Feliz 2010

Postado em Egopress em 22/11/2009 por Michel Laub

O blog volta a ser atualizado em fevereiro.

Melhores da década – cinema

Postado em Cinema, Dicas, Listas em 18/11/2009 por Michel Laub

(considerando estreias no Brasil a partir de 2000 e incluindo todos os gêneros):

Trinta filmes de língua inglesa – A história real (David Lynch); Paranoid Park (Gus Van Sant); Encontros e desencontros (Sofia Coppola); Onde os fracos não têm vez (irmãos Coen); Procurando Nemo (Andrew Stanton); Soldado anônimo (Sam Mendes); O mundo de Andy (Milos Forman); Mestre dos mares (Peter Weir); Viagem a Darjeeling (Wes Anderson); Anti-herói americano (Shari Springer Berman e Robert Pulcini); No direction home (Martin Scorsese); O agente da estação (Thomas McCarthy); A lula e a baleia (Noah Baumbach); Magnólia (Paul Thomas Anderson); Igby goes down (Burr Steers); O sol de cada manhã (Gore Verbinski); O lutador (Darren Aronofsky); Os garotos da minha vida (Penny Marshall); Na captura dos Friedman (Andrew Jarecky); Spider (David Cronenberg); Clube da luta (David Fincher); Psicopata americano (Mary Harron); Brokeback Mountain (Ang Lee); Menina de ouro (Clint Eastwood); Shrek (Andrew Adamson e Vicky Jenson); Miami Vice (Michael Mann); Bamboozled (Spike Lee); Um bom ano (Ridley Scott); Sideways (Alexander Payne); Igual a tudo na vida (Woody Allen); Snatch (Guy Ritchie); A festa nunca termina (Michael Winterbotton).

Vinte filmes europeus/asiáticos/latinos – Fale com ela (Pedro Almodóvar); Dogville (Lars Von Trier); A menina santa (Lucrecia Martel); Segunda-feira ao sol (Fernando León de Aranoa); Leis de família (Daniel Burman); Whisky (Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll); O samurai do entardecer (Yôji Yamada); O filho da noiva (Juan José Campanella); Persépolis (Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud); Entre os muros da escola (Laurent Cantet); Amor à flor da pele (Wong Kar-Wai); O sol (Aleksandr Sokúrov); O gosto dos outros (Agnes Jaoui);Partículas elementares (Oskar Roehler); As coisas simples da vida (Edward Yang); Verão feliz (Takeshi Kitano); A queda (Oliver Hirschbiegel); Plata queimada (Marcelo Piñeyro); Caché (Michael Haneke); A vida dos outros (Florian Donnersmarck).

Dez filmes brasileiros – Cidade de deus (Fernando Meirelles); Cinema, aspirinas e urubus (Marcelo Gomes); Santo forte (Eduardo Coutinho); Santiago (João Moreira Salles); Tropa de elite (José Padilha); Cronicamente inviável (Sérgio Bianchi); Lavoura Arcaica (Luiz Fernando Carvalho); Madame Satã (Karim Aïnouz); O cheiro do ralo (Heitor Dahlia); Separações (Domingos de oliveira).

Melhores da década – música

Postado em Dicas, Listas, Música em 17/11/2009 por Michel Laub

(ênfase em pop/rock, com exceções e uma recaída no reggaeton):

Quinze shows em SP – Radiohead (Chácara do Jockey); Bob Dylan (Via Funchal); Arctic Monkeys (Anhembi); White Stripes (Credicard Hall ); Brad Mehldau (auditório do Ibirapuera); Wynton Marsalis e convidados (garagem na Vila Madalena); Sonic Youth (Playcenter); Pearl Jam (Pacaembu); Arcade Fire (Anhembi); R.E.M. (Via Funchal); Primal Scream (Jockey); Belle & Sebastian (Jockey); PJ Harvey (Jockey); Morrissey (Olympia); Placebo (Credicard Hall, primeira turnê).

Quinze discos No more shall we part (Nick Cave & the bad seeds); Sound of silver (LCD Soundsystem); Beautiful future (Primal Scream); Peace love and death metal (Eagles of death metal); Back to black (Amy Winehouse); Wathever people say I am, that’s what I am not (Arctic Monkeys); In rainbows (Radiohead); Stories from the city, stories from the sea (PJ Harvey); Replica sun machine (The shortwave set); Clap Your Hands Say Yeah (Clap Your Hands Say Yeah); Baby 81 (Black Rebel Motorcycle Club); Is this it? (Strokes); Uma tarde na fruteira (Júpiter Maçã); Funeral (Arcade Fire); 5:55 (Charlotte Gainsbourg).

Quinze músicas (dos discos acima)All my friends (LCD Soundsystem); Beautiful future (Primal Scream); Miss Alissa (Eagles of Death Metal); Love letter (Nick Cave); From the Ritz to the rubble (Arctic Monkeys); Is this it? (Strokes); Weird fishes/arpeggi (Radiohead); Rehab (Amy Winehouse); Beatle George (Júpiter Maçã); Glitches’n’bugs (The shortwave set); Berlin (Black Rebel Motorcycle Club); In this home on ice (Clap Your Hands Say Yeah); Wake up (Arcade Fire); Good fortune (PJ Harvey); The songs that we sing (Charlotte Gainsbourg).

Vinte e cinco músicas (de outros discos)Time to pretend (MGMT); Daft punk is playing in my house (LCD Soundsystem); Mr.Brightside (Killers); Solid gold (Eagles of Death Metal); 2+2=5 (Radiohead); White winter Hymnal (Fleet Foxes); Hey Lloyd, I’m ready to be heartbroken (Camera Obscura); Great DJ (Ting Tings); Oh Vanity! (Charlatans); Molly’s Chambers (Kings of Leon); Digital lover (Daft Punk); She has no time (Keane); Paper planes (M.I.A.); What’s a girl to do (Bat for Lashes); Free city rhymes (Sonic Youth); Fake empire (The National); Love today (Mika); Crazy (Gnarls Barkley); Mississippi (Bob Dylan); Terrible angels (CocoRosie); Ten million slaves (Otis Taylor); De volta à cena (Racionais MC’s); Sénegal fast food (Amadou et Mariam); Frank Sinatra (Miss Kittin); No hay nadie como tu (Calle 13/Café Tacuba).

Melhores da década – teatro e exposições

Postado em Dicas, Listas, Outros em 17/11/2009 por Michel Laub

Dez peças brasileiras em SP (entre as não tantas que vi) – O livro de Jó (segunda montagem, dir. Antônio Araújo); O púcaro búlgaro (dir. Aderbal Freire-Filho); Medéia (dir. Antunes Filho); O quarto (dir. Roberto Alvim); Ludwig e suas irmãs (dir. Maurício Paroni); A educação sentimental do vampiro (dir. Filipe Hirsch); Biderman e os incendiários (dir. Georgette Fadel); Regurgitofagia (dir. Michel Melamed); Satyros som e fúria (André Sant’Anna, Vanessa Bumagny e outros); O natimorto (dir. Mario Bortolotto).

Dez exposições em SP (entre as que lembro) – Mostra do descobrimento (Ibirapuera); Bigger splash – Tate Gallery (Oca); Parade – Pompidou (Oca); 500 anos de arte russa (Oca); De Picasso a Barceló (Pinacoteca); Renoir (MASP); Expressionismo alemão (MAM); Marc Ferrez (Sesi/IMS); Iberê Camargo (Pinacoteca); Arthur Bispo do Rosário (CCBB).

Melhores da década – livros

Postado em Dicas, Listas, Livros em 16/11/2009 por Michel Laub

(com primeira edição no Brasil entre 2000 e 2009; exclui clássicos e semi-clássicos originalmente publicados muito antes desse período; exclui livros de não-ficção dos quais só li uma parte, ou bons mais pelas ideias que pelo texto):

Quinze livros (ficção estrangeira) – Desonra (J.M. Coetzee); Extinção (Thomas Bernhard); A marca humana (Philip Roth); Homem comum (Philip Roth); A vida dos animais (J.M. Coetzee); Bartleby e companhia (Enrique Vila-Matas); Breves entrevistas com homens hediondos (David Foster Wallace); Na praia (Ian McEwan); Austerlitz (W.G. Sebald); Quando a sombra descola do chão (Daniele Del Giudice); O passado (Alan Pauls); A história do amor (Nicole Krauss); Ravelstein (Saul Bellow); Noturno no Chile (Roberto Bolaño); Sobre Schmidt (Louis Begley).

Quinze livros de não-ficção O demônio do meio dia (Andrew Solomon); Origem (Thomas Bernhard); As ilusões armadas (Elio Gaspari, em quatro volumes); Laertevisão (Laerte); O homem que comeu de tudo (Jeffrey Steingerten); Fun home (Alison Bechdel); O vulto das torres (Lawrence Wright); Queda livre (Otavio Frias Filho); Crônicas, vol. 1 (Bob Dylan); Como falar dos livros que não lemos (Pierre Bayard); Educação de um bandido (Edward Bunker); Da dificuldade de ser cão (Roger Grenier); No colo do pai (Hanif Kureishi); Milagres da vida (J.G.Ballard); Grêmio: nada pode ser maior (Eduardo Bueno).

Egopress

Postado em Egopress em 15/11/2009 por Michel Laub

1. Estarei numa das mesas da Balada Literária: sábado, 21/11, 11h, na Livraria da Vila da Fradique Coutinho, com Ronaldo Bressane, Antonio Prata e Edney Silvestre. Também na Balada, na Livraria da Vila e no B_arco, haverá uma exposição de Edson Kumasaka, que fotografou escritores brasileiros meio que fantasiados (eu entre eles, infelizmente não de sunga). Programação completa aqui.

3. Na sequência, vou ao Rio para o Encontros de Interrogação, evento do Itaú Cultural, numa mesa dia 2/12, às 15h30, no Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, com Flávio Carneiro, Adriana Lisboa e Marçal Aquino.

Melhores do ano – livros

Postado em Dicas, Listas, Livros em 12/11/2009 por Michel Laub

(lançamentos e novas edições saídas no Brasil em 2009):

Três livros de quadrinhosGênesis, Robert Crumb (Conrad, 224 págs.); Nova York, Will Eisner (Companhia das Letras, 439 págs.); Sábado dos meus amores, Marcello Quintanilha (Conrad, 64 págs.).

Três livros de não-ficção que falam de literaturaMilagres da vida, J.G.Ballard (Companhia das Letras, 248 págs.); Frenesi polissilábico, Nick Hornby (Rocco, 264 págs.); A literatura em perigo, Tsvetan Todorov (Difel, 96 págs.).

Três livros estrangeiros de ficçãoO imitador de vozes, Thomas Bernhard (Companhia das Letras, 159 págs.); Flores, Mario Bellatin (Cosacnaify, 80 págs.); Fome, de Knut Hamsun (Geração, 171 págs.).

Três livros brasileiros de ficção – ver obs feita em Melhores de 2008.

Melhores do ano – música

Postado em Dicas, Listas, Música em 11/11/2009 por Michel Laub

Cinco shows em SP – Radiohead (Chácara do Jóquei); Sonic youth (Terra); Iggy Pop (Terra); Kiko Dinucci e convidados (+ Soma); Pé na cozinha (Studio SP).

Cinco discosReplica sun machine (The shortwave set); The eternal (Sonic youth); Love 2 (Air); Together through life (Bob Dylan);  It’s blitz! (Yeah yeah yeahs).

Cinco músicas (dos discos acima) – Anti-orgasm (Sonic youth); Zero (Yeah yeah yeahs); Glitches’n’bugs (The shortwave set); Life is hard (Bob Dylan); Sing sang sung (Air).

Cinco músicas (de outros discos) French navy (Camera obscura); Beach demon (Wavves); King of the dogs (Iggy Pop); Modern Kid (Júpiter maçã); Lust for life (Girls).

Melhores do ano – exposições e teatro

Postado em Dicas, Listas, Outros em 09/11/2009 por Michel Laub

(todas em SP):

Cinco exposições – Os gêmeos (FAAP); Bob Nugent (Tomie Ohtake); Jean Dubuffet (Tomie Ohtake); Virada Russa (CCBB); artistas argentinos (Choque Cultural).

Cinco exposições de fotografia – Cartier-Bresson (Sesc Pinheiros); Robert Polidori (Museu da Casa Brasileira/IMS); Onde a água encontra a terra – Carol Armstrong, Fernando Azevedo e Leonardo Kossoy (MASP); Acervo em preto e branco (Pinacoteca); Otto Stupakoff (IMS).

Cinco peças de teatro (entre as não muitas que vi)Quartett, dir. Bob Wilson (SESC Pinheiros); Comunicação a uma academia, dir. Roberto Alvim (Teatro Imprensa); Hamelin, dir. André Paes Leme (CCBB); Aqui quase longe, dir. Gabriel Carmona (SESC Paulista); Brutal, dir. Mário Bortolotto (Parlapatões).

Melhores do ano – cinema

Postado em Cinema, Dicas, Listas em 08/11/2009 por Michel Laub

(considerando todos os gêneros):

Cinco filmes estrangeirosO lutador (Darren Aronofsky); Entre os muros da escola (Laurent Cantet); Bastardos Inglórios (Quentin Tarantino); Frost/Nixon (Ron Howard); Amantes (James Gray).

Cinco filmes brasileiros Loki (Paulo Henrique Fontenelle); Jean Charles (Henrique Goldman); Simonal (Claudio Manuel, Calvito Leal e Micael Langer); Apenas o fim (Matheus Souza); Juventude (Domingos de Oliveira).

Fim de semana

Postado em Cinema, Dicas, Livros, Música, Outros em 05/11/2009 por Michel Laub

Uma peçaHamelin, direção de André Paes Leme.

Um contoO roteirista, Charles d’Ambrosio, no novo número da Serrote.

Um discoAlbum, The Girls.

Uma exposição – arte colombiana na Fiesp.

Um filmeThis is it, Kenny Ortega/Michael Jackson, king of pop.

O Rio segundo Machado, Nelson Rodrigues e Rubem Fonseca

Postado em Livros em 04/11/2009 por Michel Laub

Há um trecho de Menina sem estrela, seu maravilhoso livro de memórias (Companhia das Letras, 279 págs.), em que Nelson Rodrigues comenta o carnaval de 1919: “De repente, da noite para o dia, usos, costumes e pudores tornaram-se antigos, obsoletos, espectrais (…). Toda nossa estrutura íntima fora tocada, alterada e, eu diria mesmo, substituída”. A razão era o fim da epidemia de gripe espanhola, o alívio que seguiu o longo período em que “a morte desfigurava a cidade” – como uma consciência, e isso Nelson Rodrigues talvez lamentasse, da futilidade das convenções sociais diante de um cenário tão grave.

“Na sexta feira”, continua o texto, “isto aqui era o Rio de Machado de Assis; e na manhã seguinte (…) houve uma obscenidade súbita, nunca vista”. A cidade passou a respirar uma nostalgia de polidez e sutileza, saturada que estava de uma suposta decadência moral exposta de forma bem mais grosseira que nos tempos de Dom casmurro. Nascia o Rio de Nelson Rodrigues, que só deixou de existir quando aquilo que em suas peças era o máximo de degradação – o adultério, as mortes por amor, o incesto e demais obsessões melodramáticas – deu lugar a um novo tipo de barbárie: os subúrbios trocados pelas favelas, os bandidos quase românticos pelos que matam por um par de sapatos, a caricatura de policiais corruptos pela brutalidade pura nas delegacias.

É o Rio de Rubem Fonseca: um lugar onde não há mais espaço para a ironia de Machado ou o moralismo às avessas de Nelson, justamente porque não existem ideias a ponderar nem lados a escolher. A violência absoluta, cujas razões estruturais e psicológicas há muito deixaram de ser identificáveis ou relevantes, é o verdadeiro personagem dessa representação literária já antiga, que data do fim dos anos 1960 e começou a perder a força ali pelos 1990, mas que até hoje não encontrou substituto à altura tanto na forma quanto no que tem a dizer.

Mostra de SP: filmes cuja sinopse no jornal não dá muito ânimo para sair de casa (2)

Postado em Cinema, Listas em 03/11/2009 por Michel Laub

Como unha e carne – EUA, 2009. Jimmy tem 40 anos e divide o dormitório com seu sobrinho Bob, de dez anos.

Frontier blues – Irã/Reino Unido/Itália, 2009. Na fronteira entre o Irã e o Turcomenistão, a vila Gorgan é uma região árida onde vivem quatro homens. Um deles é Alam, que mora com o pai e passa o tempo ouvindo música.

Lost persons area – Bélgica/Holanda/Hungria, 2009. Tessa, 9 anos, vaga por campos procurando algo a fazer. Seu pai busca a felicidade, e sua mãe, o papel como mulher.

Samson & Delilah – Austrália, 2009. No deserto central da Austrália, Samson e Delilah descobrem o amor e percebem como a vida pode ser cruel.

O cerco: a democracia nas malhas do neoliberalismo – Canadá, 2008. Com depoimentos de intelectuais, o filme investiga a ideologia neoliberal.

Mostra de SP: filmes cuja sinopse no jornal não dá muito ânimo para sair de casa

Postado em Cinema, Listas em 02/11/2009 por Michel Laub

Alga doce – Polônia, 2009. Marta é abalada pela morte dos filhos e não sabe que tem uma doença terminal.

Seguindo em frente – Japão, 2008. Três gerações se reúnem debaixo do mesmo teto para relembrar a morte do filho mais velho numa temporada de verão.

Lágrimas de abril – Finlândia, 2009. No fim da guerra civil, os vitoriosos exterminam os derrotados, entre eles, mais de 2.000 mulheres.

Os infelizes – Bélgica, 2009. O pequeno Gunther divide a casa da avó com o pai e os tios, todos alcoólatras.

Eu matei minha mãe – Canadá, 2009. Hubert despreza sua mãe. Confuso, ele se vê tomado por amor e ódio incontroláveis.

Feriado

Postado em Cinema, Dicas, Livros, Música, Outros em 29/10/2009 por Michel Laub

Um livro relançadoFome, de Knut Hamsun (Geração, 171 págs.).

Um filme mais ou menosO desinformante, de Steven Soderbergh.

Outro filme mais ou menosDistrito 9, de Neill Blomkamp.

Uma exposiçãoA arte do mito, Masp.

Uma músicaThis is the end, Charlatans.

Uma entrada para pedir no Chi Fu – mexilhão com feijão dentro.

Uma máquina para jogar em grupo (e sem crocodilagem) no fliperama ao lado do Chi fu – Daytona USA.

Imagem do dia

Postado em Outros em 28/10/2009 por Michel Laub

Pintura de Rafael Coutinho em cartaz na exposição Os últimos dias do pornô, galeria Choque cultural:

rafael coutinho

Uma despedida

Postado em Aspas, Livros em 28/10/2009 por Michel Laub

Um dos narradores de Últimos pedidos, de Graham Swift (Companhia das Letras, 301 págs.), no momento em que joga as cinzas de um velho amigo no mar:

“Seguro o pote com as duas mãos de novo, dando uma olhadinha dentro, e digo: – Venham, venham. – Se juntam todos pra tirar mais um punhado. Não sobrou muito mais do que o suficiente pra uma rodada pra quatro homens. Mergulham a mão de novo, um por um. Mergulho de sorteio. E eu mergulho e todos nós jogamos outra vez, um ralo de rastro de branco, como fumaça, antes de se ir, e algumas gaivotas se precipitam vindas de não sei onde e numa guinada se agastam de novo, como que foram ludibriadas. Então eu sei que não tem bastante pra uma outra divisão, outra rodada completa, de modo que eu mesmo começo a escavar o resto, parece que eles não se importam. Escavo e escavo como um animal cavando a toca, e no fim eu sei que vou ter que erguer o pote e bater como a gente bate quando chega ao fundo de uma caixa de cornflakes. Um punhado, dois punhados, tem só dois punhados. Digo: – Adeus, Jack. – O céu e o mar e o vento se misturam, mas acho que não faria nenhuma diferença se não estivessem misturados (…). O rosto do Vic e do Vincey parecem bolhas brancas, mas o do Lenny parece uma luz de farol, e do outro lado da água dá para ver as luzes de Margate. Dá para ficar no fim do Píer de Margate e olhar pra Dreamland. Depois jogo o último punhado e as gaivotas voltam atrás de uma segunda oportunidade e eu estendo o pote, sacudindo, como se devesse jogar ele dentro do mar também, uma mensagem numa garrafa, Jack Arthur Dodds, salve nossas almas, e as cinzas que carreguei nas minhas mãos, que eram o Jack que uma vez esteve vivo, são carregadas pelo vento, são rodopiadas pra longe pelo vento até as cinzas se transformarem no vento e o vento se transformar no Jack de que nós somos feitos.”

Música do dia

Postado em Música, Vídeos em 27/10/2009 por Michel Laub

Via Nina Wop:

Dois filmes de Oliver Stone sobre presidentes republicanos odiados

Postado em Cinema, Listas em 25/10/2009 por Michel Laub

W – A técnica apurada de sempre, tanto nas imagens quanto na narrativa, e a mão pesada de sempre. Nem falo dos diálogos que pretendem reproduzir a história “real” – e tenho preguiça em saber se foi assim ou não, porque não faz muita diferença –, mas em detalhes claramente direcionados: George Bush dando uma cantada em sua futura mulher com a boca cheia de hambúrguer, ou sendo manipulado de forma infantil por Rumsfield e cia. Enfim, para quem acredita em teorias freudianas literais – a obsessão de W por seu pai – ou na hipótese de que alguém pode chegar à presidência dos Estados Unidos, independentemente do óbvio fracasso político e humano de sua gestão, sendo um idiota quase completo.

Nixon – A mesma obsessão freudiana – desta vez em relação a Kennedy – e a mesma mão pesada nas metáforas – um bife sangrando enquanto à mesa se discute um bombardeio, ou um cavalo que bufa de olho arregalado enquanto um pacto escuso é proposto a J. Edgar Hoover. Mas Stone manipula menos aqui, talvez por estar convencido da contradição entre grandeza e mesquinharia, geopolítica às vezes vitoriosa e constante desastre interno que marcou a gestão Nixon. Uma tragédia em tom grandiloquente, com diálogos eventualmente patéticos, resumida no momento em que Anthony Hopkins e Paul Sorvino se ajoelham para rezar por uma América que já não existia, se é que um dia existiu – aquela de Norman Rockwell, das tortas de maçã no subúrbio, dos desfiles de bombeiros carregando bandeirinhas longe do Vietnã, de Woodstock e do Watergate.

Fim de semana

Postado em Cinema, Dicas, Livros, Música, Outros em 22/10/2009 por Michel Laub

Uma exposição – Robert Polidori no Museu da Casa Brasileira.

Um livroRobert Polidori: fotografias (IMS, 176 págs.).

Um discoMy maudlin career, Camera obscura.

Um lugar para comer lamen – Aska.

Um lugar para comer lamen gelado e pudim de ovo – Takô.

Uma cena de filme – a da piscina em Deixe ela entrar, de Tomas Alfredson.

Resoluções antecipadas de ano novo (2)

Postado em Cinema, Listas, Livros, Música, Outros em 21/10/2009 por Michel Laub

1. Não ler nenhum artigo sobre lei Rouanet.

2. Não comparecer a nenhum debate sobre kindle e pirataria de livros.

3. Não ver filmes com os seguintes temas: situação dos imigrantes na França, incomunicabilidade, Cuba e Islã, classe média brasileira insensível. De segunda guerra, só se Hitler morrer num incêndio.

4. Assistir a somente um filme de Steven Soderbergh.

5. Não assistir ao filme do Lula. Se for inevitável, não comentar. Se for inevitável, não mencionar Glória Pires dizendo “tu vai te chamar Luiz Inácio”.

6. Não ir a nenhum show de sambista da FFLCH, mulher de voz suave que canta bossa nova sorrindo, letrista que faz trocadilho com termos da internet, banda com mais de 50% dos integrantes usando bigode e camisa de lenhador.

7. Não ir a nenhum show em locais sem pia. Ou com pia, mas sem água corrente.

8. Não fazer nenhuma piada sobre: poetas, release de artes plásticas, bebida em vernissage, teatro popular ou do oprimido.

9. Resistir bravamente a: twitter, Máfia Wars, séries americanas, livros sobre futebol aproveitando o gancho da copa, pinball em casa.

10. Não encerrar nenhuma lista fazendo referência à própria lista – “não fazer mais resoluções antecipadas de ano novo” – ou remetendo ao item anterior – “pinball em casa: vai ser difícil”.

(ver resoluções antecipadas 1)

Egopress

Postado em Egopress em 20/10/2009 por Michel Laub

1. Aqui, a página que fiz com trechos de críticas dos meus livros.

2.  Aqui, o novo site do Instituto Moreira Salles, projeto que ajudei a montar.

Imagem do dia

Postado em Outros em 20/10/2009 por Michel Laub

Pintura de Dea Lellis:

‘Fun home’, de Alison Bechdel

Postado em Cinema, Livros, Outros em 18/10/2009 por Michel Laub

Nunca entendi por que certos recursos narrativos viram um tabu para a crítica. A voz em off no cinema, por exemplo: é verdade que ela pode ser um atalho óbvio para resolver impasses na história – transformar em linguagem visual ou numa cena com ação e diálogos uma ideia que existe apenas como enunciado -, mas e daí? Onde está escrito, além da velha norma da literatura americana de meados do século 20, que mostrar é sempre melhor que dizer? Tudo depende, claro, de como se diz e como se mostra.

Há pouco li um excepcional romance em quadrinhos, Fun Home (Conrad, 238 págs., tradução de André Conti), quase todo construído em cima do que em cinema seria uma narrativa em off: frases no alto dos quadros que explicam a situação que está sendo mostrada nos desenhos. O achado de Alison Bechdel, a autora, é não deixar que as duas informações sejam redundantes. Mais que isso: ambas somam-se, por meio de registros diversos e às vezes opostos, para atingir um tom intermediário que é a melhor qualidade do livro. Se o texto descreve momentos dramáticos, por exemplo – a morte, os conflitos familiares, os ritos da protagonista ao descobrir sua homossexualidade -, o traço sempre remete a personagens doces, a um tipo de humor que foge do cinismo e da mágoa comuns nesse tipo de autobiografia.

A maneira como Bechdel monta a trama também escapa ao convencional: o que seria um gancho poderoso de expectativa – o segredo guardado pelo pai – é desarmado logo no início, numa única frase de um único quadro, para só retornar muitos capítulos adiante; episódios paralelos com potencial óbvio de drama e comédia – como a do transtorno obsessivo-compulsivo da personagem – surgem e desaparecem abruptamente, em meio a um capítulo e em não mais que cinco páginas; o desfecho é conhecido desde o início, e a evolução para chegar a ele é várias vezes anunciada, e mesmo assim não perdemos o interesse na história. Ao final, em vez de uma catarse surgida de surpresas cujos indícios foram cuidadosamente plantados, temos o reforço de informações que já conhecíamos, mas que nem por isso deixam de soar como novidade – dita, mostrada ou ambas as coisas, não importa.

Fim de semana

Postado em Cinema, Dicas, Livros, Música, Outros em 15/10/2009 por Michel Laub

Um filmeBastardos Inglórios, Tarantino.

Uma exposição – Rafael Coutinho na Choque Cultural.

Uma músicaJerry Lewis, Lulina.

Um restaurante de massas – Gênova.

Um romance brasileiroEstive em Lisboa e lembrei de você, de Luiz Ruffato (Companhia das Letras, 88 págs.).

Uma expectativa para os próximos meses – o diário Kidids em Passo Fundo, ref. #poschernobyl, na Piauí.

Entrevistas: Martin Amis (2)

Postado em Aspas, Livros em 14/10/2009 por Michel Laub

(Continuação do post de ontem):

Escritores – “Na Inglaterra, a visão de um romancista sobre um evento político é menos importante do que a de um homem comum. Mas nos Estados Unidos é diferente. Lá há uma longa tradição e uma necessidade de os escritores dizerem ‘o que é a América’ – eles são apenas um agrupamento de italianos, judeus, etc., ou um país com uma alma, uma identidade e um coração?”

Ian McEwan –  “Um escritor maravilhoso. Normalmente acham que estamos competindo entre nós, mas não estamos. Somos amigos, mas cada um está tentando escrever os próprios romances.”

A geração McEwan, Julian Barnes, etc. – “Acho que tudo o que temos em comum é o local de nascimento, que é muito próximo. E a época em que vivemos.”

Literatura nacional e internacional – “A literatura é mais internacional hoje do que no passado, graças à dominação do idioma inglês. É como uma língua franca. O intercâmbio entre escritores é mais comum também. Mas há tantos tipos de literatura quanto autores.”

Os próprios livros – “Gosto mais do próximo. Sempre. Gosto menos dos primeiros (Rachel Papers, Success). O problema de iniciar jovem é que você cresce em público. Isso tem valor, mas o trabalho pode constrangê-lo depois. Os primeiros livros são vivos e cheios de energia, mas parecem um tanto imaturos agora.”

Money – “[o primeiro que livro que escrevi como gostaria foi] Money (…). Não foi minha intenção inicial, mas acabou sendo isso [uma sátira dos anos Thatcher]. A raiva que há ali acabou tendo relação com o desgosto em relação à forma como o país estava sendo governado. Mas você nunca sabe muito o que está fazendo até terminar o livro.”

Time’s Arrow e a narrativa de trás para diante – “Aquilo já havia sido feito antes, como tudo. Há um conto de Scott Fitzgerald [O curioso caso de Benjamin Button] e um romance de Philip K. Dick que o fizeram (…). Achei que era uma idéia poética, mas inútil. Então li The Nazi Doctors, do meu amigo Robert Jay Lifton, e pensei que seria interessante ver o Holocausto de trás para a frente, porque assim, e só assim, a propaganda e a ideologia poderiam fazer sentido, e se poderia dizer o quão errados eles estavam.”

Ideologia – “Estou escrevendo um romance autobiográfico que poderia ser visto como uma resposta às batalhas da guerra cultural que parecem acontecer toda vez que lanço um livro. É sobre uma geração e outra, sobre uma nova ideologia, o igualitarismo, o multiculturalismo. Estou preparado para essa batalha. Normalmente me perguntam se é difícil ser um romancista filho de um romancista. Sempre digo que é fácil, mas agora ficou difícil, porque você é identificado ridiculamente como um elitista genético. E a ideologia está mudando, então agora eu sou o inimigo deles. A idéia de um talento herdado é terrível para essa ideologia, ofende-a.”

Futuro – “Suspeito que o romance voltará a ser o que era quando comecei, isto é, uma esfera menor de interesse. Ele vai se tornar mais quieto, mais para pessoas preparadas ou da academia do que para o público dos best sellers. (…) Para a literatura, foi como um bom período de férias ter tido a dimensão que teve nos anos 70, 80 e 90. Mas isso não me incomoda muito. Quando comecei, era assim. Então não vou me chocar de voltar a esses parâmetros.”

Entrevistas: Martin Amis (1)

Postado em Aspas, Livros em 13/10/2009 por Michel Laub

(Trechos de uma entrevista que fiz com o autor de Money, London Fields e Casa de encontros em 2004):

O que gosta de ler – “Não procuro por histórias tanto quanto por níveis de percepção. O que quero saber é a maneira como os escritores interpretam o mundo, em que nível isso se dá, mais do que a respeito de sagas familiares ou narrativas tradicionais. Não tem a ver com contar histórias ou não, e sim com como se escreve.”

Ficção hoje – “Você vê o que aconteceu com a poesia na última geração. É como se o mundo se acelerasse em tal dimensão que não podemos diminuir o ritmo o suficiente para ler poesia. A poesia perdeu seu poder na imaginação porque não só desacelera o tempo, como de fato para o relógio. Um poema lírico pede que você examine um determinado momento. E não se gosta mais dessa introspecção. Gostamos que as coisas se movam numa velocidade mais reconhecível. O mesmo se passa com a ficção. Não queremos, ou eles não querem, um tipo de romance de dicção meditativa; preferem um tipo que mais facilmente lembre a velocidade da vida.”

Pós-modernismo – “O grande pós-modernismo europeu está acabado como ficção. Era um grande insight de como o mundo funcionava; não era, no fim das contas, um filão ficcional muito produtivo, rico por si só. Era muito auto-consciente, muito limitado, e agora o romance parece ter evoluído para uma invenção mais ampla. Não há, agora, uma grande tradição dominando o romance. Contar histórias voltou a ser importante. Enredos voltaram a sê-lo.”

O pai, Kingsley Amis – “Meu pai se identificava muito mais com uma narrativa que não pregava peças no leitor. Ele escreveu alguns romances com truques, mas não eram pós-modernos. Você sempre sabia o que estava se passando, as regras da realidade eram estáticas. Na minha geração, há uma maior liberdade em relação a essas regras, com o realismo mágico e o pós-modernismo. A realidade apresentada ao leitor não é tão confiável. Mas agora há um movimento contrário. A próxima geração, suspeito, vai precisar de velocidade e enredo. Interesse humano, não abstrações (…). Nos anos 80, talvez, a presença do pós-modernismo deixasse as coisas mais fechadas. Um romance como Money, por exemplo, enfureceria o meu pai. Aliás, enfureceu… Agora, apesar da liberdade de abordagem, há a volta das leis da realidade ao romance. É a minha impressão.”

Amadurecimento – “Não acho que você possa voltar no tempo e dizer que teria feito diferente. Você fez da maneira como deveria fazer à época. Assim é um romance, ele apresenta dificuldades, e aos 35 você as enfrenta de forma diferente do que quando você tem 55. A sua abordagem, a sua disposição para o risco, tudo muda.”

Crítica – “Você choca por acidente. Os críticos não dirão que estão chocados. Eles não chegaram a dizer isso de mim. Nas críticas, o choque aparece de outra forma: ultraje moral, tradicionalismo.”

Escrever crítica – “Isso sempre foi parte do que fiz. Me parece como escrever com a mão esquerda. Não é algo que venha naturalmente. É encarado mais como trabalho do que acontece quando escrevo ficção. Mas ainda acho importante fazê-lo. Ter vozes críticas vigorosas não é vital para a literatura; é vital para a civilização.”

Imprensa – “[A relação hoje] é pior, no meu ponto de vista. Na Inglaterra eles costumavam atacar a minha pessoa. Agora atacam a minha obra, o que é pior, porque é como atacar meus filhos.”

Egopress

Postado em Egopress, Livros em 12/10/2009 por Michel Laub

Aqui, entrevista a Paulo Lima, do site Balaio de notícias, sobre O gato diz adeus.

Aqui, em áudio, entrevista a Renato Alessandro dos Santos, do site Tertúlia.

Aqui, matéria de Kelly de Souza, da revista da Livraria Cultura, sobre “livros que gostaríamos de ter escrito”, comigo e outros autores.

Feriado

Postado em Cinema, Dicas, Livros, Música, Outros em 09/10/2009 por Michel Laub

Um discoLove 2, Air.

Uma memória em quadrinhos – Fun Home, de Alison Bechdel (Conrad, 239 págs.).

Um filme baseado numa memória em quadrinhos – Persépolis, de Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi. 

Um burguer – PJ Clarke’s.

Um burguer ainda melhor – Hamburgueria Nacional.

Outros igualmente bons ou melhores – Ritz, Balcão, Lanchonete da Cidade, Rocket’s, Squat, Raupps.

Uma exposição – Dea Lellis na + Soma.

‘Salve geral’

Postado em Cinema em 07/10/2009 por Michel Laub

Salve geral escorrega em dois ou três diálogos e dois ou três momentos de esquematismo, mas de resto tem impacto, fluência e atuações muito boas de Andréa Beltrão, Denise Weinberg, Chris Couto e outros. Só que não é o tipo de filme que possa ser criticado apenas esteticamente. Afinal, seria ingênuo ignorar que a própria escolha do tema – o levante do PCC em 2006 e a maneira como o governo de São Paulo lidou com o fato – tem algumas implicações políticas.

Nesse sentido, o diretor e co-roteirista Sérgio Rezende enfrenta o velho paradoxo moral de histórias contadas sob o ponto de vista de bandidos ou concentradas neles. Ou seja, o tempo todo torcemos para que as coisas dêem certo para a protagonista, uma professora de piano que acaba se envolvendo com o crime, e também para Marcola, sua advogada e seus parceiros (todos com nomes trocados, claro). Num western ou policial de ficção não é algo grave, mas numa trama tão colada a uma realidade recente pode haver desconforto ao se ver homens que deixaram famílias inteiras destroçadas serem tratados como revolucionários do sistema prisional, com seu “lado humano” mostrado com tanta ênfase – ou mais – do que seus crimes. É certo que as cadeias no país são hediondas, e que todo assassino é capaz de ser justo nas horas vagas, mas é uma questão de escolha: basta comparar os diálogos carismáticos ou comprometedores que os detentos protagonizam, as cenas em que eles são vítimas ou algozes, o grau de brutalidade que eles sofrem ou fazem sofrer, e aí se tem um discurso.

A favor de Sérgio Rezende, dá para dizer que a abordagem busca uma compreensão das razões do levante, e não seria possível dar conta dela sem apresentar a versão do “outro lado”. Um argumento razoável, mas que parece ter sido pouco lembrado quando o que está em cena são as ações da polícia: ali os personagens têm bem menos relevo psicológico e social, e o filme não se intimida em mostrar um alto agente da segurança pública (que deve ter nome, sobrenome e motivos na vida real) matando dois inocentes à noite, pelas costas. Ou o diretor do presídio (que também tem nome, sobrenome e motivos na vida real) envolvido numa operação que ocasionou o massacre de presos num ônibus. Ou o secretário de segurança (de quem todo mundo sabe o nome e o sobrenome, mas talvez não os motivos) negociando com o PCC e mais preocupado com a imagem do governo que com as centenas de pessoas que morriam nas ruas. Mais uma vez: não duvido que tudo isso tenha acontecido, até porque não conheço os inquéritos da época e seria o último a defender a priori as ações da polícia e das autoridades brasileiras na área. Apenas registro a certeza com que alguns são condenados e outros até o são, mas só depois dos poréns e argumentos necessários.

Música do dia

Postado em Música, Vídeos em 06/10/2009 por Michel Laub

Entrevistas: Amós Oz

Postado em Aspas, Livros em 05/10/2009 por Michel Laub

Trechos de uma entrevista que fiz em 1999 com o autor de A caixa preta, Não diga noite e De amor e trevas:

Literatura e família – “Essencialmente, eu me reputo um escritor da vida doméstica. Escrevo música de câmara. Minhas histórias sempre ou quase sempre acontecem dentro do ambiente familiar. (…) A família é certamente o mais interessante dos temas, o mais misterioso deles. É a mais surrealista instituição do mundo. Por 5 ou 6 mil anos a família e o casamento vêm sendo atacados por quase todas as ideologias ou religiões. Jesus defendeu que se pusesse um fim a ela e que em seu lugar se construísse uma comunidade de crentes. Platão sugeriu uma alternativa a ela. Toda nova ideologia ou religião parece começar com um ataque à família. E, de alguma forma, apesar disso, a família sobrevive: no Irã, no Amazonas, em qualquer lugar, sob qualquer regime. Isso é um grande mistério. As pessoas não são monogâmicas por natureza, pelo menos grande parte delas. Mesmo assim, casam-se e jogam o jogo ancestral de pai, mãe, irmão, irmã. Por isso a família é o tema mais universal: todos vivem a tensão e as contradições dessas relações que não se explicam, que são misteriosas.”

Literatura e moral – “[a moral está presente] na minha literatura, sim, mas não penso que isso deva estar em qualquer literatura. Alguns grandes autores não a têm em suas obras. Gogol, por exemplo. Duvido muito que haja moralismo em Kafka. Acho que a obra dele trata mais de metafísica do que de qualquer outra coisa.”

Literatura e política – “Não estou em competição com os jornais. Não acho que seja o meu negócio fazer descrições de Israel como as da CNN. Escrevo sobre os lados mais introvertidos da vida e de Israel. Tento nunca escrever sobre política.”

Local e universal – “Nenhum autor pode ser universal, a menos que o seu tema sejam os aeroportos ou os grandes hotéis. Toda literatura de essência é local e, a partir daí, universal. (…) Cada lugar tem o seu próprio sistema de relações, a sua conformação de valores, a sua combinação de sensibilidades. Minha literatura é israelense porque a maioria dos meus personagens é de Israel. Alguns são árabes, também, mas a maioria é composta por judeus israelenses, que têm histórias pessoais cheias de neurose e perseguição. Todos são sobreviventes, todos viveram catástrofes. Eles ou os pais deles vieram do inferno. Todos são imigrantes cheios de medo e tensão, e isso é muito visível nos meus livros. É aí, também, que está o cenário – seja ele Jerusalém ou o deserto.”

Sobre Operação Shylock, de Philip Roth, que fala da questão judaica numa história passada em Israel – “Comecei o livro, mas depois de um tempo perdi o interesse e acabei desistindo. (…) Acho que ensaístas podem escrever em qualquer lugar, enquanto contadores de histórias deveriam situar essas histórias em lugares que conheçam muito bem. Eu relutaria bastante em escrever uma história sobre judeus que vivem em São Paulo, por exemplo, porque não sei nada sobre a língua, entre muitas outras coisas. Então, acho um equívoco um autor norte-americano escrever um romance sobre a vida de Israel.”

Sobre se acredita em deus – “Acho essa a questão mais íntima que me pode ser feita. (…) É mais fácil falar sobre a minha vida sexual do que sobre isso. Posso dizer que não vou à sinagoga, que não sou um homem religioso. Não acredito em religião e tenho a impressão de que Deus também não está interessado em religião. Um dos meus personagens diz que Deus não é religião. Talvez isso responda a sua questão.”

Fim de semana

Postado em Cinema, Dicas, Livros, Música, Outros em 01/10/2009 por Michel Laub

Uma exposição – Cartier-Bresson no Sesc Pinheiros.

Um livroHenri Cartier-Bresson: fotógrafo (Cosac Naify, 344 págs.).

Uma reportagem – John Lee Anderson sobre o Rio na New Yorker.

Um filme em DVD – O equilibrista, de James Marsh.

Um restaurante caro e bom – Pobre Juan.

Um show hoje, quinta – Lucas Santtana no Studio SP.

Arnaldo Jabor, o AI-5 e o delírio

Postado em Livros, Outros em 30/09/2009 por Michel Laub

Sobre o tema do post de ontem, não é apenas a justificativa histórica, a circunstância de ter vivido tanto o nazismo quanto o comunismo, que dá autoridade e verossimilhança à prosa de um escritor como Imre Kertész, para quem a desolação da Hungria nos anos 1990, cenário do livro Liquidação (Companhia das Letras, 112 págs.), às vezes guarda aspectos de horror semelhantes aos da burocracia stalinista ou de um campo de extermínio.

No caso de Kertész, é por meio de uma solenidade até um pouco árida demais que o texto alcança essa “verdade”. No de Thomas Bernhard, como já cansei de dizer aqui, é por meio de uma falsa ênfase, que também traz em si um tipo particular de humor – recurso muito mais importante, por exemplo, do que o fato de ele enxergar a herança da Segunda Guerra por baixo da aparência ordeira da sociedade austríaca na segunda metade do Século 20.

De qualquer forma, são analogias construídas, nunca apenas declaradas. Um exemplo oposto é o texto que Arnaldo Jabor publicou no número dois da revista Granta (Alfaguara, 2008, 280 págs.), no qual descreve uma bad trip de ácido logo depois da decretação do AI-5, em 1968. Ninguém duvida da dureza daqueles tempos, mas seu retrato inevitavelmente se dilui na afetação de passagens como esta: “Eu buscara um desbunde alegre e florido como o dos americanos do flower power, mas saquei que ali a devastação de 68 nas ‘melhores cabeças da minha geração’ seria tão brutal como a tortura que enchia os quartéis de gritos”. Em pleno delírio, ele lembra: “Intuí, confusamente, que a história detesta indefinições e que, nos países miseráveis, ela sempre se define pelo pior”. E segue: “Entendi com horror que a política iria virar uma piada ridícula dali para a frente, um pesadelo cômico”.

Como Kertész ou Bernhard na ficção, Jabor encerra sua memória relacionando a opressão do passado e um suposto totalitarismo do presente: “Sinto também (estarei muito louco?) que essa liberdade maluca e sem objetivo, fetichizada, essa invasão de corporações globais, esse mundo dividido em deus do oriente e deus do ocidente, entre Bush e Obama, a massificação dos desejos e das culturas, tudo parece um Ato No 5 sem rostos militares, mas que deve estar matando outras coisas essenciais que sobraram em nós, como aquelas que a ditadura matou, quarenta anos atrás.”

No limite, e Jabor provavelmente concordaria, não há termos de comparação entre a ditadura militar e a vida brasileira de 2009. Assim como não há entre o nazismo e a Hungria ou a Áustria atuais. O fato de aceitarmos ou não que um escritor diga o contrário é uma questão estética, que se resume ao seu talento retórico e ficcional e prova, para o bem e para o mal, como a literatura sempre pode se distanciar da vida.

Terror no McDonald’s

Postado em Livros em 29/09/2009 por Michel Laub

Entre as observações que o protagonista de Austerlitz faz sobre paisagens e arquitetura (ver post de 24/8), há uma que poderia resumir todo um universo ao qual pertence a ficção de W. G. Sebald. “O átimo de terror de um flash”, diz o personagem sobre a iluminação branca de um McDonald’s em Londres, “fora ali perpetuado, e não havia mais nem dia nem noite”.

A abordagem é típica de uma linhagem de intelectuais para quem certos aspectos do mundo contemporâneo, como a vida burguesa e a cultura de massas, podem encarnar sintomas de um pesadelo totalitário. Por razões que mereceriam um ensaio à parte, essa acabou sendo uma visão mais comum em autores que viveram sob a presença ou a herança ainda forte do nazismo ou do comunismo. Não é a mesma coisa que J.M. Coetzee escrevendo sobre os rescaldos do Apartheid, ou António Lobo Antunes remoendo a herança do colonialismo português: em Sebald – como em Elias Canetti e Imre Kertész, antes, ou no próprio Thomas Bernhard depois –, a intensidade da experiência ou da memória do horror parece mais profunda e tem uma natureza imobilizante. No subtexto de suas obras, o passado se estende pelo presente até quase se confundir com ele, o que faz com que algo tão comum e doméstico para a maioria das pessoas – pense num quarteirão com queijo salvador antes de voltar para casa – possa ser equivalente, mesmo que em termos apenas sugestivos, a uma cena da Alemanha de 1942.

Música e clipe do dia

Postado em Música, Vídeos em 27/09/2009 por Michel Laub

Via Ferla.

Fim de semana

Postado em Cinema, Dicas, Livros, Música, Outros em 24/09/2009 por Michel Laub

Um discoThrough the devil softly, Hope Sandoval & the warm inventions.

Uma exposição na Pinacoteca – Matisse.

Outra exposição na Pinacoteca – Acervo em preto e branco, fotos.

Um livro brasileiroRelógio sem sol, de Cadão Volpato (Iluminuras, 120 págs.).

Um lançamento em DVD O homem que amava as mulheres, Truffaut, edição oficial.

Dois grandes filmes sem (quase) nenhuma mulher em cena

Postado em Cinema, Listas em 23/09/2009 por Michel Laub

Soldado anônimo – Uma guerra movida a areia, máscaras de gás e Kanye West, onde a violência que nos acostumamos a ver nos cenários do Vietnã – em meio a selva, fumo e The Doors – é substituída por uma espera tediosa e igualmente absurda. O melhor filme de Sam Mendes, disparado, e a sequência mais impressionante já rodada num deserto – o encontro à noite, tão apocalíptico quanto as histórias do coronel Kurz em seu monólogo final, entre um jarhead e um cavalo encharcado de óleo.

Mestre dos mares – Com exceção de uma prostituta brasileira que aparece por algo como 15 segundos, o resto é o capitão Lucky Jack enquadrado por Peter Weir: seus mapas, seu violino, seus banquetes e sua obstinação maníaca em fugir e perseguir um navio da esquadra napoleônica. Ouvida no sistema de som de uma sala decente, nenhuma sonoplastia se compara à da batalha inicial, com o ranger das tábuas e o estrondo dos canhões em meio a um pesadelo de marujos correndo em meio à neblina. E nenhuma aventura em alto mar tem cenas como as do biólogo que captura espécies novas em Galápagos, ou personagens com tanta sorte quanto Jonas – quer dizer, considerando as formas possíveis de escapar do escorbuto, do trabalho no convés e das pernas amputadas.

Música do dia

Postado em Música, Vídeos em 22/09/2009 por Michel Laub

Via Lombardi.

‘A guardiã do farol’, de Jeanette Winterson

Postado em Livros em 21/09/2009 por Michel Laub

(publicado na Folha de S.Paulo):

Jeanette Winterson é uma das mais conhecidas escritoras inglesas surgidas nos anos 1980. Seus livros foram traduzidos para vinte e oito países, entre os prêmios que ganhou está o E.M. Foster Award, e uma busca rápida na internet é capaz de listar elogios a ela de nomes como Gore Vidal e Muriel Spark. E, no entanto, a primeira dúvida que surge de A guardiã do farol(Record, 224 págs.) diz respeito ao mais básico dos fundamentos da literatura: a prosa.

Logo no parágrafo inicial há uma frase que poderia resumi-la, quando a narradora, uma órfã criada pelo guarda do farol de um vilarejo na costa escocesa, fala do pai biológico, um marinheiro que não chegou a conhecer: “Um rombo no casco o deixou em terra o tempo suficiente para lançar âncora dentro de minha mãe”. Ou seja, o leitor já começa se perguntando se as imagens do texto – pensemos na “âncora”, ou nos “cardumes de bebês” que “competiram pela vida” e foram derrotados pela protagonista depois da concepção  – têm alguma força sugestiva ou são diluições na fronteira do kitsch.

Não é só um preciosismo de estilo: embora a narrativa seja em primeira pessoa, recurso que pode servir de desculpa para todo tipo de barbeiragem dramática, psicológica ou de linguagem – como se as incoerências e banalidades se devessem ao personagem, e não ao autor –, o efeito óbvio da prosa frouxa é que não acreditamos no que estamos lendo. O dilema é irônico pelo fato de que um dos assuntos do romance é justamente a permanência das histórias, seu poder de convencimento, a forma como suas verdades e mentiras influenciam a vida de alguém como a protagonista.

Para complicar ainda mais a crítica, o registro de Winterson também é oscilante, meio realismo, meio lenda, meio fábula, e nessa ambigüidade é difícil dizer se determinadas frases – “ninguém sabe o que acontece no fim da jornada”, “todo recomeço provoca um retorno” ou “talvez todas as histórias mereçam ser ouvidas, mas nem todas merecem ser contadas” – trazem algum significado duplo, adequado a um certo tom mítico que fala de situações atemporais, arquetípicas, ou são apenas o que aparentam – lugares-comuns, solenidade vazia.

Infelizmente a segunda opção é mais provável, talvez porque em outros atributos, como o ritmo, os créditos da autora aos poucos vão se esgotando. A guardiã do farol tem tramas paralelas envolvendo o guarda, um pregador religioso e até figuras como Charles Darwin e Robert Louis Stevenson, mas toda vez que nos envolvemos com alguma delas o andamento é interrompido por uma digressão sobre o amor, o tempo ou mesmo por novos capítulos com nomes como “A porta era o corpo dele”, “O mistério de Pew era o próprio mercúrio” ou “Foi nosso último dia como nós mesmos”.

Se em alguns trechos a tentativa de lirismo até consegue funcionar, e aí Winterson justifica a celebração em torno de seu nome, a irregularidade geral impede que o romance vá muito além desses “pontos conhecidos na escuridão” – para ficarmos com outra de suas imagens não particularmente entusiasmantes.