Participação fúnebre

Postado em Outros às Julho 13, 2008 por Michel Laub

 

Por falta de tempo, disposição, paciência e demais condições para manter o blog, deixo de atualizá-lo hoje, 13/7/08. A página será reformulada em breve e mantida como site pessoal. Agradeço o ótimo retorno que tive de vocês neste período.

Egopress

Postado em Livros, Outros às Julho 9, 2008 por Michel Laub

 

1) Abaixo, trecho do debate em que estive na Flip, com Emilio Fraia, Vanessa Barbara, Adriana Lunardi e mediação de João Moreira Salles:

 

 

 

2) No site do jornal Rascunho, o conto que li na abertura da mesa em Paraty.

 

3) E na próxima segunda, 14/7, na TV Cultura, vai ao ar o Roda Viva com Tom Stoppard, do qual participei.

Ausência

Postado em Outros às Junho 29, 2008 por Michel Laub

 

O blog volta a ser atualizado no meio de julho.

Fim de semana

Postado em Dicas, Outros às Junho 26, 2008 por Michel Laub

 

Um livro pauleira – O despenhadeiro, de Fernando Vallejo (Alfaguara, 169 págs.).

 

Uma memória leve – Haruki Murakami, na New Yorker de 16/6, sobre seu início como romancista, corredor e dono de bar em Tóquio.

 

Uma cena – Chiwetel Ejiofor e Joe Mantegna no restaurante em Cinturão Vermelho, de David Mamet.

 

Uma música – Subcode, Jah Wobble e Bill Laswell.

 

Uma dúvida para domingo – se o professor Roth usará William Magrão ou Rafael Carioca ao lado de Eduardo Costa.

 

Uma exposição – desenhos de Leonilson na Maria Antônia.

Hope Sandoval

Postado em Música, Vídeos às Junho 26, 2008 por Michel Laub

 

Com o Mazzy Star em (sic) Happy:

 

  

Com o Warm Inventions, já nos anos 2000, em On the low (não diga…):

 

 

E aqui, com o Jesus and Mary Chain, que vem de novo ao Brasil, num clipe que a MTV exibia muito há uns 15 anos:

 

 

O gângster

Postado em Cinema às Junho 24, 2008 por Michel Laub

 

Tenho bastante simpatia pelos diretores hollywoodianos “profissionais”, aquela família da qual fazem parte Ron Howard, James Cameron, Jonathan Demme e tantos outros. Porque o mundo às vezes precisa de filmes sobre relações humanas e deus e o destino, mas que em seu miolo expliquem pacientemente como funciona uma nave espacial, um navio transatlântico ou uma festa de formatura na academia do FBI. Os best-sellers tipo John Grisham fazem isso muito bem, e daí o seu sucesso “utilitário”, só que o cinema pode obter o mesmo efeito sem encher tanta lingüiça, e com a vantagem extra de que ao menos você sai de casa um pouco.

 

Dos diretores profissionais que volta e meia trabalham em Hollywood, ninguém é mais talentoso do que Ridley Scott. Por vezes ele chega até a ser confundido com a família dos “artistas” – e o caso clássico é Blade Runner –, mas é bem possível que isso aconteça por acaso, que sua intenção inicial fosse e continue sendo apenas filmar uma história da melhor maneira.

 

Revendo O gângster em DVD, fiquei pensando no que alguém como Francis Ford Coppola ou Martin Scorsese poderia ter feito de seu argumento. O primeiro estenderia o filme em mais umas duas horas, e recriaria todo o cenário novaiorquino, e daria uma dimensão wagneriana para os personagens, e um dos atores teria um infarto filmando as cenas do Vietnã. O último incluiria uma mulher linda e trágica no enredo, e puniria todo mundo ao final, e em algum momento daria um jeito de tocar Gimme Shelter, e o ajudante de Denzel Washington – não me perguntem como, já que ele não se bicava com os italianos – seria Joe Pesci.

 

É até provável que o filme ficasse melhor, só que exigiria um outro esforço do espectador, algo que nem sempre se está disposto a fazer. O gângster é diferente: passa-se por ele com leveza, nada ali chega a ser exatamente dramático ou angustiante, porque Ridley Scott parece preocupado é com o interesse que todos temos em saber a que horas um chefão do tráfico acorda, se ele come pão com manteiga no café da manhã, se ele vai com a mãe na missa aos domingos, se ele consegue os melhores tickets para ver Muhammad Ali. Em Coppola e Scorsese essas cenas de dia-a-dia funcionam num sentido de ritmo, os intervalos de respiro entre as seqüências que dão o peso e o significado reais, amplos e solenes ao roteiro. Em Scott elas são praticamente tudo. Como há poucos riscos nessa escolha, e como muito pouca gente sabe filmar como ele – pense em Alien, Gladiador, Falcão negro em perigo –, dificilmente algo que faça será menos do que bom, ou com sorte até muito bom.

I won’t go, go, go…

Postado em Listas, Outros às Junho 23, 2008 por Michel Laub

 

(continuação do post de ontem):

 

Amazônia, a roda dos sonhos – O grupo Sensus apresenta esse novo espetáculo, em que o público fica sentado em um círculo e presencia uma festa com rituais indígenas.”

 

Depois de tudo – “A peça se inspira no desabamento na obra da Estação Pinheiros do Metrô para retratar a situação de uma família que é levada para um quarto de hotel depois de ter a casa condenada.”

 

Desistência – uma mulher que não sai e não atende a porta –   Conta a história de uma mulher que rejeita a ajuda de instituições que querem integrá-la à sociedade e se torna uma referência no bairro onde mora. A platéia é exclusivamente feminina.”

 

Jogando no quintal – “O espetáculo de improvisação de palhaços reúne uma platéia de ‘torcedores’, que escolhem o time preferido dentro da peça e votam nas performances dos atores.”

 

A vida secreta de Batman e Robin – “Robin decide se afastar de Batman ao descobrir que, depois de perseguir bandidos nas ruas de Gotham City, ele termina suas noites em uma boate gay.”

I say no, no, no…

Postado em Listas, Outros às Junho 22, 2008 por Michel Laub

 

Talvez sejam grandes peças de teatro, mas não deu muita vontade de sair de casa depois de ler estas sinopses no jornal:

 

Ghandi, um líder servidor – “Monólogo no qual o pacifista Gandhi faz uma palestra apontando possíveis soluções para os conflitos entre o Oriente e o Ocidente.”

 

Brasil de cabelos brancos – “Ao som de antigas canções, como Besame Mucho e Lua Branca, o musical conta a história de dois casais que envelhecem.”

 

Adelina – “O novo espetáculo do grupo Ventoforte é um solo de teatro-dança inspirado em uma paciente de um hospital psiquiátrico.”

 

Cidadão de papel – “A partir da obra do colunista da Folha Gilberto Dimenstein, o grupo propõe a discussão de temas como política, educação, cidadania, sexualidade e ética.”

 

Santo guerreiro e o herói desajustado – “Primeira experiência de teatro de rua da companhia, a peça simula um improvável encontro entre Dom Quixote e São Jorge para discutir o arquétipo do herói nos dias de hoje.”

Fim de semana

Postado em Dicas, Outros às Junho 19, 2008 por Michel Laub

 

Um lançamento em DVD O gângster, de Ridley Scott.

 

Uma exposição – desenhos espanhóis no Masp.

 

Um pedaço de livro – o primeiro capítulo de O mago, de Fernando Morais (Planeta, 632 págs.).

 

Uma festa beneficiente – ACTC da Oscar Freire, sábado à tarde.

 

Uma músicaGreat DJ, The Ting Tings.

 

Um restaurante chinês – Hi Pin Chan, na Padre Chico.

 

Uma tira – Adão Iturrusgarai e a série dos “profissionais diferentes”.

Filmes cujas sinopses no guia de cinema do jornal não são particularmente animadoras

Postado em Cinema, Listas às Junho 18, 2008 por Michel Laub

 

O fim dos tempos – “Um professor de ciências tenta proteger sua família durante uma crise ambiental de larga escala, iniciada por uma toxina liberada por plantas, que leva a população à loucura e induz ao suicídio.”

 

Um homem perdido – “Um fotógrafo francês viaja ao redor do mundo à procura de experiências extremas, até que seu caminho cruza com o de outro fotógrafo, o solitário Fouad Saleh.”

 

Corpo – “Legista tenta descobrir a identidade de um corpo encontrado em uma vala comum. Na trajetória, conhece uma jovem idêntica ao cadáver.”

 

Longe dela – “Mulher que sofre do mal de Alzheimer não reconhece o marido, de quem passa a ser completamente dependente.”

 

O tempo e o lugar – “O diretor recupera a trajetória de Genivaldo da Silva, alagoano que militou no MST, de onde saiu por não concordar com alguns de seus métodos, e foi expulso do PT.”

Mehldau com intervalos

Postado em Música, Vídeos às Junho 17, 2008 por Michel Laub

 

Em três partes, Brad Mehldau toca Black Hole Sun, do Soundgarden.

 

 

Se não estou enganado, foi nesta música que ele parou umas 63 vezes para afinar o piano num show em São Paulo, lá por 2006.

 

 

Mas, como aqui, não perdemos muito com as pausas.

 

Arnaldo Jabor, o AI-5 e o delírio

Postado em Livros às Junho 16, 2008 por Michel Laub

 

Sobre o tema do post de ontem, não é apenas a justificativa histórica, a circunstância de ter vivido tanto o nazismo quanto o comunismo, que dá autoridade e verossimilhança à prosa de um escritor como Imre Kertész, para quem a desolação da Hungria nos anos 1990, cenário do livro Liquidação (Companhia das Letras, 112 págs.), às vezes guarda aspectos de horror semelhantes aos da burocracia stalinista ou de um campo de extermínio.

 

No caso de Kertész, é por meio de uma solenidade até um pouco árida demais que o texto alcança essa “verdade”. No de Thomas Bernhard, como já cansei de dizer aqui, é por meio de uma falsa ênfase, que também traz em si um tipo particular de humor – recurso muito mais importante, por exemplo, do que o fato de ele enxergar a herança da Segunda Guerra por baixo da aparência ordeira da sociedade austríaca na segunda metade do Século 20.

 

De qualquer forma, são analogias construídas, nunca apenas declaradas. Um exemplo oposto é o texto que Arnaldo Jabor publica no novo número da revista Granta (Alfaguara, 280 págs.), no qual descreve uma bad trip de ácido logo depois da decretação do AI-5, em 1968. Ninguém duvida da dureza daqueles tempos, mas seu retrato inevitavelmente se dilui na afetação de passagens como esta: “Eu buscara um desbunde alegre e florido como o dos americanos do flower power, mas saquei que ali a devastação de 68 nas ‘melhores cabeças da minha geração’ seria tão brutal como a tortura que enchia os quartéis de gritos”. Em pleno delírio, ele lembra: “Intuí, confusamente, que a história detesta indefinições e que, nos países miseráveis, ela sempre se define pelo pior”. E segue: “Entendi com horror que a política iria virar uma piada ridícula dali para a frente, um pesadelo cômico”.

 

Como Kertész ou Bernhard, Jabor encerra sua memória relacionando a opressão do passado e um suposto totalitarismo do presente: “Sinto também (estarei muito louco?) que essa liberdade maluca e sem objetivo, fetichizada, essa invasão de corporações globais, esse mundo dividido em deus do oriente e deus do ocidente, entre Bush e Obama, a massificação dos desejos e das culturas, tudo parece um Ato No 5 sem rostos militares, mas que deve estar matando outras coisas essenciais que sobraram em nós, como aquelas que a ditadura matou, quarenta anos atrás.”

 

No limite, e o próprio Jabor provavelmente concordaria, não há termos de comparação entre a ditadura militar e a vida brasileira em 2008. Assim como não há entre o nazismo e a Hungria ou a Áustria atuais. O fato de aceitarmos ou não que um escritor diga o contrário é uma questão estética, que se resume ao seu talento retórico e ficcional e prova, para o bem e para o mal, como a literatura sempre pode se distanciar da vida.

Terror no McDonald’s

Postado em Livros às Junho 15, 2008 por Michel Laub

 

Entre as observações que o protagonista de Austerlitz faz sobre paisagens e arquitetura (ver posts da semana passada), há uma frase que poderia resumir todo um universo ao qual pertence a literatura de W. G. Sebald. “O átimo de terror de um flash”, diz o personagem sobre a iluminação branca de um McDonald’s em Londres, “fora ali perpetuado, e não havia mais nem dia nem noite”.

 

A abordagem é típica de uma linhagem de intelectuais para quem certos aspectos do mundo contemporâneo, como a vida burguesa e a cultura de massas, encarnam sintomas de um pesadelo totalitário. Por razões que mereceriam um ensaio à parte, essa acabou sendo uma visão mais comum em autores que viveram sob a presença ou a herança ainda forte do nazismo ou do comunismo. Não é a mesma coisa, acho, que J.M. Coetzee escrevendo sobre os rescaldos do Apartheid ou António Lobo Antunes remoendo a herança do colonialismo português: em Sebald – como em Elias Canetti e Imre Kertész, antes, ou no próprio Thomas Bernhard depois –, a intensidade da experiência ou da memória do horror parece ainda mais profunda. No subtexto de suas obras, passado e presente se fundem numa quase imobilidade, o que faz com que algo tão comum e doméstico para a maioria das pessoas – imaginem uma família passando na lanchonete antes de voltar para a casa num domingo à noite – possa ser equivalente, mesmo que em termos apenas sugestivos, a uma cena da Alemanha de 1942.

Fim de semana

Postado em Dicas, Outros às Junho 12, 2008 por Michel Laub

 

Um filme para ver se sobrar um tempinho – Antes que o diabo saiba que você está morto, de Sidney Lumet.

 

Um filme para não ver – Sex and the City, de Michael Patrick King.

 

Um filme para não ver e falar mal (ou bem, dependendo da platéia e de suas intenções): Cleópatra, de Júlio Bressane.

 

Um livro – A fera na selva, de Henry James (Cosacnaify, 96 págs.).

 

Uma exposição – World press photo 2008, no Sesc Pompéia.

 

Uma música – L’Hôtel particulier, Serge Gainsbourg, na versão de Michael Stipe.

Filmes que enganam o público, mas ainda assim são bons

Postado em Cinema, Listas às Junho 11, 2008 por Michel Laub

 

Por enganar entenda-se aquele lamentável expediente de informar, lá pelo último quarto da história, que tudo o que você viu até aqui é 1) um sonho; 2) fruto da imaginação de um psicopata ou esquizofrênico; 3) algum tipo de conspiração cognitiva que, metalingüisticamente falando, é uma referência ao próprio dom de iludir intrínseco à sétima arte, sabe?

 

Clube da Luta – Para quem sempre teve vontade de, na fila do xerox, na sala do café ou durante a apresentação de Power Point, mostrar as gengivas ensangüentadas para um colega de trabalho com quem nunca conversou. O filme é presa fácil para qualquer crítico que queira subir na vida acusando-o de fascismo – afinal, ele prega que a saída contra a opressão da sociedade moderna é a porrada –, mas numa reprise de meio de semana, num horário particularmente desleixado do Telecine, é uma alegria contar com o cansaço irônico das falas de Edward Norton e o frenesi pop da direção de David Fincher.

 

Uma mente brilhante – Porque, pelo menos à distância, poucas coisas podem ser tão divertidas quanto a mania, a obsessão e a paranóia. A última peça de Zé Celso, por exemplo, vale só pelas menções a Silvio Santos e ao governador José Serra em meio a uma trama passada na Araraquara dos anos 1950. Mais ou menos o equivalente ao colega de quarto imaginário, ao agente da CIA imaginário e, desconfio, à esposa e ao Nobel imaginários do matemático Russell Crowe.

 

Vanilla Sky – Ok, este não chega a ser propriamente bom, mas é simpático assistir às tentativas de Cameron Crowe – uma espécie de Nick Hornby mais carente e sentimental – de explicar o mundo a partir das letras de suas canções preferidas, das capas de seus discos de estimação ou de diálogos transportados de alguma fusão tardia entre Breakfast Club e Hal Hartley. E com um detalhe: em alguns momentos, especialmente quando entram em cena Cameron Diaz e o homem da Internet, tudo de repente se transforma num filme de David Lynch, em que somos assaltados pela percepção meio fatalista de que algo muito ruim está muito próximo de acontecer. De fato acontece: Tom Cruise viverá para sempre.

Ainda ‘Control’

Postado em Música, Vídeos às Junho 10, 2008 por Michel Laub

 

David Bowie, The Jean Genie, música que está na trilha do filme:

 

Ainda o Joy Division

Postado em Música, Vídeos às Junho 10, 2008 por Michel Laub

 

Versão dos Killers para Shadowplay:

 

‘Austerlitz’ (2): mais um trecho, só para dar uma animada

Postado em Livros às Junho 10, 2008 por Michel Laub

 

“Sobretudo nas horas do crepúsculo, que sempre haviam sido as minhas preferidas, eu era acometido por uma angústia a princípio difusa, depois cada vez mais densa, em virtude da qual o belo espetáculo das cores que empalideciam se transformava em uma lividez maligna e sem luz, o coração no peito se comprimia até um quarto do seu tamanho natural, e na cabeça só me restava um pensamento: preciso subir ao patamar do terceiro piso de uma certa casa na Great Portland Street, onde alguns anos atrás tive um estranho impulso depois de uma consulta médica, e me jogar da balaustrada nas profundezas escuras do poço da escada.”

Vulcões e bordéis

Postado em Livros às Junho 10, 2008 por Michel Laub

 

Há um consenso de que Austerlitz, de W.G.Sebald (Companha das Letras, 287 págs.), é o lançamento de ficção do ano no Brasil. Pouco a acrescentar ao que a crítica já disse sobre a magnífica construção do livro, sua mescla perfeita de romance e ensaio e o efeito ao mesmo tempo irônico e melancólico das fotografias intercaladas à história (ainda mais agudo, acho, do que nos contos de Os emigrantes).

 

Apenas um adendo sobre comparação que tem sido feita entre Sebald e Thomas Bernhard: é fato que 1) ambos usam narradores meio ausentes da cena, que quase se limitam a reproduzir o pensamento de terceiros, o que gera aquele efeito meio bizarro e cômico da sobreposição do “disse fulano” com o “disse beltrano”; 2) há em ambos a ambição de nomear exaustivamente as coisas num tempo em que a história européia parecia ter esgotado sua capacidade de produzir catástrofes, o que os coloca na mesma linhagem temática, vamos dizer assim.

 

Mas também é fato que existe uma diferença de tom entre essas vozes. A de Sebald é “para fora”, generosa, nunca deixando de oferecer ao leitor o deleite de suas imagens, metáforas e  riqueza vocabular, trazendo uma espécie de beleza para passagens que no fundo estão tratando de algo terrível:

 

“Onde antes havia sido chão firme, onde passavam estradas, onde pessoas haviam morado, raposas haviam corrido pelo campo e pássaros de toda espécie haviam voado de arbusto em arbusto, agora não havia nada mais que espaço vazio, e no fundo dele pedras e cascalho e água estagnada, intocada até mesmo pelo movimento do ar. As silhuetas das centrais elétricas nas quais ardia o linhito flutuavam como navios na escuridão, prédios cor de cal com a forma de paralelepípedos, torres de resfriamento com coroas dentadas, chaminés vertiginosas, sobre as quais plumas de fumaça imóveis pairavam brancas contra as cores malsãs que estriavam o céu ocidental. Apenas no pálido lado noturno do firmamento apareceram algumas estrelas, luzes fuliginosas e fumarentas que se extinguiam uma após a outra, deixando atrás de si escaras nas órbitas que sempre trilharam. Ao sul, em um vasto semicírculo, erguiam-se os cones dos vulcões extintos da boêmia, que no meu pesadelo eu desejava que entrassem em erupção e cobrissem tudo ao redor com poeira preta.”

 

Já Bernhard, ao contrário, mais diz do que mostra, mais declara do que sugere. Aparentemente mais pobre, essa concentração de repertório é que acaba sendo seu grande triunfo, porque é na repetição exaustiva que sua prosa acha um humor azedo e exuberante, talvez único na literatura da segunda metade do Século 20 (trecho de O náufrago):

 

Vai para a Suíça, onde tudo é podre; a Suíça é o país mais sem caráter da Europa, disse: lá, sempre tive a impressão de estar num bordel, disse. Um puteiro só, seja no campo ou nas cidades, disse. Sankt Moritz, Saas Fee, Gstaad – todas casas de tolerância, e isso para não falar em Zurique, Basiléia, bordéis internacionais, disse ele várias vezes, bordéis internacionais.”

Curtis, Cobain e os mitos do romantismo

Postado em Cinema, Música às Junho 8, 2008 por Michel Laub

 

Se alguém duvida da persistência de certos mitos do velho romantismo, basta olhar para dois fenômenos consolidados nas últimas décadas: o discurso ecológico mais radical, com sua pregação de retorno a um tempo idealizadamente puro, e o rock, com seus mártires sensíveis derrotados pela engrenagem de um mundo bruto. Por isso é tão raro ver hoje filmes como Apocalipse Now e Fitzcarraldo, em que a natureza aparece não como salvação, mas como a mais antiga e implacável inimiga do homem. Ou como as estréias recentes e complementares Joy Division, documentário de Grant Gee, e Control, ficção dirigida por Anton Corbijn.

 

Nesses dois últimos, que valem também pela reconstituição didática, mas nunca aborrecida das origens e da trajetória musical do Joy Division, os roteiros escapam da tentação de explicar sociológica ou psicologicamente o suicídio do líder Ian Curtis em 1980. Se pensarmos no apelo que sempre envolve teses assim, dá para dizer que está longe de ser pouca coisa.

 

É só lembrar o que já foi feito com Kurt Cobain, o único nome posterior do rock com dimensão e destino semelhantes aos de Curtis. Com exceção de Últimos dias, de Gus Van Sant, não lembro de nenhuma reportagem, livro ou filme que deixasse de insinuar que seu suicídio, em 1994, pudesse ter sido causado pela pressão da fama sobre uma alma sensível e despreparada para o papel de porta-voz geracional. Quem escapou disso fez ainda pior – caso de um documentário, cujo nome e diretor tive a felicidade de esquecer, que quase formalmente acusa Courtney Love de ter sido a responsável pela morte do marido…

 

Não digo que a fama súbita seja incapaz de acelerar um processo auto-destrutivo, mas é quase obsceno reduzir algo tão complexo quanto um suicídio a uma trama assim, de uma simplicidade próxima do novelesco. Com a agravante de fazê-lo em geral à distância, baseando-se em meia dúzia de depoimentos de amigos e familiares sem noção alguma do que aconteceu ou pode ter acontecido.

 

De tudo o que saiu sobre Cobain à época de sua morte, lembro de uma matéria do N.M.E. em que o repórter especulava de forma tímida, para logo depois retomar as explicações de praxe, sobre o papel das fortes e constantes dores de estômago do cantor no aprofundamento de seu vício em heroína – o que, numa seqüência lógica, levou-o ao estado de desespero que precedeu o fim. Um paralelo disso pode ser encontrado em Joy Division e Control, que mencionam o pesadelo da epilepsia e da bipolaridade na vida de Curtis.

 

Um reducionismo também? É possível. Mas com mais chances de se aproximar de algum tipo de verdade, acho, do que a mitologia do herói romântico de vida breve e arte eterna.

Fim de semana

Postado em Dicas, Outros às Junho 5, 2008 por Michel Laub

 

Um livro Austerlitz, de W.G.Sebald (Companhia das Letras, 287 págs.).

 

Um filme Control, de Anton Corbijn.

 

Uma músicaThe Jean Genie, David Bowie, da trilha de Control.

 

Um médico que você não deve consultar se é epilético – o que aparece em Control.

 

Uma exposiçãoLuis Gordillo e Manolo Quejido, no Masp

 

Uma bebida – White Russian.

Egopress

Postado em Livros, Outros às Junho 4, 2008 por Michel Laub

 

Aqui, a lista de autores da Festa Literária Internacional de Parati/2008, entre os quais este blogueiro.

 

Aqui, depoimento meu ao programa Laboratório de Leitura.

Marvin Gaye, Montreux, 1980

Postado em Música, Vídeos às Junho 4, 2008 por Michel Laub

Sugestões para aprofundar os atuais métodos de preparação de atores

Postado em Cinema, Listas, Outros às Junho 4, 2008 por Michel Laub

 

Como se sabe, este negócio de distanciamento e construção externa da interpretação está muito em baixa nos meios cinematográficos, teatrais e televisivos do Brasil. Hoje é preciso que o ator viva o seu personagem como uma segunda natureza, que pesquise e incorpore a complexidade de suas experiências numa espécie de osmose estética, histórica, sociológica, psíquica, econômica, política e até mesmo moral, no sentido que toda formação de um self assim o é. Para tanto, nossos diretores e suas equipes de preparação bem que poderiam pensar em coisas como:

 

Convênio com universidades – para que atores interpretando advogados, por exemplo, não apenas aparentem ser, mas sejam advogados. O filme poderá atrasar cinco ou seis anos, dependendo de o curso ser diurno ou noturno, mas sempre dá para contratar Fátima Toledo ou aquele tenente aposentado do Bope para forçar o aluno a adiantar uns créditos e não se distrair na cantina ou nas passeatas contra a Monsanto.

 

Workshop de acidentes de carro – Exercício imprescindível se a obra for um remake nacional de Crash ou uma novela com essa temática. A oficina de desmaios e mortes, apesar de determinados problemas práticos, principalmente se a preparação for para uma peça teatral, pode ser ministrada paralelamente.

 

Semana Caio Blat de rejeição em restaurantes – Com a intenção de mergulhar no eu profundo do protagonista do filme Bróder, segundo matéria da Folha, o ator alugou uma casa no Capão Redondo e adotou um visual de ex-presidário – o que surpreendentemente, vejam bem, fez com que ele fosse um tanto mal recebido num estabelecimento da rua São Carlos do Pinhal. Mas, se isso servir para tornar sua performance mais autêntica (afinal, é preciso sentir na pele o preconceito), dá para pensar em estratégias que possam causar efeitos semelhantes junto a proprietários socialmente insensíveis: entrar no restaurante ensangüentado dos pés à cabeça, ou quem sabe segurando um lança-chamas na posição on, ou ainda pedindo ao garçom que o ajude a acomodar à sua mesa, logo na entrada, de frente para a porta, um animal morto há mais de duas semanas – um boi, uma zebra ou uma girafa.

Viagem ao fundo da sala - mais dois trechos

Postado em Livros às Junho 2, 2008 por Michel Laub

 

Um agente de cobranças, explicando as modalidades oferecidas por sua empresa (“constrangimento”, “humilhação” ou “degradação total”), começa pela primeira, levada adiante por um funcionário bastante velho chamado Wilf:

 

“Nós mandamos o Wilf, com uma roupa toda mijada, entrar cambaleando e soluçando num elegante almoço de negócios. Chamando o diretor pelo primeiro nome, ele diz ‘Pete, por que você não fala mais com o seu pai?’ e mais um palavrório sugerindo intimidade familiar. Nosso alvo sempre pode dizer que o Wilf é um lunático, e talvez sua palavra seja aceita. Mas talvez não. Então eu telefono e pergunto: você vai pagar? Wilf nunca precisou aparecer em mais de dois almoços”.

 

E aqui, Fischer novamente usa a última frase para trazer o absurdo da situação para um tom natural, como se o que foi dito nada tivesse de ofensivo, técnica essa que é uma das essências do cinismo:

 

“Tá legal – diz o australiano – Até a noite de hoje, a pior coisa que fiz foi mandar uma garota botar um saco de papel na cabeça antes de trepar com ela. Não sei como é para vocês, mas as mulheres bonitas não me agradam muito. Prefiro os dragões. Antes de meter bronca, eu preciso de uma situação em que possa dizer para mim mesmo: ‘Porra, tu não vai para a cama com aquilo, vai?’ Um dia eu saí com um tribufu total. Ela estava subindo pelas paredes. Eu também, mas queria conferir até onde ia o desespero dela. Então falei que só transaria se ela colocasse um saco de papel na cabeça…

Ele está mentindo. Já fez coisas muito piores.”

Viagem ao fundo da sala

Postado em Livros às Junho 1, 2008 por Michel Laub

 

A Folha de S. Paulo publicou semana passada uma resenha minha sobre Viagem ao fundo da sala, de Tibor Fischer (Rocco, 255 págs.). É um romance cujo humor dificilmente pode ser resumido em um trecho ou outro, já que seu efeito se apóia mais no acúmulo do que em piadas isoladas. Página a página, parágrafo a parágrafo se sucedem histórias narradas por personagens que se deliciam em pisar na cabeça dos outros e depois rir muito a respeito. Por exemplo, dois sujeitos que roubam o carro e o equipamento de um fotógrafo durante a guerra dos Bálcãs, vão até a fronteira, bebem, voltam ao local do crime, propõem devolver o passaporte à vítima caso ela entregue suas calças, aí pegam as calças e fogem de novo.

 

Na resenha, guardadas as diferenças de temas e linguagem, digo que o livro às vezes lembra a anarquia e a crueldade dos romances de Martin Amis dos anos 1980, especialmente Money e London Fields. Mais que uma tentativa de choque barato, e sem que obviamente se endosse as barbaridades que são ditas o tempo todo, esta ausência de bons modos por vezes consegue ser até subversiva, ferindo as inesgotáveis suscetibilidades étnicas, sociais, religiosas e sexuais que dão o tom da crítica literária hoje:

 

“Ele havia sido criado num orfanato e seduzido pelo técnico de natação aos doze anos.

– Que coisa horrível – eu disse, solidária.

– Não – corrigiu Sergio. – Foi fantástico. Ele me amava e deu muitos presentes.”

 

Ou:

 

“Depois Rutger aparecia como um tratador de porcos, enquanto uma mulher idosa, que evidentemente desconhecia os benefícios da ginástica, de uma boa dieta ou da cirurgia plástica, transava com o porco. O bicho tinha uma expressão de decepção com a vida”.

 

Ou, ainda sobre Rutger e sua passagem pela indústria pornô:

 

“A primeira parte, de mais ou menos três minutos, tinha só duas cenas com ele. Rutger interpretava o namorado de uma esteticista que observava, escandalizado, ela ser estuprada pelo entregador de pizza. Esse primeiro clipe ilustrava amplamente por que Rutger estava tentando uma carreira nesse ramo do cinema. Ele tinha um antitalento para representar. Ele sugava o talento dos demais atores. Sua tarefa ali era olhar, mas ele parecia exatamente o que era, alguém tentando parecer um namorado escandalizado. Mais tarde, Janos explicou que Rutger só conseguiu aquele papel porque pagou ao diretor e comprou a pizza.”

Aleluia, gretchens

Postado em Música, Vídeos às Maio 29, 2008 por Michel Laub

 

No ar novamente, com Regina Spektor e Leonard Cohen:

 

Ausência

Postado em Outros às Maio 15, 2008 por Michel Laub

 

Vou tirar uns dias para tratar dos cachorros. O blog volta a ser atualizado na última semana de maio.

Fim de semana

Postado em Dicas, Outros às Maio 15, 2008 por Michel Laub

 

Um livro – Viagem ao fundo da sala, Tibor Fischer (Rocco, 255 págs.).

 

Uma exposição – Claudio Mubarac, Instituto Moreira Salles–SP.

 

Uma música The songs that we sing, Charlotte Gainsbourg.

 

Uma caixa de DVDs – Família Soprano, primeira temporada.

 

Um restaurante para ir depois dos Sopranos, onde você come lingüiça e canoli fingindo que sua piscina está cheia de patos – Taormina, na Itu.

A alegria em três versões

Postado em Livros, Outros às Maio 14, 2008 por Michel Laub

 

Primeiro, a descrita por J.M.Coetzee neste trecho de A vida dos animais (Companhia das Letras, 144 págs.):

 

“Como é ser um morcego? Nagel sugere que antes de podermos responder essa pergunta, precisamos ser capazes de experimentar a vida do morcego por meio das modalidades sensoriais de um morcego. Mas ele está errado; ou pelo menos está nos colocando na trilha errada. Ser um morcego vivo é estar cheio de ser. Ser plenamente morcego é igual a ser plenamente humano, o que quer dizer também estar cheio de ser. Ser-morcego no primeiro caso, ser-humano no segundo, talvez, mas essas considerações são secundárias. Estar cheio de ser é viver como corpo-alma. Nosso nome para a experiência de ser pleno é alegria”.

 

Depois, a que Guimarães Rosa descobre no meio do jardim numa das novelas de Corpo de baile (Nova Fronteira, 266 págs.):

 

“(…) deixavam-no engatinhar no chão, meio àquele fresco das folhas, ele apreciava o cheiro da terra, das folhas, mas o mais lindo era o das frutinhas vermelhas escondidas por entre as folhas - cheiro pingado, respingado, risonho, cheiro de alegriazinha.”

 

E finalmente, como uma transposição da alegriazinha para a cidade nossa de cada dia, aquilo que o sujeito sente ao abrir a página de quadrinhos, no café da manhã, e se deparar com isto:

 

 

 

 

 

Uma pergunta para Marcelo Tas

Postado em Outros às Maio 13, 2008 por Michel Laub

 

Jornalista, autor do Blog do Tas, criador do histórico repórter Ernesto Varela e atual apresentador do CQC, programa que vai ao ar às segundas, na Band.

 

O que é novo e o que é datado no humor brasileiro?

 

O humor brasileiro é muito rico e versátil. Tem para todo gosto, e com qualidade, desde o pastelão de Didi Mocó até os hai kais de Millôr Fernandes. Portanto, o novo está em todo lugar e em diversos formatos. Como no renascimento de Tom Cavalcanti e Tiririca na TV Record. Também adoro os comediantes de rádio de São Paulo, como o Chupim na Metropolitana ou o pessoal do Na Geral, na Band. Há ainda a turma do stand-up, que começou com a fagulha da Terça Insana, em São Paulo, e hoje se espalha literalmente por todo país. Sou fã do Clube da Comédia, que nos trouxe Rafinha Bastos, Danilo Gentilli e Oscar Filho para a televisão no CQC.

 

Datado no humor? Na briga pela audiência tem muita gente tentando repetir fórmulas consagradas. E aí vem os deuses impiedosos do humor para derrubar essas tentativas de piada totalmente sem graça.

Um clássico

Postado em Música, Vídeos às Maio 12, 2008 por Michel Laub

Minha astronomia de playboy

Postado em Livros às Maio 12, 2008 por Michel Laub

 

Sou o primeiro a comemorar quando a crítica se torna uma peça estética em si, o que é evidentemente raro. O grande Sérgio Augusto de Andrade, fazendo referência à grande Pauline Kael, disse uma vez que entre as funções do crítico está “devolver o sabor à arte”. Há muitas maneiras de fazer isso, o que passa por aquela espécie de competição entre comentador e autor tratada no post aí de baixo, mas às vezes nada do que for dito sobre um livro despertará tanto interesse nele quanto a simples reprodução de um de seus trechos.

 

É o que me ocorreu quando, no ensaio Para ler como um escritor (Zahar, 319 págs.), Francine Prose interrompe os elogios a The making of Ashenden, de Stanley Elkin, romance sobre “o caso de amor arrebatado e altamente inadequado entre um homem rico e um urso”, e deixa sua prosa falar sozinha:

 

“Durante toda a minha vida adulta fui um hóspede nas casas de outras pessoas, seguindo o sol e as estações como uma ave migratória, um instinto em mim, a astuta sensibilidade do homem rico para o momento propício, um senso de ostra-em-mês-com-r operando ali onde se sabe sem referência a nada de exterior o momento de pôr na mala a raquete de tênis, de levar o binóculo alemão para observar as aves de um amigo, o telescópio para contemplar suas estrelas, o traje de mergulho para nadar sob suas águas quando os peixes exóticos estão migrando. Não está no Times quando o smoking preto sai de cena e entra o branco; é algo mais seguro, mais sutil, o delicado sistema de orientação dos privilegiados, minha astronomia de playboy.”

Verdades incômodas do mundo literário

Postado em Listas, Livros às Maio 11, 2008 por Michel Laub

 

Sobre o crítico – Martin Amis diz que um dos problemas da crítica literária é que seu instrumento de expressão, o texto, é o mesmo usado pelo objeto de sua análise, diferentemente do que acontece na música, no cinema, nas artes plásticas, no teatro. Ou seja: ao decretar que um escritor não sabe escrever direito, o crítico no mínimo terá de fazê-lo numa prosa com algum sabor e algum brilho, o suficiente para não parecer um exercício de despeito ou falta de noção. Para irritação dos críticos, que acham essas questões mundanas demais para serem discutidas nas esferas elevadas onde atuam, o fato é que todo escritor, ao ler uma resenha negativa de seu livro, instintivamente trata de avaliar o texto do seu algoz – e na imensa maioria dos casos, óbvio, chega a uma conclusão não muito lisonjeira a respeito.

 

Sobre o escritor – Embora haja as honrosas exceções, que são em número muito menor que o anunciado, toda obra literária é autobiográfica. Não só naquele sentido geral e cômodo – “o que eu penso sou eu” ou “a forma como digo é como sou” –, mas diretamente mesmo: pessoas ao redor do escritor, fatos, cenas, sensações, é virtualmente impossível que isso não seja transportado, de uma forma ou de outra, com os devidos disfarces e perfumes, para dentro dos seus livros. Como esse escritor está sempre em busca de assunto, sua vida muitas vezes passa a ter uma função utilitária, num processo que John Updike definiu mais ou menos assim: até decidir se dedicar à literatura, o sujeito sofre as coisas de verdade, porque ainda tem tudo a perder; a partir do momento em que passa a ver nas experiências ruins uma possível matriz de ficção, não é muito difícil transformar “dor em mel”. Dá para acrescentar que, como ainda se acredita que esse mel será mais doce se houver mais dor, em alguns casos patéticos – juro que estou falando em tese, gente – o sofrimento passa a ser quase desejado.

 

Sobre o escritor que é também crítico – Bem, aí a gente precisa se defender como pode, construindo meia dúzia de argumentos que justifiquem intelectual e moralmente as mesquinharias descritas acima. Num ótimo ensaio que andou circulando em 2007, Zadie Smith disse algo interessante sobre T.S. Eliot, segundo quem a personalidade do autor não interessa, ou, num resumo mais grosseiro, texto e autor são inconfundíveis. Pergunta Zadie: será que Eliot não dedicou seu enorme talento para defender essa tese, entre outras razões, porque em sua biografia constava o fato de ter abandonado a própria mulher num hospício?

Fim de semana

Postado em Dicas, Outros às Maio 8, 2008 por Michel Laub

 

Um filme ok O sonho de Cassandra, Woody Allen.

 

Uma exposição okA cultura do cartaz, Instituto Tomie Ohtake.

 

Um livro okPara ler como escritor, Francine Prose (Zahar, 319 págs.).

 

Um restaurante ok – Robin de Bois, na Capote Valente, ao lado da casa do Tofu.

 

Uma músicaThis flight tonight, Joni Mitchell.

 

Um drink para dormir bem – Mojito.

 

Um drink para dormir na sarjeta – Dry Martini.

1968, o ano que terminou em ‘golden shower’

Postado em Outros às Maio 7, 2008 por Michel Laub

 

Entre as coisas boas e ruins do legado de 1968, o “ano que não terminou”, há curiosidades que ajudam a entender o caminho meio melancólico que as idéias por vezes seguem ao longo das décadas.

 

Apareceram dois desses exemplos na semana passada. O primeiro é um depoimento de Wladimir Palmeira, antigo líder estudantil e agora figura conhecida do PT carioca, que definiu o espírito dos protestos da época como “a certeza de que se estava mudando a vida, de que se podia recusar tudo”. Pois hoje, segundo reportagem do Mais, o centro de suas preocupações é a “questão da reprodução humana”. Ou, em suas palavras: “Cada vez o homem reproduz-se menos. Cada vez mais, a ciência aumenta a expectativa de vida. Ora, a morte permite a melhoria da espécie, renova-a com novos nascimentos; se o ritmo em que isso acontece decai, a decorrência é o aumento do conservadorismo. Tenho certeza de que chegaremos a um impasse”.

 

Dependendo da interpretação, o raciocínio caberia num programa demográfico, digamos assim, de um Pol Pot. Mas quero crer que Palmeira não estivesse pensando que a solução para o “conservadorismo” seria diminuir a expectativa de vida da população… De qualquer forma, digo que isso tudo é meio melancólico porque, no fundo, e ainda bem, não há nenhuma chance de uma idéia assim ser levada a sério.

 

O mundo de hoje é muito mais pragmático. Há algumas semanas, num artigo em sua coluna na Folha, Antonio Cícero lembrou que o único regime capaz de tolerar a divergência é o capitalismo democrático. Não porque ele seja “melhor” que outros sistemas, mas porque é baseado num fator amoral, o lucro, que só depende de si mesmo para existir. Os demais, ao contrário, são baseados em idéias – a do direito divino dos reis (absolutismo) e a da igualdade total entre os homens (comunismo), por exemplo –, e idéias sempre correm risco ao serem contestadas.

 

Portanto, no regime que temos hoje é perfeitamente possível seguir achando, como os participantes do movimento de 1968, que o ocidente é regido por uma conspiração entre grandes empresas, governos corruptos e mídia. Não digo que não seja verdade em alguns casos, mas desconfio que a repetição dessa tecla é mais uma questão de conforto pessoal, a tranqüilizadora facilidade de encontrar explicações simples para tempos tão angustiantes, do que fruto de qualquer reflexão política, econômica ou moral.

 

Bem, é o que sobra para pensar depois de ler o que Arthur Veríssimo escreve na Trip sobre a urinoterapia, programa alimentar em que o sujeito bebe seu próprio xixi para reaproveitar sais e elementos teoricamente desperdiçados na excreção: “Parte da comunidade médica refuta a urinoterapia pelo fato de que a indústria farmacêutica impôs suas regras e normas à medicina moderna. Quem vai ganhar dinheiro com um remédio gratuito?”.

Auto-ajuda para quem está num filme de máfia dirigido por Martin Scorsese

Postado em Cinema, Listas às Maio 6, 2008 por Michel Laub

 

1. Se você não for italiano e receber algum convite esquisito feito por italianos, para algo como uma cerimônia de iniciação entre italianos ou um encontro no deserto com italianos, não vá.

 

2. Se começar a tocar um riff ou solo de guitarra dos anos 1960, largue tudo que tem em mãos e saia correndo.

 

3. Se por algum acaso, numa loja de conveniência ou até dentro de um porta-malas, você enxergar, ouvir a voz ou intuir a presença da mãe do diretor, sinto dizer que há más notícias no horizonte.

 

4. Não use roupão.

 

5. Não presenteie ninguém com jóias ou casacos de pele.

 

6. Não faça malabarismos num programa de TV nem deixe a babá do seu filho falar ao telefone.

 

7. Por mais tentador que seja, e sei bem que é, não mande surrar os antigos pretendentes da sua mulher.

 

8. Por mais tentador que seja, e nem precisamos perder tempo discutindo a respeito, não case com esta mulher.

 

9. Se você for cozinheiro: use a mesma quantidade de recheio em cada muffin. Se for garçom: cuide com quem vai fazer piadinhas. Se for carteiro: envelopes com logotipo de escolas municipais não devem chegar ao seu destino. Se vender perucas: tudo bem pular na piscina diante das câmeras, o problema é não pagar os credores em dia.

 

10. E sobretudo: se você estiver em meio a um flashback, com uns dez ou doze anos de idade, relativamente conformado em engraxar sapatos ou apanhar do seu pai sem motivo, em hipótese alguma estimule qualquer tipo de contato ou amizade com Joe Pesci.

Egopress

Postado em Livros, Outros às Maio 6, 2008 por Michel Laub

 

Aqui, para assinantes, a resenha que fiz de Slam, romance de Nick Hornby, para a Folha de S. Paulo.

 

Aqui, minhas respostas a um questionário da Zero Hora sobre livros preferidos, começos inesquecíveis, etc.

 

Aqui, na seção de ensaios do Digestivo Cultural, os posts sobre Carne viva, de Paulo Francis, reunidos num só texto e com um parágrafo a mais.

 

Aqui, site do Festival Internacional de Jovens Escritores de Seul, Coréia, para onde vou semana que vem.

 

Aqui, programação do evento Palavra na Tela, minha estréia como blogueiro em debates sobre internet.

 

Aqui, site da Academia Internacional de Cinema de São Paulo, onde dou um curso de ficção no fim do mês.

Romeu e Julieta

Postado em Música, Vídeos às Maio 6, 2008 por Michel Laub

 

Cover dos Killers, com guitarra vermelha em vez de azul, dica do notório cineasta dgdg:

 

Faulkner, Thomas Bernhard, García Márquez

Postado em Livros às Maio 4, 2008 por Michel Laub

 

A primeira tarefa de qualquer escritor, como se sabe, é convencer o leitor. Isso não significa fazê-lo acreditar na “verdade” do que está sendo contado, e sim permiti-lo embarcar no que Coleridge chamava de suspensão voluntária da descrença, conceito que se aplica tanto ao realismo ortodoxo quanto à menos linear das fantasias. O processo para chegar a tal estado não deixa de ser misterioso, como aquele que nos faz dizer se um ator é bom ou não. Mas também há elementos que servem de pista para julgarmos se um texto cumpre a tarefa.

 

De cara, dá para pensar em três: o tom, a linguagem e a coerência narrativa com o gênero escolhido. Curiosamente, são atributos que, ao serem usados para obter um efeito determinado, o do convencimento por meio da convicção, acabam juntando três autores do Século 20 de aparência muito diversa entre si.

 

O primeiro deles é García Márquez. No seu caso, era necessário fazer o leitor acreditar que crianças podem ser carregadas por formigas, ou que houve uma epidemia de esquecimento num pequeno povoado onde existem homens que são seguidos por borboletas amarelas. Para tanto, ele usou o método da especificidade, sobre o qual tem uma frase famosa: “Se você diz que há elefantes voando no céu, as pessoas não vão acreditar em você. Mas se disser que há quatrocentos e vinte e cinco elefantes no céu, as pessoas provavelmente acreditarão.