Michel Laub

Suando no apocalipse

Num ensaio sobre “Júlio César”, filme de Joseph Mankiewcz baseado em Shakespeare, Roland Barthes vê na transpiração dos personagens um sinal de moralidade. “Todos suam porque debatem algo consigo mesmos”, escreve o pensador francês. Homens até então virtuosos, como Brutus, demonstram o “enorme trabalho fisiológico” que dá abandonar princípios para cometer um crime.

Se há uma moral no suor derramado em São Paulo, que teve dias de 37 graus em meio a uma crise hídrica sem precedentes, ela também deveria vir de uma espécie de culpa: a lembrança de que o clima excêntrico dos últimos anos nasce de uma responsabilidade coletiva, dos danos que nosso estilo de vida causa à natureza segundo a quase unanimidade dos cientistas.

Texto publicado na Folha de S.Paulo, 24/10/2014. Íntegra aqui

Fim de semana

Um livro – Jan Karski, Yannick Haenel (Record, 160 págs.).

Uma exposição em Porto Alegre – Moacyr Scliar no Santander.

Um peixe na Praia Grande – Caiçara.

Um filme médio – O juiz, David Dobkin

Um disco de 1971 – In my own time, Karen Dalton.

Egopress

– Nos próximos dias participo de eventos na Praia Grande (23/10, 19h, biblioteca Porto do Saber, com Alberto Martins, João Anzanello Carrascoza e Rogério Pereira), no Sesc Ipiranga/SP (26/10, 19h30, na cozinha da Ivana Arruda Leite) e na Casa das Rosas/SP (28 de outubro, 19h30, encontro com o grupo de estudos literários Jardim Alheio).

A maçã envenenada ficou em 2º lugar na categoria Romance do prêmio Jabuti. Lista dos premiados: http://goo.gl/8eUJFg

A palestra matemática perfeita

João Moreira Salles sobre o discurso de Artur Avila ao ganhar a Medalha Fields de matemática, maior prêmio já concedido à ciência brasileira (texto publicado na Piauí de setembro):

“Às duas da tarde de sexta-feira (…), Avila subiu ao palco. Na segunda fileira, um senhor se inclinou para a frente. Alto, magro, barba e cabelos imaculadamente brancos, olhos intensos e rosto afilado de zigomas pronunciados, lembrava um místico de novela russa. Era John Milnor. Pense num gigante matemático, salpique gênio a gosto e este será o americano Milnor, de 83 anos, Medalha Fields 1962 (e mais quantos prêmios relevantes existam na matemática). Em 2001, ele viajara ao Rio para integrar a banca de defesa de tese de Avila. Agora, segurava um bloco no qual se avistava uma folha virgem, pronta para receber anotações. Estava pronto para começar e, se tivesse um lápis, o levaria à ponta da língua.

Todo de preto, vestindo jeans e camiseta, Avila se dirigiu ao auditório lotado: ‘Tenho certa dificuldade em falar para tantas pessoas. Já tentei explicar meu trabalho várias vezes, sem muito sucesso, e hoje vou tentar pela última vez.’ Então projetou o primeiro slide. Dez minutos depois, Milnor largou discretamente o bloco na poltrona vazia a seu lado. A folha continuava limpinha, limpinha.

Um matemático russo certa vez descreveu a palestra matemática perfeita: no primeiro terço, palestrante e plateia compreendem o que está sendo dito; no segundo, o palestrante compreende e a plateia não; no terço final, ninguém compreende coisa nenhuma. Avila parecia ter entrado direto no segundo terço e prosseguira assim até o final. Welington de Melo, na condição de uma das raras almas na plateia que o compreendiam, balançou a cabeça. Horas depois, daria seu veredicto: ‘Foi uma porcaria… O Artur não pode fazer isso. Ele tem que ser um embaixador do campo. Precisa ir devagar.’

Avila não ligou. Aparentemente, outras pessoas também não: mal terminou de falar, foi cercado por dezenas e dezenas de jovens, todos querendo uma foto a seu lado.”

Fim de semana

Uma exposição em Londres – Turner.

Três em Gotemburgo – Vivian Maier, Gauguin/Van Gogh/Bernard, Gótico/Heavy metal,

Um filme ok – O último concerto, Yaron Zilberman

Outro – Mesmo se nada der certo, John Carney.

Um livro – The cat’s table, Michael Ondaatje (Alfred A. Knopf, 269 págs.).

Novo vocabulário político

A linguagem do poder democrático pode ser chata: porcentagens, orações adversativas sem glória. Um governo só consegue ser funcional com alguma reverência aos fatos. Talvez desse para contar a história brasileira dos últimos vinte anos pelo modo como nossos principais partidos sublinharam ou negaram – sem sucesso – tal monotonia.

Em tese, a social democracia petista é a primazia da política sobre a ação econômica. O social liberalismo do PSDB seria o contrário. No primeiro caso, o discurso foi temperado com algum getulismo e retórica grandiloquente setentista; no segundo, com toques de República Velha e jargão tecnocrata noventista.

Apesar das diferenças de sotaque, visão de Estado e visão da sociedade, ambos são partidos reformistas do fim do século 20. Seus governos têm em comum, ao menos, a ênfase na prosperidade como motor de justiça social. O que volta e meia leva a uma abordagem quantitativa: cidadania é igual a renda, educação é igual a número de alunos na escola ou na faculdade.

Publicado na Folha de S.Paulo, 10/10/2014. Íntegra aqui.

Debates atuais: roteiro básico

– A ataca B de modo agressivo. B responde de modo igualmente agressivo. A acusa B de baixar o nível da discussão.

– Figurão do meio cinematográfico ou teatral perde cargo numa secretaria. Dá entrevista denunciando dirigismo/patrulha ideológica. Figurão ligado à secretaria rebate denunciando as velhas panelas do setor. Um abaixo-assinado é feito. Notas saem em colunas sociais. Em uma coisa todos concordam: faltam verbas.

– Acontece alguma coisa estranha envolvendo Machado de Assis: editora recusa originais de um texto seu enviado com pseudônimo, celebridade diz que o considera chato ou cita frase de Brás Cubas fora de contexto. Cai uma tempestade na cabeça do(s) réu(s). Índices de leitura no país continuam ridículos.

Texto publicado na Folha de S.Paulo, 26/9. Íntegra aqui.

Diário da Queda – imprensa no exterior

– Resenhas/matérias em inglês: Independent (http://goo.gl/uJAqbk), Financial Times (http://goo.gl/5s87I0), BBC Radio (http://goo.gl/JzrOl8, comentário a partir de 22:00), Publishers Weekly (http://goo.gl/Ny1hWb), New Statement (http://goo.gl/ACjA6n), Irish Times (http://goo.gl/4jvwyo), Brooklyn Rail (http://goo.gl/bGlLsS), Literary Review/US (http://goo.gl/xtuvEP),  Boston Globe (http://goo.gl/Dxj6KJ), Bookmunch (http://goo.gl/Yaa2ch), Northern Echo (http://goo.gl/TIX799), One Day Perhaps I’ll Know (http://goo.gl/5EevJg), Plasticrosaries (http://goo.gl/fVEj4y), Bookslut (http://goo.gl/P32coh), Winstonsdad’s Blog (http://goo.gl/Q3hrvz), Baits for Bookworms (http://goo.gl/t5OcMm), Escapades for bookworms (http://goo.gl/PyuoW1), I read novels (http://goo.gl/13KSqd), Kirkus Reviews (http://goo.gl/JWabw2), Miss Chapter’s Reviews (http://goo.gl/rJxYZX), Corduroy Books (http://goo.gl/2V6Dfv), Bloggers Recommend (http://goo.gl/d0Ydxl), Washington Independent Review of Books (http://goo.gl/bb0BRe), 1Streading (http://goo.gl/5y1Xla), Book People’s Blog (http://goo.gl/4U1xU2), Great New Books (http://goo.gl/fr92Ks), Lit/Rant (http://goo.gl/kN0WbQ), blog da Barnes & Noble (http://goo.gl/mmtpV0), Wall Street Journal (http://goo.gl/bWRt3R) e nas edições impressas do Independent on Sunday, da Literary Review/UK, do Bookseller, da Press Association e do The Sun + nota na Paris Review (http://goo.gl/gdRxWN) + dicas de livros para a Copa do Guardian (http://goo.gl/msBJ8S ) e do Independent on Sunday (http://goo.gl/Z5z7DY ) + livros de verão do Financial Times (http://goo.gl/ygDVO4) + livros do ano/Herald Scotland (http://goo.gl/VS6ZzJ) + lista da American Booksellers Association (http://goo.gl/GkGL5U) + revista da Oprah (http://goo.gl/p9cHqs).

– Resenhas/matérias na Alemanha: Focus (http://goo.gl/I5bVtG), Deutscheland Radio (http://goo.gl/DnbzVW), Buchtips.net (http://goo.gl/seMAow), HR (http://goo.gl/qkR8yl), WAS (http://goo.gl/cSl122), Tópicos (http://goo.gl/ViXYX9), Frantfurker Rundschau (http://goo.gl/7q7EGS), Noe Oz (http://goo.gl/WKYPl3), Athenaeum Boekhandel (http://goo.gl/pcUiTH), Literaturwelt (http://goo.gl/KDZUQD), Woxx (http://goo.gl/XTnY6Z), Buzzaldrins Bücher (http://goo.gl/YsJlgM), LiteraturKritic (http://goo.gl/zsy2B7). Na Holanda: TPO Magazine (http://goo.gl/yQJSDz). Na Espanha:  Devaneos (http://goo.gl/qLYLHR), Ricardo Menéndez Salmón (impresso – Faro de Vigo/La Nueva España/ La Opinion de Tenerife), El Imparcial (http://goo.gl/OBdzFC). Na França: Le Monde (impresso), Transfuge (impresso), Libération (impresso), Salon Littéraire (http://goo.gl/ZLOEKz), Annelisa (http://goo.gl/PxlH7e), Creezzy (http://goo.gl/GfhBfV), Mediapart (http://goo.gl/43pyIl), Espaces Latinos (http://goo.gl/oPP36H), Cecile’s Blog (http://goo.gl/TTwwAA). Na Suécia: SvD (http://goo.gl/Fbr7QK), GP (http://goo.gl/f4ehlM), Kulturdelen (http://goo.gl/tQQcGo), Milder.No (http://goo.gl/ZpYBgR),  Expressen.se (http://goo.gl/ITBqwo), Bokstugan (http://goo.gl/ydVkDw), DN (http://goo.gl/f3IY6E), NSD (http://goo.gl/RpD37j), Dagensbok (http://goo.gl/ITIzMG). Na Noruega: Rosie-Maries Litteratur (http://goo.gl/loUmrr), Jeg Leser (http://goo.gl/K1cVtd). Na Itália: Recensire Il Mondo (http://goo.gl/7kGhbz). Em Portugal (impresso): resenhas de José Mario Silva (Expresso), Isabel Coutinho (Público), Ana Dias Ferreira (Time Out/Lisboa).

– Entrevistas: Deutsche Welle (Alemanha): http://migre.me/gkJJk. ZDF TV (Alemanha): http://goo.gl/pI4QeD. Rádio CBC, Canadá (a 32’33): http://goo.gl/ftWiBa. Público (Portugal): http://goo.gl/R7E3kz. RTP (Portugal): http://goo.gl/tAYkdp. Rádio Universitária do Minho (Portugal): http://goo.gl/1cE64n. NRT (Noruega): http://goo.gl/10HIi6. SVT (Suécia): http://www.svt.se/kultur/laub. Blog da Random House/Vintage: http://goo.gl/jupU3d. Debate com Javier Cercas no Festival de Edimburgo: http://goo.gl/5a9GRP. Debate com David Grossman no festival de Gotemburgo (http://goo.gl/jexGNl).

– O livro acaba de sair na França (Buchet/Chastel), Estados Unidos (Other Press), Noruega (Gyldendal Norsk) e Suécia (Albert Bonniers). Já está publicado na Alemanha (Klett-Kotta), Espanha (Mondadori), Holanda (Anthos), Inglaterra (Harvill Secker/Vintage), Israel (Modan), Itália (Feltrinelli) e Portugal (Tinta da China).

Egopress

– A partir de quinta, estarei na Feira do Livro de Gotemburgo (Suécia), que este ano homenageia o Brasil (http://goo.gl/jaAszm). Mesas de que participarei em 25/9: 13h30 (com Charlotte Werner), 15h (com Henrik Jönsson) e 17h (com Fredrik Ekelund). 26/9: 11h (com Daniel Galera e Leonardo Tonus) e 14h (com Charlotte Werner). 27/9: 13h (com David Grossman).

– Semana que vem faço dois lançamentos do Diário da queda na França: 30/9, em Bordeaux (livraria La Machine à Lire), com Ilana Heineberg, e 1/10, em Paris (Maison de l’Amerique Latine), com Yannick Haenel.

– Na sequência, participo da Fliside (Snape, Inglaterra): 4/10, 10h, debate com Michael Ondaatje, e 5/10, leituras com Ondaatje, Benjamin Zephaniah e Liz Calder. http://www.flipsidefestival.co.uk

Fim de semana

Uma estreia teatral – Terra de ninguém, dir. Roberto Alvim.

Uma padaria – Bolonha.

Uma exposição boa no Masp – Arte africana.

Uma ok – Julian Schnabel.

Um disco – Popular problems, Leonard Cohen.

Bem-vindos à fogueira

Há vários roteiros previsíveis no atual debate público. Um deles ocorre quando alguém faz algo que parece monstruoso. Passos seguintes: 1) crucificação; 2) psicólogos teorizam; 3) alguém lembra que estamos num Estado de Direito e não se deve condenar sem provas; 4) na hipótese de se revelar que a história não era bem assim, lamenta-se a cultura de linchamento em que vivemos.

Por ora, me contendo com o papel algo bacharelesco do item 3. É o que resta diante de “Bem-Vindo a Nova York”, filme de Abel Ferrara sobre o caso Dominique Strauss-Khan, em cartaz desde a semana passada. Para quem não acompanhou, trata-se do francês que presidia o FMI em 2011, quando foi preso por supostamente abusar de uma camareira num hotel de Manhattan.

Texto publicado na Folha de S.Paulo, 12/9/2014. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um perfil – Delfim Netto na Piauí.

Outro – Al Pacino na New Yorker.

Um livro brasileiro de poemas – Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo, Paulo Scott (Companhia das Letras, 80 págs.).

Um de contos – Um homem burro morreu, Rafael Sperling (Oito e Meio, 127 págs.).

Um disco – I thought I was an alien, Soko.

O que não se pode fazer a um gato

Wislawa Szymborska em Poemas (Companhia das Letras, tradução de Regina Przybycien):

“Morrer – isso não se faz a um gato.

Pois o que há de fazer um gato

num apartamento vazio.

Trepar pelas paredes.

Esfregar-se nos móveis.

Nada aqui parece mudado

e no entanto mudou.

(…)

Algo aqui não começa

na hora costumeira.

Algo não acontece

como deve.

(…)

Cada armário foi vasculhado.

As prateleiras percorridas.

Explorações sob o tapete nada mostraram.

Até uma regra foi quebrada

e os papéis remexidos.

(…)

Espera só ele voltar,

espera ele aparecer.

Vai aprender

que isso não se faz a um gato.

Para junto dele

como quem não quer nada,

devagarinho,

sobre patas muito ofendidas.

E nada de pular miar no princípio.”

 

Fim de semana

Um documentário – Finding Vivian Maier, John Maloof e Charlie Siskel.

Um filme difícil – Welcome to New York, Abel Ferrara.

Um ensaio – Virginia Woolf e a intimidade, por Joshua Rotman (http://goo.gl/FrqOz3)

Uma peça em Londres – My night with Reg.

Dois restaurantes – Nopi, Yauatcha.

Editorial

A Folha andou publicando anúncios (http://goo.gl/eCKv1F) com resumos de suas posições sobre temas controversos do momento. A ideia é boa porque, diante da profusão de notícias, artigos de espectros variados e até editoriais que passam despercebidos no dia-a-dia, é comum achar que um veículo é mais “conservador” ou “progressista” – aspas nestes termos, sempre – que de fato é.

Com os colunistas, imagino que aconteça o mesmo. Ao menos com os que (eu) não costumam falar dos assuntos quentes da semana. Ou têm gosto por frases longas e cheias de penduricalhos argumentativos (eu de novo), que podem soar de muitas formas – nenhuma delas muito decidida. Fica minha contribuição à transparência, portanto, em meio a mais um tolerante período eleitoral.

Publicado na Folha de S.Paulo, 29/8/2014. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma exposição em Londres – Gilbert & George (White Cube).

Outra – Peter Hujar (Maureen Paley).

Mais três – Joseph Beuys, Henry Wessel, cartazes russos (Tate Modern).

Um livro – O que amar quer dizer, Matheu Lindon (Cosac Naify, 298 págs.).

Um filme okzinho – Magia ao luar, Woody Allen.

Egopress

1) A maçã envenenada está entre os finalistas do Prêmio São Paulo. Livros que também concorrem + categorias: http://goo.gl/kVAXjS

2) Áudio do meu debate com Javier Cercas no Festival de Edimburgo: http://www.bbc.co.uk/programmes/p02525r9

Autoficção e mamadeira

Muito se fala da chamada autoficção, ou da tendência de escritores contemporâneos a usar elementos de aparência autobiográfica em suas obras. A Cosac Naify lançou há pouco dois possíveis e ótimos exemplares da vertente: “Formas de voltar para casa”, de Alejandro Zambra, romance que se lê como memória, e “O que amar quer dizer”, de Mathieu Lindon, memória que se lê como romance.

Texto publicado na Folha de S.Paulo, 15/8. Íntegra aqui.

Egopress

– Nesta segunda estarei na Penitenciária Feminina de Sant’Ana conversando sobre A maçã envenenada, que foi lido no clube de leitura da instituição.

– No próximo domingo, às 18h45, participo de uma mesa no Festival de Edimburgo, Escócia, ao lado de Javier Cercas (http://goo.gl/0p49dk).

– Um conto meu saiu na edição sueca da Granta (http://goo.gl/8oJwtq).

– Até o fim de agosto, Diário da queda termina de ser publicado em todos os países para onde foi vendido. As últimas edições saem na Suécia (Albert Bonniers), França (Buchet Chastel) e Estados Unidos (Other Press).

Fim de semana

Um texto – Gustavo Ioschpe sobre Israel (http://goo.gl/CS1NAl).

Um making of – Carlito’s way (http://goo.gl/LtWBHb).

Um livro de Javier Cercas – As leis da fronteira (Biblioteca Azul, 429 págs.).

Outro –Soldados de Salamina (Francis, 241 págs.).

Uma caixa de CDs – Mutantes.

Poesia e dicionários

Num ensaio sobre o “Grande Diccionario Portuguez”, publicado em 1874 por Frei Domingos Vieira, o também grande Sérgio Augusto de Andrade afirma: “Em nenhum momento [o autor] simula indiferença diante da língua (…). Cada palavra representa um desafio, um compromisso, uma questão de honra, uma sinfonia e o projeto de uma estética.”

Algo parecido dá para dizer do “Partido das coisas”, de Francis Ponge, escrito em 1942 e editado no Brasil pela Iluminuras. Em forma de verbetes, ou mini-ensaios que evocam as características de objetos, pessoas, animais, plantas, lugares e elementos da natureza, o autor francês mistura o que daria para chamar de rigor léxico com a exuberância de sua sensibilidade.

Texto publicado na Folha de S.Paulo, 1/8/2014. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma publicação antiga – Grande diccionario portuguez, Frei Domingos Vieira.

Uma entrevista antiga – João Ubaldo no Roda Viva (http://goo.gl/cxGu9d).

Uma lista – Javier Marías e razões para escrever/não escrever romances (http://goo.gl/4FAO4f).

Um izakaya ok – Minato.

Uma série – Angels in america.

Karl Ove Knausgard dá uma real sobre poesia, mentiras etc.

Trecho de Um outro amor (Companhia das Letras, 585 págs., tradução de Guilherme da Silva Braga):

“Bastava abrir um livro e ler, e se os poemas se revelassem você os merecia, senão você não os merecia. Ser uma das pessoas a quem os poemas não se revelavam me perturbou em especial por volta dos meus vinte anos, quando eu ainda era cheio de ilusões a respeito de quem eu poderia ser. (…). Havia três maneiras possíveis de se comportar em relação a isso. A primeira era reconhecer a situação e aceita-la. Nesse caso eu seria um homem absolutamente normal que levaria uma vida absolutamente normal e encontraria o significado dela onde quer que eu estivesse, e não em outro lugar (…) A segunda era negar tudo, dizendo para mim mesmo que o potencial existia e simplesmente não tinha sido realizado ainda, e assim viver uma vida de literatura, talvez como crítico, talvez como professor universitário, talvez como escritor, pois era totalmente possível se manter nesse mundo sem que a literatura jamais se revelasse. Era possível escrever uma tese inteira sobre Hölderin, por exemplo, descrevendo os poemas, discutindo os temas abordados e a maneira como se manifestavam na sintaxe, no vocabulário, no emprego de imagens, era possível escrever sobre a relação entre os elementos gregos e cristãos, sobre o papel da natureza nos poemas, sobre o papel do clima, ou ainda sobre as relações entre os poemas e a realidade político-histórica em que tinham sido escritos (…). Era possível escrever sobre a relação com os outros idealistas alemães, Goethe, Schiller, Hegel, Novalis, ou ainda sobre a relação com Píndaro nos poemas tardios. Era possível escrever sobre as traduções pouco ortodoxas de Sófocles, ou ainda ler os poemas à luz do que Hölderin tinha escrito acerca da própria poética em correspondências. Também era possível ler os poemas e contrastá-los com a interpretação oferecida por Heidegger e Adorno em função da história de Hölderin. Também era possível escrever sobre toda a história da recepção, ou sobre a história da tradução. Tudo isso era possível sem que os poemas de Hölderin jamais se revelassem. O mesmo podia ser e naturalmente era feito com todos os outros poetas. Também era possível, com uma certa disposição para o trabalho árduo, escrever poemas próprios mesmo sendo uma das pessoas a quem a poesia não se revelava; a diferença entre um poema e um poema que apenas parece ser um poema é percebida somente por um poeta. Entre esses dois métodos, o primeiro, a aceitação, era o melhor, mas também o mais difícil. O segundo método, a negação, era o mais fácil, mas também era o menos confortável, porque a revelação de que tudo o que se fazia não tinha valor nenhum também estava muito próxima. E uma vida literária baseia-se justamente na busca pelo valor. O terceiro método, que consistia em abandonar toda essa problemática, era portanto o melhor. Não existem coisas elevadas. Não existem revelações privilegiadas. Nada é melhor ou mais verdadeiro do que qualquer outra coisa. O fato de que os poemas não se revelavam para mim não queria necessariamente dizer que eu era mais baixo do que ninguém, ou que meus escritos teriam necessariamente um valor menor. As duas partes, tanto os poemas que não se revelavam como os meus escritos, eram fundamentalmente a mesma coisa, ou seja, texto. Se meus escritos fossem mesmo piores, o que obviamente eram, não seria correto afirmar que esse era o resultado de uma situação irreparável em que me faltava alguma coisa, mas apenas de uma situação que podia se alterar através de trabalho árduo e do acúmulo de experiências. Até certo ponto, é evidente que conceitos como talento e qualidade continuavam sendo incontornáveis, porque afinal as pessoas não escrevem todas com o mesmo nível de desenvoltura. O mais importante era que não existisse um abismo, que não houvesse nada intransponível, entre os que tinham e os que não tinham; entre os que viam e os que não viam. Em vez disso, era apenas uma questão de gradação contida em uma mesma escala. Era um pensamento reconfortante [que] tinha reinado soberano na crítica artística e em círculos universitários desde a metade dos anos 1960 até hoje. Os conceitos que eu tinha adotado e que eram uma parte tão óbvia de mim que eu nem ao menos sabiam que eram conceitos, e que portanto eu não poderia expressar mas apenas sentir, e que no entanto tinham me norteado mesmo assim, eram os conceitos do romantismo na forma mais pura, ou seja, conceitos antiquados. As poucas pessoas que tinham uma abordagem séria frente ao romantismo ocupavam-se dos elementos que mantinham relações com os conceitos de nossa época, como a fragmentação e a ironia. Mas para mim a questão não era o romantismo em si – se eu sentia afinidade em relação a uma época qualquer era pelo período barroco, cheio de espaços, alturas e profundezas vertiginosas, ideias sobre a vida e o teatro, os espelhos e o corpo, a luz e a escuridão, a arte e a ciência, o que exercia uma atração mais forte sobre mim –, mas o sentimento que eu tinha de estar longe do essencial, longe do mais importante, do aspecto mais profundo da existência. Se esse era um sentimento romântico ou não, para mim não tinha a menor importância. Para aplacar a dor que essa nova situação provocava eu me defendi usando as três maneiras possíveis, e por longos períodos cheguei a acreditar nelas, em especial na última. Tentei me convencer de que a ideia de que a arte era o lugar onde ardiam as chamas da beleza e da verdade, o último lugar onde a vida podia mostrar o verdadeiro rosto, não passava de um equívoco. Mas volta e meia ela ressurgia. Não como um pensamento, mas como um sentimento imune a qualquer tipo de argumentação. Mas eu sabia muito bem que era tudo mentira, que eu estava enganando a mim mesmo.”

Fim de semana

Um filme – Até o fim, J.C. Chandor.

Um documentário – A linha fria do horizonte, Luciano Coelho.

Uma entrevista – Goulart de Andrade no Roda Viva (goo.gl/QvqxBt)

Um disco – Forgetting the present, Remember Remember.

Uma exposição – Leonilson, Galeria Superfície.

Como (não) ler os clássicos

A vida é curta demais para ler “História da Literatura Ocidental sem as Partes Chatas”, da americana Sandra Newman, que foi tema da Ilustrada no último sábado. A vida pode ser longa demais, porém, e certas polêmicas literárias acabam inevitavelmente se repetindo.

Texto publicado na Folha de S.Paulo, 18/7/14. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um livro – Um outro amor, Karl Ove Knausgard (Companhia das Letras, 585 págs.).

Uma conversa – Karl Ove Knausgard e Jeffrey Eugenides (http://goo.gl/82hjDX)

Um dossiê – Racionais Mc’s na Cult.

Um galeto de R$ 13 em Porto Alegre – Santa Helena.

Um bar – Antique.

Livros brasileiros bons e recentes – trechos

F, de Antonio Xerxenesky (Rocco, 239 págs.) – “Eu não sabia de nada em 1985, no dia em que o telefone tocou, no dia em que alguém que nunca saberei quem é, uma dessas sombras fugazes que só podem ser vistas em dias nublados e que, ainda assim, governam nosso mundo, encomendou a morte de Orson Welles.”

A vez de morrer, de Simone Campos (Companhia das Letras, 256 págs.) – “Quando mergulhava na piscina, os olhos estavam fechados. E aí vinha o pensamento: E se um dia eu abrir os olhos embaixo d’água e não vir o tanque azul-claro forrado de azulejos, e sim aquela turbidez ardida e verde do mar? O que impedia isso? Piscinas às vezes ficavam verdes se ninguém cuidava delas. Era água, era tudo água. E mesmo de olho fechado. Eu podia mergulhar aqui, levantar a cabeça e emergir em alto-mar — “emergir” recém-aprendido de Sinbad, o marujo; onde também aprendera que se fosse parar em alto-mar ninguém poderia salvá-la. O que impedia isso? Que uma pessoa sumisse, desaparecesse da existência, fosse tragada pela terra? Nada. A não ser a presença de alguém, que, como nos filmes, flagraria o fenômeno paranormal e contaria para as pessoas, que não acreditariam nela. Mas logo outras coisas inexplicáveis começariam a acontecer e então as pessoas, arrependidas, dariam ouvidos ao desacreditado. Acontecia sempre em cidades pequenas.”

O professor, Cristovão Tezza (Record, 237 págs.) – “Um dos poucos prazeres que me restam, senhores, uma toalha felpuda, tenho apenas duas delas, e às vezes calham de sumir (…) durante semanas (…) – uma breve piadinha para aquecer sua conversa, pois hoje tomei um banho especial para esta cerimônia, mas esqueci da toalha, o que obrigou este corpo decrépito, na sua horrenda desproporção de volumes, ossos, pele, barriga, a sair pelado pela casa atrás da toalha felpuda, e ele quase esbarrou em Dona Diva (…) que sem sorrir, olhos enviesados em direção à parede, para que não corressem nenhum risco, lhe estendeu justamente a toalha (…) – o momento em que ele pela primeira vez sentiu a dimensão social da velhice, aquela sutil fronteira do tempo em que a vergonha, o sexo, até mesmo o termômetro do pudor desaparecem e nos transformamos em seres, e ele sopesou a palavra, olhando para o alto, indagativo, apenas um ser.”

Ensaio sobre o entendimento humano, de Caetano Galindo (Biblioteca Paraná, 88 págs) – “Naquela situação, o grande escritor, quase proverbialmente tímido, se saiu com galhardia (Virou folclore entre os alunos da universidade e, posteriormente, depois que a transcrição do evento vazou para a internet, já sem itálico, entre leitores urbi et orbe, o momento em que ele declarou que, apesar de saber que a etiqueta que rege esse tipo de eventos pedia que ele periodicamente erguesse os olhos da folha de papel para dirigir ligeiros olhares a seu público enquanto lia seus fragmentos – numa demonstração que reconhecia servir como manifestação fática e, simultaneamente, ter certa função solidária, por minimizar, diríamos nós, o anatopismo que é a leitura em voz alta de literatura romanesca concebida original e finalmente para leitura silenciosa – era incapaz de fazê-lo [levantar os olhos da folha para etc.] sem perder irremediavelmente sua localização no texto que lia e que, assim, ver-se-ia obrigado a fechar os olhos [metáfora] para essa constrição sem que, no entanto, deixasse de estar [verbatim] agudamente consciente da presença de seu público [Risos]) e criatividade.”

Biofobia, de Santiago Nazarian (Record, 239 pás.) –“André nunca tivera paciência em ver as entrevistas da mãe quando ela estava viva. O mesmo que já ouvira tantas vezes. O que devia ter aprendido em casa, na mesa do jantar. Era estranho, porque para ela parecia que a literatura vinha em primeiro lugar, e se ele se negava a conhecer a escritora, nunca poderia conhecer realmente a mãe. Ter filhos, para ela, fora como uma oficina de criação. ‘Não é possível entender a vida realmente sem ter filhos’, dizia ela em determinado ponto. Então extraía traços de maternidade, de seus filhos, para seu próximo romance. André não precisava ler. ‘E se alguns de seus filhos quisesse seguir a mesma carreira que você?’, perguntava o entrevistador. A mãe riu. ‘Bem, meu filho mais próximo de mim, com quem eu mais me identifico, tem problemas mentais. Acho que o máximo que ele conseguiria escrever seriam microcontos.’ O entrevistador riu, um pouco constrangido. ‘Ele mora com você?’ ‘Hum… na verdade eu o mantenho preso no porão da minha casa. E o alimento com sardinhas.’ O entrevistador dessa vez riu abertamente, certo de que ela fazia uma piada. André estremeceu com a conversa e a televisão saiu novamente do ar.”

Fim de semana

Um livro – A lição do mestre, Henry James (Grua, 120 págs.).

Uma reestreia no cinema – Monty Python e o sentido da vida.

Um documentário difícil – Unhung Hero, Brian Spitz.

Um disco de 1973 – L’Apocalypse des animaux, Vangelis.

Uma reportagem – André Barcinski sobre covers e “falsos gringos” na música brasileira, na Piauí.

‘Grande Hotel Budapeste’, de Wes Anderson

Hipóteses para explicar o sucesso dos filmes de Wes Anderson: 1) porque eles são bons; 2) porque são bons ao imitar algo que não seria “bom” segundo os parâmetros correntes; 3) porque percebemos a sutileza do item 2 fingindo que estamos tratando do 1, e nossos amigos fazem o mesmo, e essa piada interna em cima da piada externa nos faz sentir inteligentes e cultivados.

“Grand Budapest Hotel”, seu mais recente trabalho, embaralha um pouco as explicações. É a reação 3, a princípio, que nos faz acompanhar com interesse as peripécias mirabolantes de um concierge (Ralph Fiennes), seu ajudante (Tony Revolori), idosas lúbricas e uma família cheia de vilões num país fictício entre o que parecem ser as duas guerras mundiais.

Publicado na Folha de S.Paulo, 28/3/2014. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma exposição – Iberê Camargo, CCBB.

Um livro – Dez de Dezembro, George Saunders (Companhia das Letras, 248 págs.).

Uma série média com tema bom – Suits.

Uma cinebio média com personagem bomPhil Spector, David Mamet.

Outra – Tina, Brian Gibson.

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