podia fazer mais. Dois anos depois, quando os alemães se aproximavam de Moscou, Bronka foi fuzilada, aos 31 anos.
Disseram a sua filha Natália que ela tivera morte natural. Poskríobichev criou as filhas sozinho, com dedicação amorosa. Mantinha fotografias de Bronka por toda a casa. Quando Natália apontava para uma delas e dizia ‘mamãe’, seus olhos se enchiam de lágrimas e ele saía correndo da sala (…) Natália só [descobriu] que sua mãe foi fuzilada na escola, quando a filha do cantor Koslovski lhe contou. Ela soluçou no banheiro. Poskríobichev casou de novo.
A destruição de Bronka não afetou a relação dele com Stálin ou Béria: o Partido era justo. Stálin assumiu um interesse solícito pela filha de Bronka: ‘Como está Natacha?’, perguntava com frequência ao chefe de gabinete. ‘Está gorducha e doce?’ Anos depois, quando não estava conseguindo fazer a lição de casa, ela telefonou ao pai para pedir ajuda. Outra pessoa atendeu.
‘Posso falar com meu pai?’, perguntou ela.
‘Ele não está’, respondeu Stálin. ‘Qual é o problema?’ E ele resolveu as questões de matemática para ela.”
Stálin e a notícia da invasão alemã, 1941
Postado em Aspas, Livros em 03/08/2011 por Michel LaubTrecho de Stálin: a corte do czar vermelho, de Simon Sebag Montefiore (Companhia das Letras, 860 págs., tradução de Pedro Maia Soares):
“Stálin retirara-se para seu quarto quando Júkov telefonou para Kuntsevo.
‘Quem é?’, respondeu a voz sonolenta do general NKGB.
‘Júkov, chefe do Estado-Maior. Por favor, chame o camarada Stálin. É urgente!’
‘O quê? Agora? O camarada Stálin está dormindo.’
‘Acorde-o imediatamente’, disse Júkov ao oficial de plantão. ‘Os alemães estão bombardeando nossas cidades.’
Houve um silêncio. Júkov esperou pelo que parecia uma eternidade. Ele não era o único que estava tentando relatar a invasão a Stálin, mas os generais continuavam tão petrificados diante do próprio líder quanto dos alemães. Às 4h17 da manhã (horário russo), o comando do mar Negro telefonou a Júkov no Comissariado de Defesa para relatar um enxame de bombardeiros. Às 4h30, a frente ocidental estava na linha, às 4h40, o Báltico estava sob ataque. Por volta da mesma hora, o almirante Kuznietsov recebeu uma ligação de seu comandante em Sebastopol: o bombardeio alemão começara. Kuznietsov telefonou imediatamente para o Kremlin (…). Era para ser um segredo que Stálin morava em Kuntsevo, então o oficial respondeu: ‘O camarada Stálin não está aqui e não sei onde ele está’.
‘Tenho uma mensagem de extrema importância que devo transmitir com a máxima urgência ao camarada Stálin pessoalmente.’
‘Não posso ajudá-lo de forma alguma’, retrucou o oficial, e desligou. Kuznietsov ligou então para Timochenko, que, inundado por telefonemas, estava com medo de informar Stálin. Kuznietsov tentou todos os números de Stálin que possuía, mas sem sucesso, telefonou ao Kremlin de novo.
‘Solicito que informe ao camarada Stálin que aviões alemães estão bombardeando Sebastopol. É a guerra!’
‘Informarei à pessoa apropriada’. Alguns minutos depois, o almirante descobriu quem era essa ‘pessoa apropriada’: o fraco e de fala mansa Melenkov telefonou-lhe, perguntando com ‘voz insatisfeita e irritada’: ‘Você percebe o que está relatando?’ (…). Malenkov desligou e telefonou para Sebastopol a fim de conferir a história.
Timochenko não estava sozinho em seu gabinete. Mekhlis, ‘O Tubarão’, passou a noite ao lado dos generais. Tal como Malenkov, estava convencido de que não haveria invasão naquela noite. Quando o chefe de Artilharia antiaérea Vóronov chegou correndo, Timochenko estava tão nervoso que lhe deu uma caderneta e, de modo absurdo, ‘mandou que eu apresentasse meu relatório por escrito’, pois, se todos fossem presos por traição, ele seria responsável por seus crimes. Mekhlis ficou atrás dele e espiou por sobre seus ombros para verificar se estava escrevendo exatamente o que dissera. Depois obrigou-o a assinar o papel. Timochenko ordenou que as forças antiaéreas não reagissem; Vóronov percebeu que ‘ele não acreditava que a guerra havia começado’.
Tomochenko recebeu um telefonema do comandante-adjunto do Distrito Militar Especial Ocidental, Boldin, contando que os alemães estavam avançando. Timochenko mandou que não reagisse.
‘Como assim?’, gritou Boldin. ‘Nossas tropas estão recuando, as cidades estão em chamas, as pessoas estão morrendo…’
‘Ióssif Vissariónovitch acha que isso pode ser uma provocação de alguns generais alemães’. O instinto de Timochenko lhe dizia para persuadir outra pessoa a dar a notícia a Stálin. Perguntou a Budiony: ‘Os alemães estão bombardeando Sebastopol. Devo contar a Stálin ou não?’.
‘Informe-o imediatamente!’
‘Telefone para ele’, suplicou Timochenko. ‘Tenho medo.’
‘Não, você telefona’, retrucou Budiony. ‘Você é o comissário da Defesa!’ Por fim, Budiony concordou e começou a ligar para Kuntsevo. Timochenko, ansioso por dividir as responsabilidades, ordenou que Júkov também telefonasse para Stálin.”
Updike, Foster Wallace e estilo
Postado em Aspas, Livros em 01/08/2011 por Michel LaubTrecho de Como funciona a ficção, de James Wood (Cosac Naify, 228 págs., tradução de Denise Bottmann):
“É instrutivo ver bons escritores cometendo erros (…). Vejam John Updike no romance Terrorista. Na terceira página do livro, ele apresenta o protagonista, Ahmad, um fervoroso muçulmano de dezoito anos (…). As primeiras linhas são bastante corriqueiras. E então Updike quer tornar o pensamento teológico e faz uma transição canhestra: ‘Ele não vai crescer mais do que isso, pensa Ahmad, nesta vida nem na outra. Se houver uma outra, um demônio interior murmura’. Parece muito improvável que um estudante refletindo sobre o quanto cresceu no último ano pense: ‘Não vou crescer mais, nesta vida nem na outra’. As palavras ‘nem na outra’ estão ali só para dar a Updike a oportunidade de discorrer sobre a ideia islâmica do paraíso. Estamos apenas na quarta página, mas qualquer tentativa de acompanhar a voz de Ahmad já ficou de lado: o fraseio, a sintaxe e o lirismo são de Updike (…). A penúltima linha é expressiva: ‘Em que Deus, conforme a nona sura do alcorão, eternamente se regojiza’ [grifo de Wood ]. (…) Updike não tem certeza de querer entrar na mente de Ahmad e, sobretudo, de nos fazer entrar na mente de Ahmad, por isso finca suas grandes bandeiras de autor em toda a área mental do personagem. E por isso precisa identificar a sura exata que menciona Deus, pois, se fosse Ahmad, ele saberia (…) e não precisaria se lembrar dela.
(…)
“Um escritor contemporâneo como David Foster Wallace (…) escreve sobre e de dentro dos personagens, e assim procede para explorar questões de linguagem mais gerais e abstratas (…). [Num] trecho do conto The suffering channel ele evoca o jargão emprobrecido da mídia de Manhatatan (…) A linguagem da narração (…) de Wallace é pavorosamente feia e dói por páginas a fio. Tchekhov (…) não [tinha] esse problema porque não enfrentava a saturação imposta à linguagem pelos meios de comunicação de massa. Mas, nos Estados Unidos, as coisas são diferentes: Dreiser em Sister Carie (publicado em 1900) e Sinclar Lewis em Babbit (1922) têm o cuidado de reproduzir na íntegra os anúncios, as cartas comerciais e os folhetos de divulgação que querem tratar literariamente.
Assim se inicia a perigosa tautologia inerente ao projeto literário contemporâneo: para evocar uma linguagem degradada (a linguagem degradada que o personagem usaria), teríamos de nos dispor a apresentar essa linguagem mutilada no texto, e talvez degradar inteiramente nossa própria linguagem. Pynchon, DeLillo, David Foster Wallace são, em certa medida, herdeiros de Lewis (provavelmente apenas neste aspecto), e Wallace leva seu método de imersão total aos extremos da paródia (…). Auden apresenta bem o problema geral no poema The novelist (…): o poeta pode arremeter como um hussardo, mas o romancista precisa ir mais devagar, precisa aprender a ser ‘comum e desajeitado’ e tem de ‘se tornar a plenitude do tédio’. Em outras palavras, a tarefa do romancista é encarnar, tornar-se aquilo que ele descreve, mesmo quando o assunto em si é baixo, vulgar, tedioso. David Foster Wallace é muito bom em encarnar a plenitude do tédio.
(…)
Assim, existe uma tensão fundamental nos contos e romances: podemos reconciliar as percepções e a linguagem do personagem? Quando o autor e o personagem estão integralmente fundidos, como na passagem de Wallace, temos, por assim dizer, ‘a plenitude do tédio’ – a linguagem corrompida do autor apenas mimetiza uma linguagem corrompida que existe na realidade, que todos nós conhecemos até demais e da qual queremos desesperadamente fugir. Mas, se o autor e o personagem ficam muito distantes, como na passagem de Updike, sentimos o hálito frio de um afastamento atravessar o texto, e começamos a nos incomodar com os esforços ‘super literários’ do estilista. Updike é um exemplo de esteticismo (o autor se intromete); Wallace é um exemplo de aparente antiesteticismo (o personagem é tudo); mas ambos, na verdade, são espécimes do mesmo esteticismo, que no fundo é a exibição forçada de estilo.”
Fim de semana
Postado em Cinema, Fim de semana, Livros, Música, Outros em 29/07/2011 por Michel LaubUm disco – The king is dead, Decemberists.
Um filme – Barney’s version, Richard J. Lewis.
Um filme fraquinho – Saturno em oposição, Ferzan Ospetek.
Uma peça ok – Pterodátilos, dir. Felipe Hirsch.
Um steak au poivre – Papillon.
Um cupim com Serra Malte – Sachinha.
Uma edição – A outra volta do parafuso, Henry James (Penguin/Companhia, 200 págs.).
Seis propostas para o romance – por Ana Paula Maia
Postado em Enquetes, Livros, Mundo ideal em 26/07/2011 por Michel Laub(Autora de Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos e do recém-lançado Carvão animal):
1. Esteja seguro do que está escrevendo.
2. Evite personagens em crise existencial e que resmunguem demais.
3. Conclua cada capítulo com esmero.
4. Acredite em seus personagens para que eles tenham vida.
5. Fuja da trivialidade.
6. O autor pode ser desinteressante, mas o texto não. Respeite o leitor.